Dia dos Namorados
Era
uma vez Monique, Rory, Diana e Darla. Todas elas vinham de boas
famílias, tinham corpos com medidas equilibradas, gostavam
de jogar "queima", eram altas e seus pais prezavam muito sua liberdade,
pois liberdade e vida social são muito importantes na formação
do indivíduo. Elas freqüentaram muitas dessas festas
americanas, em que você dança música lenta
com os meninos (mas só se você já tem peitinhos),
e depois fica com eles, e tal, e depois volta pra rodinha das
amigas, diz que foi nojento e vai dançar música
rápida com a bolsa no meio das pernas. Era uma vez Vinícius
(Vina), César (Cé), Pé-Grande e Soviete.
Todos eles eram uns nerds escrotos que gostavam de músicas
bem trabalhadas como Yingay Malmestima e se achavam politizados
porque eram que nem o Gabeira, só que sem o cérebro,
só os pulmões. Os dois grupinhos se cruzaram na
universidade, porque, como todo bom acadêmico, eles e elas
gostavam de jogar pebolim na máquina de fundo torto do
diretório acadêmico. Daí, como não
tinha mais festa americana, as meninas foram nas festas do diretório.
Eu não vou perder meu tempo aqui descrevendo o que aconteceu,
mas o resultado é o seguinte: suponha o grupo das meninas
A formado por A1, A2, A3 e A4, e o dos meninos O formado por O1,
O2, O3 e O4. Todas as combinações possíveis
foram formadas dentro de um intervalo de tempo inferior a doze
meses, com repetição. Todos eles ganharam presentes
de dia dos namorados. Hoje, anos e ânus mais tarde, eles
continuam fazendo a permutação, mas as meninas estão
meio que enjoando, amarrando-se com caras que nunca tiveram nada
a ver com toda a putaria e talvez até sejam pessoas decentes
e ciumentas, que aparentemente não têm motivo para
serem ciumentos, mas são cornos. Cornos que ganham presentes
de dia dos namorados e insatisfeitas que ganham também.
Era uma vez Janjão. Ele malha o dia inteiro pra ficar bonitão.
Acha uma gracinha quando as meninas fazem grupo pra trocar fofoquinha.
Depois, não entende por que uma hora todas elas estão
em cima, e no minuto seguinte nem passam perto. Tudo o que ele
diz na cama, todas elas sabem, e que ele passa 40 minutos no banheiro
de manhã, etc. Janjão pensa que está bem,
mas é um joguete. Um joguete que ganha presente de dia
dos namorados.
Era uma vez Cidinha. Cidinha só come iogurte e faz yoga,
pra manter a paz de espírito e ficar bonitinha. Cidinha
pensa que é bruxa. Tem umas 200 velas fedidas espalhadas
pela casa inteira e assiste "Charmed" toda semana. Ela fez um
feitiço e passou no vestibular, aí passou a freqüentar
o diretório acadêmico, e arranjou muitos caras, que
era pra isso que era o feitiço. Claro que o fato dela pesar
43kg não teve nada com isso. Daqui a umas semanas, vai
estar com a camiseta do Che Guevara distribuindo panfleto do Lula
na rua sem nem saber quem foi o Lula e não é mais.
Cidinha é a queridinha de todo mundo e pode ser que vá
para a Casa dos Artistas III, porque vão precisar de uma
segunda Tiazinha. Uma transgênica de anta com galinha que
obviamente ganha presente de dia dos namorados, e H também.
Era uma vez Mai. Mai fez joguete com "relacionamentos" quando
tinha 13, 14, 15, 16, 17, 18 anos... até que levou porrada
de um parceiro ciumento e machista que caiu no joguete. Depois,
descobriu que sensíveis também não são
bons nesses jogos, porque pensam que você é a mãe
deles e espalham estatueta do ídolo pela casa inteira,
até que teve que dar um pé na bunda. Depois tomou
outro, e assim foi até que percebeu que toda essa história
de joguete era uma merda e que a maioria das possibilidades de
cruzamento são negativas antes mesmo que aconteçam,
porque 99% dos caras cedo ou tarde vão ter que levar ou
vão dar um pé na bunda, porque estão pensando
só na cabeça do próprio bilau, e sim, isso
tem que ser levado em consideração o tempo todo.
Este ano Mai pode ser alguém com peso na consciência
por causa do tempo que perdeu investindo em caso perdido, mas
é uma pessoa 10 que agora, sim, merecia achar um decente.
Uma pessoa 10 que, desta vez, não ganha presente de dia
dos namorados.
Era uma vez Carrie, só que sem o banho de sangue. Carrie
se cansou tanto de ficar sentada nas festinhas que preferiu ficar
em casa lendo revista escrita para meninos da idade dela, porque
na época alguns títulos da Marvel eram legais, e
escutando música que era destinada para eles também,
porque meninas gostam dessas coisas melosas. Depois que descobriu
que era gente, Carrie resolveu brincar de Monique, de Mai, e quase
teve um piripaque nervoso quando descobriu que isso poderia gerar
um ser metade ela, metade outra coisa qualquer. Carrie continuou
dando a bunda, mas tinha um puta peso na consciência. Até
que descobriu que podia conversar de igual para igual com os meninos
que liam Marvel e ouviam música destinada para eles na
época que ela ouvia. Continua sendo uma nerd, e arranjou
uma pessoa mais nerd ainda, mas hoje em dia não teria nojo
de gerar alguma coisa metade ela, metade essa pessoa. Só
que nerds desse tipo não admitem que estão um com
o outro, porque não sobraria grana pra livro, CD nem pinga.
Um par que se entende e não se dá presente de dia
dos namorados.
Era uma vez o par perfeito. Era perfeito não porque ele
era bonito e ela era bonita, mas porque tanto um quanto o outro
simplesmente não tinham vontade de agarrar outras pessoas.
Um dia, o grupo A e o grupo O entraram na jogada. Um olhou para
a cara do outro e disse: "tou a fim de ir com eles, chega da gente?"
e foi tentar a sorte. Permutaram bastante e deu errado, porque
não teve repetição. Ainda são o par
perfeito, porque dentro do grupo A e O, foram os únicos
que disseram "chega, deixa eu ir experimentar". Hoje, eles não
conseguem mais pensar nas partes baixas um do outro, mas ainda
conseguem falar um com o outro. Pode não ser importante
agora, mas imagina quando tiverem seus 60 anos. São o par
perfeito, e não vai ter presente de dia dos namorados.
Era uma vez Zé. Ele tem uma fábrica de lápis
e é deputado. Cresceu lendo revista do Super-homem. A mãe
dele sempre dizia que ele estaria no topo. Zé nem acabou
o segundo grau. A ex-esposa saiu do SPA e foi dar pra um cara
que tinha um Jaguar, e não uma fábrica de lápis.
Zé está desiludido porque não se tornou Super-homem
nem mesmo por ser um exemplo de integridade, senão não
teria chegado onde chegou. Por que a mãe dele mentiu pra
ele? Zé não vai ganhar presente de dia dos namorados.
Mas isso nem importa mesmo, porque ele vai se matar, afinal não
tem mais nada que possa ser feito, o Super morreu, a TV é
um lixo, a cidade fede, ler dá sono e música é
muito barulho, por que perder tempo aprendendo? Tá bom,
mentira, ele não vai se matar, pelo menos não tão
cedo, porque acabou de descobrir as salas de chat do UOL e ainda
não sacou que as frases são sempre as mesmas e tudo
o que tá escrito acima tem a sua versão virtual.
Esta é a minha homenagem e meu presente a todas as crianças
que ainda se importam com o fato de que não vão
ganhar presente de dia dos namorados. Sei que aparentemente não
tem nada a ver com camisas xadrez e esquecer de lavar a cabeça.
Mas olha lá no cantinho, no topo da página... bem
vindo aos anos 90. Tem certeza de que você precisa disso?
Ana D. M., aestrik@cbgb.net