INTERMISSION: Este texto, assim como esse
aqui, não foi escrito como resposta a alguém ou
a algum outro site. Também não se trata de nenhum
manifesto ou desabafo. Surgiu daquelas conversas de final de tarde,
"o que estamos fazendo?", "por que estamos fazendo?".
Não estamos contra ninguém, apenas acreditamos no
nosso jeito de fazer as coisas. [nota do revisor]
How near, how far, how lost you are
How near...*
Tenho o Mogwai por padrão.
Não tentam se explicar. Poucas palavras, muitas estrelas,
trabalho único. E não precisam se explicar. E assim
vem acontecendo por aqui... Um pequeno texto de apresentação,
mas nada de muito conteúdo muito explícito em cada
bocado muito de texto. Muito e muito casimir. Até porque
não me meto a entender de cada sonzinho de música
e de cada palavrinha de música. Sou limitada por minhas próprias
interpretações.
Se bem que há mais votos para
uma divagação R.E.M. Corri o mesmo risco e aconteceu
o que não poderia deixar de acontecer.
Um belo dia, eis que resurgem-em
fenixmente palavras alvoroçadas clamando sentido, coesão
clássica, palavras para serem entendidas e não sentidas.
E por que não? Assim surgiram, e já foram e irão
ser poemas. Deixamo-las com sentido então, e vamos ao que
interessa.
Nos últimos tempos, ocorreram
a insurgência e a maior divulgação de bandas
que antes estavam relegadas ao "circuito underground"
ou, como acho mais legal, à garageira. Surgiram tentativas
de auto-afirmação desse "movimento cultural",
inusitadamente mas não inesperadamente ligadas a essa maior
divulgação. Assim, a "música underground"
começou a sedimentar suas raízes junto ao público
fiel mundo afora, e não mais reduzido ao nicho das pequenas
cidades natais de cada banda. Como em qualquer movimento artístico,
isso revelou bastantes músicas de qualidade e artistas comprometidos
com sua arte.
Mas essa história não
é nenhuma novidade. Já faz tempo que ilustres desconhecidos
são alçados aos holofotes sem precisar ter berço.
Talvez o grande auê tenha se dado porque agora ficou mais
comum. Ou se tenha dado mais atenção. Ou caiu na rede.
Ou, ainda, como forma de organização da mídia,
passou-se a usar o termo "indie", corruptela de "independent",
apenas para se referir a todas essas bandas que, independente
do estilo musical, faziam o que podiam em suas cidades.
E os anos passaram. De novo. Não
muitos, para dizer a verdade. Como não poderia deixar de
ser, começaram a surgir caçadores de bruxas, "profanações"
e um maior envolvimento da mídia. Música "indie"
virou rótulo para certos sons. Artistas deixam de ser "indies"
quando conseguem fazer que sua música chegue aos ouvidos
de mais de cem pessoas - e pobres coitados deles se mais de cem
pessoas se identificam com sua música.
São muitas e muitas correntes
e torrentes, e estamos todos vivendo no meio disso (acredito que,
se você conseguiu chegar a ler este texto, deve ser porque
você também sente isso na pele). Exemplos da "explosão"
não faltam, desde a polêmica Pitchfork até os
muitos blogs de música independente por aí. Há
muitos casos notáveis, de gente que faz tudo por paixão
à música, que tenta levar a voz das bandas "indies"
para o mundo. Há, como sempre, casos de gente querendo se
promover como jornalista, grande filantropo ou como pseudo-artista,
como sempre existem. O "indie", dizem, virou moda de boutique,
com piercings, roupas descoladas, óculos de aro de plástico
preto, o que traz uma sensação de deja vu (ou g-deja
vu). Um pessoa pode ser denominada "indie", uma viagem
pode ser "indie", e aimeudeus um anel pode ser "indie".
Quem sabe se o anel estiver fora do dedo... Não que seja
errado se vestir assim, como não é errado, em Seattle,
usar uma tradicional camisa de flanela do seu pai lenhador para
se esquentar no frio. O que parece assustador é como isso
está crescendo em proporções tamanhas e se
desvirtuando. Isso já foi o mesmíssimo destino de
tantas coisas no passado.
E a Dying Days só está
assistindo a tudo isso passar. Live and let die**. Já se
foi o tempo em que o sangue fervia e que muita coisa era cretinice.
Parece que foi ficando mais claro o que deve ser considerado importante
e o que não. É mais do que hora para saber que rótulos
são rótulos e sempre haverá incomodações
ao redor deles. E brigas entre rótulos e coisas que não
deveriam ser rotuladas nem ter etiqueta de preço. Querendo
ou não, felizmente ou infelizmente, nós nos identificamos
com muita música oriunda do chamado "cenário
alternativo". "Alternativo", acreditamos, apenas
refere-se a tudo aquilo que, ao contrário da política
vigente, siga apenas o próprio coração das
pessoas que fazem música, sem interesses outros de ganhar
dinheiro, aparecer na mídia nem mesmo fazer pose de inteligente
na frente de seus amigos. Mais do que isso; está acima disso.
Admiramos quem faz sua música com a mínima influência
que é possível de tudo que não consideramos
importante. Admiramos aqueles que expõem seus sentimentos
mais verdadeiros, independente se há dez ou seis bilhões
de pessoas no mundo que vão se identificar com isso. Admiramos,
mas nem sempre gostamos da música. Mas admiramos simplesmente
porque é nisso que acreditamos. Essa seria o que considero
de atitude mais digna de um artista. Mas somos todos humanos. E
o que importa mesmo é a música em si, desprovida de
mesquinharias. Não deixar de ouvir o clássico e o
hype e considerá-lo mau por ser mau. Nem endeusar o que está
relegado ao esquecimento. Às vezes as coisas caem no esquecimento
por justa causa, mesmo. Às vezes não, também,
é claro. E, como vocês podem ver espalhados pelo site,
há muitas coisas legais, sim, em todos os lugares. E bandas
mais próximas ("brasileiras", como normalmente
são denominadas) também existem, só não
incluímos ainda nenhuma por pura falta de oportunidade/tempo.
Este é apenas uma pequena
nota para acalentar quem está assustado com e assuntando
sobre tudo isso. Nunca deixaremos a essência morrer, e a excelência
da Dying Days é feita apenas por esforço e determinação
de muitas pessoas que a constroem com punhos comandados por seus
corações.
Por isso a não divulgação
do site com propagandas, nem nenhuma estratégia avançada
de marketing. Infelizmente ele é do alcance apenas por boca
a boca ou por fuçar a internet. Sem parcerias formais com
nenhuma instituição, para não se corromper.
Apenas laços de afetos entre seus construtores, apenas por
se identificarem com o som em sua forma mais pura.
De quem gosta de música para
quem gosta de música, simplesmente, sempre.
It's only rock 'n roll but I like
it!***
* Trail of Dead
** Paul McCartney
*** Rolling Stones
Por favor, não me explique.
desconfie daquele som por todos indicados
que você não conseguiu ouvir.
desconfie das bandas grandes
desconfie das bandas pequenas
desconfie principalmente das médias e daquelas que se dão
tamanho.
desconfie das que se adoram
desconfie das que se odeiam
desconfie das que comem macarrão frio.
desconfie dessas vibrações do seu tímpano
desconfie desconfie desconfie
desconfie das atitudes políticas pegajosas amorais morais
imorais
desconfie de atentados a guitarras
desconfie de atentados a qualquer coisa.
desconfie principalmente da morosidade nos seus ouvidos
desconfie desconfie desconfie
desconfie do one hit wonder
desconfie do one cd wonder
desconfie também ou - principalmente - do ten-cd-wonder.
desconfie se não está gostando
desconfie se está gostando
desconfie para ouvir realmente
desconfie desconfie
des
con
fie
do
que
vo
cê
lê
por
a
í.
con
fi
e
no
que
con
se
gue
atra
ves
sar
até
aque
le
lu
gar
em vo
cê
que
deci
de
o
que
vo
cê
gos
ta
e
o
que
não.
confie que mogwai loves you more
than god does.
Natalia, que se meteu a traduzir em palavras o que
é a Dying Days, apesar de saber que quem a visita, constrói
e cuida dela já deve pelo menos ter intuído tudo isso.
28/07/2003
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