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Livro revela os pensamentos mais íntimos dos suicidas

Folha de São Paulo - 06/1997

Obra de Mark Etkind, recém-lançada nos Estados Unidos, reúne bilhetes bizarros, irados e tristes escritos por anônimos e famosos como Kurt Cobain, Virgínia Woolf e Van Gogh momentos antes da morte

  Tornar pública a intimidade de um suicida parece ser um caso típico de invasão de privacidade. Mas quem disse que os bilhetes de suicídio foram escritos para permanecer no âmbito privado? Com esse questionamento em mente, o roteirista e diretor de programas educativos Marc Etkind se dedicou nos últimos anos a coletar e pesquisar cartas, notas e bilhetes deixados por suicidas.

    O resultado de seu trabalho acaba de ser publicado nos EUA. Trata-se de um pequeno e impressionante livro, intitulado "...Or Not To Be - A Collection Of Suicide Notes" ("...Ou Não Ser - Uma Coletânea de Bilhetes de Suicídio"). "Não é uma coincidência que o crescimento no número de bilhetes de suicídio corresponda ao crescimento dos jornais no século 18. Bilhetes de suicídio só se tornaram comuns quando surgiu um escoadouro para serem lidos", escreve Etkind na introdução. Com esse argumento, ele se convenceu de que não está cometendo nenhuma invasão de privacidade com o livro. Além disso, informa, todos os bilhetes citados já haviam sido publicados antes em outros livros, jornais ou revistas.

    Resolvido o problema ético, Etkind apresenta o que considera ser o grande paradoxo do bilhete de suicídio:"Se alguém consegue pensar de forma clara o suficiente para fazer o bilhete, essa pessoa deveria ser capaz de reconhecer que o suicídio era má idéia". Isso leva o escritor a reconhecer que o bilhete de suicídio está longe de ser uma obra clara. "Ao contrário, são bizarros, irados e, mais que tudo, tristes documentos de mentes perturbadas", escreve. "Uma vez que cada bilhete oferece uma visão distorcida, somente olhando toda a coletânea é que começamos a ver coerência".

    Amigo da Onça
    O capítulo mais documentado é o que trata do "temperamento artístico". "Artistas criam seus bilhetes como a última peça de um portfolio", escreve Etkind. A única referência a um brasileiro aparece aí, na reprodução de trechos da tristíssima carta deixada pelo cartunista Péricles (o criador do Amigo da Onça) a sua mãe.

    O suicídio de pessoas muito famosas costuma gerar um fenômeno perverso, que é a imitação do gesto por pessoas comuns. O caso do roqueiro Kurt Cobain, que continua inspirando jovens suicidas, está longe de ser único.

    Etkind cita um estudo de 33 casos de suicídios muito noticiados. Em 26 desses casos, a taxa de suicídio cresceu após a divulgação. Às vezes, não é uma pessoa famosa, mas um lugar muito conhecido, a fonte de inspiração do suicida. A ponte Golden Gate, em San Francisco, é a campeã norte-americana de, como diz Etkind, "ponto de partida": mais de 1000 pessoas já pularam de lá. Pular da ponte é uma maneira de tornar explicitamente público o gesto do suicida. Nesse capítulo, nada se compara ao suicídio de Bud Dwyer, então secretário do Tesouro da Pensilvânia. Acusado de corrupção, Dwyer leu um longo discurso ao vivo, na televisão, no qual reafirmava a sua inocência. Terminou o discurso, retirou um revólver de um envelope e se matou com um tiro da boca.

    No último capítulo, Etkind analisa os bilhetes deixados por pessoas que tiveram "morte assistida", ou seja, pessoas que se mataram com ajuda de terceiros, normalmente médicos. O escritor não deixa claro se é contra ou a favor da eutanásia, mas sugere concordar com os que dizem que é uma responsabilidade da sociedade tomar conta dos doentes terminais.

    Etkind conclui de forma melancólica sua pesquisa, dizendo que o medo de todo suicida parece ser o de morrer só - e que o bilhete de suicídio nada mais é que uma forma de contatar outras pessoas.


Amor é a palavra mais usada nos bilhetes

    Em "...Or Not To Be" Mark Etkind reflete sobre o sentido das últimas palavras deixadas por inúmeras pessoas famosas e outras tantas anônimas, agrupando-as por categoria (veja alguns exemplos no quadro acima). O escritor estima que 'amor' é a palavra que aparece com maior frequência nos bilhetes de suicídio. "Talvez a popularidade de 'amor' resida no fato que ele pode rer os mais variáveis signifiados".

    Estatística
    Entre uma e outra leitura de bilhetes, Etkind fornece informações estranhas. A saber: um em cada cinco suicidas escreve bilhetes; a maioria dos suicídios ocorre entre 12h e 18h; o pico de suicídios ocorre na Lua nova; tentativas de suicídio de mulheres são mais comunds durante a menstruação e nos dias que a precedem, e por aí vai.

    Segundo Etkind, quase um terço dos bilhetes de suicídio contém pedidos práticos, desde o eptáfio que o suicida deseja em seu túmulo até lembretes sobre contas a pagar. Isso mostra, segundo ele, que o autor do bilhete está concentrado em detalhes pequenos e não "nas grandes implicações do seu ato".

    Agrupados no capítulo "desonra", aparecem suicidas que cometeram crimes bárbaros, outros que foram pilhados roubando dinheiro ou plagiando obras alheias. Uma coisa une os seus escritos: apesar do gesto extremo, jamais fazem qualquer tipo de reconhecimento de culpa.

    Obra: "...Or Not To Be - A Collection Of Suicide Notes"
    Autor: Marc Etkind
    Editora: Riverhead Books
    Quanto: US$ 10 (118 págs)
Onde encomendar: na Internet, na Amazon Books (www.amazon.com); em São Paulo, na livraria Cultura, tel. (011) 259-8024