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Review: The Greatest

avaliação:

Estou convicto que, em seus tempos de colégio, Chan Marshall era daquelas garotas que sentava nas laterais da sala, mais para o fundo do que para a frente. Nas eventuais ocasiões em que se fazia presente, ficava rabiscando seus cadernos, indiferente à grande parte dos contatos provenientes de seus colegas e professores, como quem espera de forma impaciente o tempo passar até o momento do esperado soar do sinal. Não se misturava com os baderneiros, achava-os infantis demais, assim como ignorava por completo os inexpressivos. Com as colegas, sem chance. Preferia fumar com os alunos mais velhos, nos fundos do prédio, buscando talvez encontrar algum elo com improváveis momentos brevemente empolgantes da vida estudantil. Pequenos sinais de que a vida guardava promessas que a sintonizasse com o mundo, quem sabe. Por mais que um colega apaixonado tentasse dela se aproximar, Chan não dava sinais, ignorando-o por completo. Logo ela, que não assumia a postura esnobe das descoladas, torturava silenciosamente com sua beleza inalcançável, com sua ambigüidade polarizada entre a ternura e o vazio existencial. Chan provavelmente não chegou ao fim do superior, tampouco seus colegas voltaram a vê-la pelas redondezas.

Foi baseado em sua discografia que cheguei à essa suposição. Por mais que tenha-se atribuído a ela uma aura excêntrica, fruto de seu comportamento instável, supostos problemas com álcool e abandonos de palco no meio dos shows, sua música é o que melhor reflete sua personalidade. Em seus quatro primeiros discos, Chan levou-na de encontro a seus demônios particulares, desaguando tristezas, incompatibilidades e lamentações amorosas, sempre protegida por um campo de força que lhe tornava inalcançável – a distância entre ela e o ouvinte era uma premissa, embora sua voz trêmula e suave despertasse o desejo inevitável de uma maior aproximação. Em seguida, com seu disco de covers, Chan mostrou compatibilidade com o mundo real, dando sua visão de músicas de artistas que todos reconhecem. Já no excelente "You Are Free", finalmente conseguiu deixar suas portas entreabertas, com uma postura mais dócil para com o ouvinte, libertando suas emoções, enfatizando a cumplicidade com quem escutava sua música. Apesar dessas pequenas mudanças em sua postura, nenhuma delas sugeriu a guinada representada por mais recente trabalho, "The Greatest".

Cat Power voou para o Memphis, em busca das mesmas raízes negras que influenciaram ídolos como Bob Dylan, tendo suporte do Memphis Rhythm Band, um grupo de medalhões responsável por gravações de grandes nomes do jazz e do soul como Al Green e Booker T. & The MG's. Calcadas na música negra e no country, suas novas composições receberam roupagem à altura de seus colaboradores, numa fatal substituição da aura maldita de seus primeiros discos por uma atmosfera iluminada antes impensada para a cantora. Em vários momentos, Chan modificou tanto o caráter de sua personagem que acabou tornando-se irreconhecível, ousando agradar outras vertentes de ouvintes que não os alternativos de sempre. Com uma produção mais elaborada e faixas pinceladas com pequenas doses de ternura e alegria, "The Greatest" se afasta da discografia passada, encontrando sentimentos improváveis de serem imaginados no leque de composições de Marshall. Com isso, algumas faixas fazem dela uma intérprete quase irreconhecível, como "Living Proof", cujo clima descontraído que pode ser perfeitamente degustado pelos pais do público candidato a comprar o álbum. O mesmo serve para "Empty Shell", uma possível trilha-sonora de qualquer romance caubói, onde Chan respeita os formatos do country e lembra o ouvinte com sua bela voz de que sua personagem passa por bons momentos espirituais. Além disso, "The Greatest" foge à mania atual do alt. country, mostrando-se bem mais fiel às raízes do som que embasa o disco, sem riscos de cair nas manias ripongas que têm se feito tão presentes na música alternativa norte-americana. Em várias faixas, Chan encontra na opção musical uma válvula para desaguar um temperamento mais dócil e agradável, como na irresistível "Could We" e nas doces "Willie" e "After It All". Nelas, uma leve melancolia ornamentada por suspiros de autoconfiança dá o tom. A antiga Cat Power dá um pequeno sinal de vida em "The Moon", com sonoridades ambientadas em um dormitório, produção mais singela e a sinceridade de sempre, lembrando os climas mais enclausurados da cantora. Mas a quebra sugerida se dá no final, quando a partir de "Hope" ela retoma climas sombrios e funestos, atendendo às expectativas dos fãs de carteirinha, mesmo que em doses tão isoladas. Em "Love & Communication", ela faz um belo trabalho de banda, com guitarras sujas, bateria puxada e clima tenso em comparação ao restante do disco, zombando de quem queria um disco estritamente indie, dando a entender que embora estivesse voltada para outras praias em "The Greatest", Chan não abandonou sua verve roqueira tradicional.

A atmosfera de "The Greatest" mostra uma cantora renovada, que se encaixou precisamente em uma proposta sonora antes incompatível com seus passos anteriores. Nem por isso sua sensibilidade musical foi afetada, pois se em alguns momentos ela deixa o ouvinte sem acesso ao que se espera de Cat Power, por outro lado entrega peças musicais certeiras que compensam eventuais ausências. Embora tais mudanças pareçam momentâneas em seu universo, o significado delas comprova que Chan Marshall está disposta a olhar a vida por lados mais iluminados e comunicativos. Como se ela, anos após o distanciamento, esbarrasse em seus antigos colegas de aula e os cumprimentasse, ostentando um singelo sorriso em seu rosto encantador, para em seguida retomar seu caminho.

Vicente Moschetti
julho/2006