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Review: Think Tank

avaliação:

Think Tank chegou a internet meses antes de seu lançamento oficial, o que já está se tornando padrão hoje em dia. Ainda é cedo para ponderar o efeito dos downloads nas vendagens de discos, mas uma coisa já é certa: se o disco é bom, vende, não adianta.

Então os executivos da EMI devem estar preocupados, pois Think Tank não convence. Logo de cara, o disco chega a assustar. Muitos dos fãs de longa data, indignados com a saída do herói Graham Coxon, torceram o nariz para o novo disco. Mas não é tão ruim assim, já que Think Tank é daqueles discos que vai se revelando aos poucos, e contém grandes momentos.

Um deles é a faixa de abertura "Ambulance", num arranjo sensacional e boa melodia de Damon Albarn. O baixo está em primeiro plano, juntamente com batida eletrônica. Aliás, Dave Rowntree saiu da banda junto com Coxon? Praticamente não se notam traços de bateria "humana" no disco. Ainda assim, ao ouvir "Ambulance" dá para pensar que o Blur consegue se manter na boa sem um guitarrista de ofício, tamanha a vitalidade da banda nessa faixa.

O single "Out Of Time" é uma balada também carregada no baixo com alguns floreios orientais, justificados pelo disco ter sido gravado no Marrocos. "Out Of Time" também não chega a fazer feio, embora não tenha o mesmo brilho dos tempos de "To The End", que chega a lembrar em alguns momentos.

O arranjo de "On The Way To The Club" não chega a ser tão interessante, mas Albarn manda ver mais uma boa melodia. Em "Sweet Song" a banda finalmente volta a mostrar algum brilhantismo, trata-se de uma belíssima balada, entre as melhores de sua carreira. Levada no piano, com percussão simples, coro e um distante violão completam o arranjo, nota 10. Outra bela balada é "Battery on You Leg", melancólia e arranjo certeiro. Trata-se da última participação de Coxon na banda.

Mas o resto...

O que dizer de "Crazy Beat"? Trata-se do óbvio segundo single que carrega as esperanças da banda de repetir o fenômeno "Song 2". Produzido por Fatboy Slim, vem em ritmo de festa recheado de guitarras distorcidas (lembrando "Bugman") em camadas de overdubs que dão uma artificialidade desconfortante ao que poderia ser uma canção bem palatável. A música é marcada por um efeito vocal (vocoder?) intermitente que soa um tanto deslocado. O truque funcionou na divertidíssima "B.L.U.R.E.M.I." do álbum 13, mas aqui não convence. Para completar, o trecho onde Damon canta "I love my brothers on a Saturday night" lembra perigosamente uma passagem de "Fell In Love With a Girl" do White Stripes.

Em "Good Song" fica evidente o que representa Graham Coxon para o Blur. É mais uma balada muito inspirada de Damon Albarn, mas que é baseada numa frase de violão sampleada, mais uma vez trazendo uma artificialidade sufocante. O Blur bate na lona na terrível "Brothers And Sisters", construída em cima de bases eletrônicas. É nesse ponto que se torna óbvio o principal problema do "novo" Blur: a ausência de estrutura nas músicas, uma notória especialidade do grupo, em favor de bases repetitivas.

"Caravan" se arrasta sem sair do lugar numa lentidão letárgica, sendo parcialmente salva por um belo teclado na segunda metade da música. "We've Got A File On You" é uma espécie de Punk Rock Marrakesh, que funciona melhor como vinheta do que propriamente uma música. "Moroccan Revolutionary Bowls Club" é a que mais se aproxima de Gorillaz e funciona bem, até se perder em mais efeitos de vocoder.

Lembra aqueles dias onde dá tudo errado e só falta chover? É "Jets".

"Jets" concorre com "Brothers And Sisters" no páreo de pior música do disco. Beira o insuportável, total vazio de idéias. O que poderia ser pior? Um solo de sax?
Pois é, e eis que perto do final de "Jets" surge um estranhíssimo solo de sax, em alguns momentos totalmente desconectado do andamento da música. Choveu.

"Gene By Gene" traz alguns dos elementos do antigo Blur, é uma boa canção pop, estruturada de maneira bem convencional, verso-refrão. Mas o potencial pop é desperdiçado sob os arranjos modernosos do novo Blur, bateria e efeitos eletrônicos. Mais uma vez resta para o baixo sozinho o trabalho de carregar a canção. Aliás, Alex James deve estar contente, sua presença nunca tinha sido tão determinante em um álbum do Blur. Já a faixa-bônus "My White Noise" serve para trilha de rave, e agrada. Pela primeira vez no disco, efeitos eletrônicos no vocal são bem usados, criando uma apoteose irresistível. Mas é necessário retroceder manualmente a faixa 1 do CD para poder ouví-la.

Os fãs do Blur estão desde agora torcendo pelo retorno de Graham Coxon, que parece improvável devido ao caminho que a banda está seguindo. Aliás, depois de Think Tank, percebe-se melhor que 13 já não seria uma mera continuação dos acertos do album Blur de 1997, já indicava o início de algo novo. Para alguns, o início do fim. Claro que o Blur já surpreendeu muitas vezes, mas se for para lançar trabalhos inconsistentes como Think Tank, é melhor que Damon Albarn comece logo sua carreira solo. E assim deixar o nome de sua banda entrar para a história do alto da glória conquistada na última década.

Alexandre Luzardo