Esta é a versão antiga da Dying Days. A nova versão está em http://dyingdays.net. Estamos gradualmente migrando o conteúdo deste site antigo para o novo. Até o término desse trabalho, a versão antiga da Dying Days continuará disponível aqui em http://v1.dyingdays.net.


Home | Bandas | Letras | Reviews | MP3 | Fale Conosco
Dia dos Namorados

Era uma vez Monique, Rory, Diana e Darla. Todas elas vinham de boas famílias, tinham corpos com medidas equilibradas, gostavam de jogar "queima", eram altas e seus pais prezavam muito sua liberdade, pois liberdade e vida social são muito importantes na formação do indivíduo. Elas freqüentaram muitas dessas festas americanas, em que você dança música lenta com os meninos (mas só se você já tem peitinhos), e depois fica com eles, e tal, e depois volta pra rodinha das amigas, diz que foi nojento e vai dançar música rápida com a bolsa no meio das pernas. Era uma vez Vinícius (Vina), César (Cé), Pé-Grande e Soviete. Todos eles eram uns nerds escrotos que gostavam de músicas bem trabalhadas como Yingay Malmestima e se achavam politizados porque eram que nem o Gabeira, só que sem o cérebro, só os pulmões. Os dois grupinhos se cruzaram na universidade, porque, como todo bom acadêmico, eles e elas gostavam de jogar pebolim na máquina de fundo torto do diretório acadêmico. Daí, como não tinha mais festa americana, as meninas foram nas festas do diretório. Eu não vou perder meu tempo aqui descrevendo o que aconteceu, mas o resultado é o seguinte: suponha o grupo das meninas A formado por A1, A2, A3 e A4, e o dos meninos O formado por O1, O2, O3 e O4. Todas as combinações possíveis foram formadas dentro de um intervalo de tempo inferior a doze meses, com repetição. Todos eles ganharam presentes de dia dos namorados. Hoje, anos e ânus mais tarde, eles continuam fazendo a permutação, mas as meninas estão meio que enjoando, amarrando-se com caras que nunca tiveram nada a ver com toda a putaria e talvez até sejam pessoas decentes e ciumentas, que aparentemente não têm motivo para serem ciumentos, mas são cornos. Cornos que ganham presentes de dia dos namorados e insatisfeitas que ganham também.

Era uma vez Janjão. Ele malha o dia inteiro pra ficar bonitão. Acha uma gracinha quando as meninas fazem grupo pra trocar fofoquinha. Depois, não entende por que uma hora todas elas estão em cima, e no minuto seguinte nem passam perto. Tudo o que ele diz na cama, todas elas sabem, e que ele passa 40 minutos no banheiro de manhã, etc. Janjão pensa que está bem, mas é um joguete. Um joguete que ganha presente de dia dos namorados.

Era uma vez Cidinha. Cidinha só come iogurte e faz yoga, pra manter a paz de espírito e ficar bonitinha. Cidinha pensa que é bruxa. Tem umas 200 velas fedidas espalhadas pela casa inteira e assiste "Charmed" toda semana. Ela fez um feitiço e passou no vestibular, aí passou a freqüentar o diretório acadêmico, e arranjou muitos caras, que era pra isso que era o feitiço. Claro que o fato dela pesar 43kg não teve nada com isso. Daqui a umas semanas, vai estar com a camiseta do Che Guevara distribuindo panfleto do Lula na rua sem nem saber quem foi o Lula e não é mais. Cidinha é a queridinha de todo mundo e pode ser que vá para a Casa dos Artistas III, porque vão precisar de uma segunda Tiazinha. Uma transgênica de anta com galinha que obviamente ganha presente de dia dos namorados, e H também.

Era uma vez Mai. Mai fez joguete com "relacionamentos" quando tinha 13, 14, 15, 16, 17, 18 anos... até que levou porrada de um parceiro ciumento e machista que caiu no joguete. Depois, descobriu que sensíveis também não são bons nesses jogos, porque pensam que você é a mãe deles e espalham estatueta do ídolo pela casa inteira, até que teve que dar um pé na bunda. Depois tomou outro, e assim foi até que percebeu que toda essa história de joguete era uma merda e que a maioria das possibilidades de cruzamento são negativas antes mesmo que aconteçam, porque 99% dos caras cedo ou tarde vão ter que levar ou vão dar um pé na bunda, porque estão pensando só na cabeça do próprio bilau, e sim, isso tem que ser levado em consideração o tempo todo. Este ano Mai pode ser alguém com peso na consciência por causa do tempo que perdeu investindo em caso perdido, mas é uma pessoa 10 que agora, sim, merecia achar um decente. Uma pessoa 10 que, desta vez, não ganha presente de dia dos namorados.

Era uma vez Carrie, só que sem o banho de sangue. Carrie se cansou tanto de ficar sentada nas festinhas que preferiu ficar em casa lendo revista escrita para meninos da idade dela, porque na época alguns títulos da Marvel eram legais, e escutando música que era destinada para eles também, porque meninas gostam dessas coisas melosas. Depois que descobriu que era gente, Carrie resolveu brincar de Monique, de Mai, e quase teve um piripaque nervoso quando descobriu que isso poderia gerar um ser metade ela, metade outra coisa qualquer. Carrie continuou dando a bunda, mas tinha um puta peso na consciência. Até que descobriu que podia conversar de igual para igual com os meninos que liam Marvel e ouviam música destinada para eles na época que ela ouvia. Continua sendo uma nerd, e arranjou uma pessoa mais nerd ainda, mas hoje em dia não teria nojo de gerar alguma coisa metade ela, metade essa pessoa. Só que nerds desse tipo não admitem que estão um com o outro, porque não sobraria grana pra livro, CD nem pinga. Um par que se entende e não se dá presente de dia dos namorados.

Era uma vez o par perfeito. Era perfeito não porque ele era bonito e ela era bonita, mas porque tanto um quanto o outro simplesmente não tinham vontade de agarrar outras pessoas. Um dia, o grupo A e o grupo O entraram na jogada. Um olhou para a cara do outro e disse: "tou a fim de ir com eles, chega da gente?" e foi tentar a sorte. Permutaram bastante e deu errado, porque não teve repetição. Ainda são o par perfeito, porque dentro do grupo A e O, foram os únicos que disseram "chega, deixa eu ir experimentar". Hoje, eles não conseguem mais pensar nas partes baixas um do outro, mas ainda conseguem falar um com o outro. Pode não ser importante agora, mas imagina quando tiverem seus 60 anos. São o par perfeito, e não vai ter presente de dia dos namorados.

Era uma vez Zé. Ele tem uma fábrica de lápis e é deputado. Cresceu lendo revista do Super-homem. A mãe dele sempre dizia que ele estaria no topo. Zé nem acabou o segundo grau. A ex-esposa saiu do SPA e foi dar pra um cara que tinha um Jaguar, e não uma fábrica de lápis. Zé está desiludido porque não se tornou Super-homem nem mesmo por ser um exemplo de integridade, senão não teria chegado onde chegou. Por que a mãe dele mentiu pra ele? Zé não vai ganhar presente de dia dos namorados. Mas isso nem importa mesmo, porque ele vai se matar, afinal não tem mais nada que possa ser feito, o Super morreu, a TV é um lixo, a cidade fede, ler dá sono e música é muito barulho, por que perder tempo aprendendo? Tá bom, mentira, ele não vai se matar, pelo menos não tão cedo, porque acabou de descobrir as salas de chat do UOL e ainda não sacou que as frases são sempre as mesmas e tudo o que tá escrito acima tem a sua versão virtual.

Esta é a minha homenagem e meu presente a todas as crianças que ainda se importam com o fato de que não vão ganhar presente de dia dos namorados. Sei que aparentemente não tem nada a ver com camisas xadrez e esquecer de lavar a cabeça. Mas olha lá no cantinho, no topo da página... bem vindo aos anos 90. Tem certeza de que você precisa disso?

    Ana D. M., aestrik@cbgb.net