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Seattle é logo ali

Rock Brigade - 08/1993

Nosso redator Gastão Moreira foi até Seattle para uma série de reportagens para a MTV. Como muita coisa não deu pra rolar na TV, ele nos conta detalhes inusitados da cidade. Portanto, uma viagem por Seattle e suas atrações...

Depois de várias horas passadas claustrofobicamente dentro de um avião, chegamos em Seattle, nos EUA, já perto da fronteira com o Canadá. Esta viagem era uma promoção da MTV, de onde saíram várias matérias para a TV. Acompanhando-nos estavam os vencedores de uma promoção cujo prêmio era uma viagem para Seattle, e Rodrigo Vieira, da Sony Music, co-patrocinador do evento. O interessante é que sempre que dizíamos para alguém local que estar ali era um prêmio, eles davam risadas.

Vamos abordar alguns aspectos de Seattle que normalmente não são enfocados pela imprensa internacional, que só quer saber do grunge. Vamos fazer um passeio turístico desmitificador pela cidade.

Chuvas & torres - Chove demais em Seattle, mas é uma chuva leve e constante. Apesar da fama de cidade chuvosa, até que pegamos alguns bons momentos de sol. Num desses raros momentos, aproveitamos para visitar o maior cartão postal da cidade, a Space Needle. A 'Agulha do Espaço' é uma torre muito alta com vista para a cidade inteira. Além de água para todo o lado, dá pra ver o majestoso Monte Rainier, que é eternamente coberto por neve e serve como pano de fundo aos enormes edifícios que compõem o centro financeiro local. Tudo é perto e o trânsito é incomparavelmente melhor ao que estamos acostumados.

A cerveja local - Todas as conveniências culturais metropolitanas estão disponíveis na cidade. Há, porém, uma grande "inconveniência": quase todos os night-clubs gecham suas portasàs duas da manhã. Motivo: as bebidas alcólicas só podem ser vendidas até essa hora. E lá, lei é lei! E por falar em bebida, as cervejas locais são motivo de orgulho da população, que só toma café, água e...Cerveja. Caso você pinte por lá, experimente as ótimas Pyramid Ales e Redhook Ale. Fica a dica.

Tacos - Como em vários lugares dos EUA, é dificil achar o que comer. Comida do mar tem em abundância, mas os preços são inflacionados. Nós, simples mortais, atacamos mesmo é de comida mexicana: tacos e burritos. Só que, ao final da viagem, ninguém aguentava nem sentir o cheiro delas. Por causa de um desses jantares fora de hora que acabamos perdendo o show do Love Battery, que estava abrindo para o Pond e para o Screaming Trees.

Love Battery & Pond - O local era o Paramount, um ex-teatro com capacidade para 3 mil pessoas. Lá rolam os shows mais importantes da cidade. Batemos um papo com Ron Nine, vocalista e guitarrista da banda Love Battery. Ron nos disse que cinco anos atrás todos se conheciam, as bandas se prestigiavam mutuamente e os músicos dividiam quartos para dormir e ensaiar. "Naquela época todos tentavam ser diferentes. Hoje, bandas de outros lugares se mudam para cá pra fingir que são locais", lamenta Nine. No passado, ele chegou a montar um grupo chamado Room Nine, que é cultuado até hoje. "Nossos shows era como uma festa 'rave', com muitas drogas e psicodelia sonora", revela ele. Hoje, Ron espera uma chance para atingir o 'mainstream' e o novo álbum no Love Battery se chama Far Gone.

Já o Pond, é um trio com dois caras do Alasca e são considerados uma esperança da Sub Pop. Apesar de ser de Portland, que não é muito longe dali, é considerada uma banda local. Charlie, guitarrista do Pond, nos conta: " Passando a fronteira da Califórnia, toda a região acima é chamada de Noroeste, não é feita distinção entre Oregon e Washington".

Gordão tomado - O show mais aguardado no Paramount era o do Screaming Trees. Na passagem de som, já deu pra notar que o vocalista Mark Lanegan é meio afastado do resto da banda. Além de chegar quase atrasado, não ficou nos camarins após o show. Todos no Screaming Trees têm mais de 1,90 m de altura, sendo que os irmãos Conner pesam mais de 120 kg. Apesar do excesso de comida tailandesa, o guitarrista Gary Lee Conner tem uma performance que se assemelha a de Pete Townshend, do The Who, com cambalhotas hilérias. O grupo tocou 14 músicas, a maioria tirada dos dois últimos álbuns: Uncle Anesthesia e Sweet Oblivion.

Grunge?????? - É palavra proibida por todo mundo relacionado com música em Seattle. Segundo o gerente da Tower Records, Bob Zimmerman, 'grunge' é uma palavra estrangeira que não passa de rótulo fácil para as pessoas que não entendem nada de música.

George Clinton - Historicamente, o show mais importante que assistimos em Seattle foi o de George CLinton e seu P-Funk All Stars. Foi no mesmo Paramount, em quase 3 horas e meia com um dos criadores do funk. O menino Clinton está com 52 anos e continua fazendo shows que, segundo ele, têm 3 horas dedicadas ao público e meia hora para diversão dos músicos. Em um dos intervalos onde Clinton dá uma respirada, fomos bater um papinho com ele. Não é fácil entender aquele inglês de rua. cheio de gírias, mas deu para conversar. perguntamos se ele não se sentia como um mestro, já que sua banda tem 15 músicos. "Estou mais para um juiz que não está preocupado em colocar ordem na casa", disse ele. Ele produziu o Freaky Style, do Red Hot Chili Peppers, e se refere ao grupo como "my boys". Bem, os Peppers sabiam muito bem, o que estavam fazendo quando o convidaram para produzir seu disco.

Shows e mais shows - Toda noite tem show em Seattle. O Central já foi a principal alternativa para Mudhoney, Soundgarden, Nirvana e outros. Hoje, a casa só abre para jazz e blues. Mas, os melhores clubes para ver shows de rock são o Crocodile e o Off Ramp. Para saber quais os shows que vão rolar, é só comprar o Rocket, que tem todas as informações sobre o universo musical da cidade. Para 'tomar uma', a opção é o Vogue. Dos shows que vimos, merece menção honrosa o do canadense Sloan, do Cows & Janitor Joe (de Minneapolis) e do Bachman Turner Overdrive, comemorando os 20 anos do BTO.

Endino - Falamos com Jack Endino no Word of Mouth Studio, onde a maior parte das bandas que conhecemos de Seattle gravou seu disco. Para quem imaginava um belíssimo estúdio, esqueça. O local é pequeno e o equipamento é velho. Jack nos conta que várias vezes ele teve que parar as gravações de alguma banda por causa da chegada da polícia. Motivo? Barulho demais incomodando os vizinhos. A coisa, definitivamente, foi na raça!

Basquete - A última 'balada' que fizemos na cidade foi assitir um jogo de basquete do Seattle Supersonics, pela semi-final do campeonato da NBA. A coisa é tão bem organizada que não tem empurra-empurra, nem brigas, nada de trânsito engarrafado e, o melhor de tudo, ninguém pedindo para tomar conta do carro...

Em suma... - Esta viagem, além de divertida, veio confirmar que Seattle é apenas uma cidade como qualquer outra, a mídia é que coloca os 'enfeites'. Existem boas bandas por aqui, e ninguém stá muito preocupado com rótulos tipo 'grunge' ou qualquer coisa do tipo.

Gastão Moreira