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Tempo de Heresia II

Como a maioria dos adeptos de um passado "nirvânico", adoro fuçar biografias e fofocas sobre um cara que está morto há oito anos, e sobre outras figurinhas da época. Foi esse meu lado que me deixou curiosa o suficiente para pegar essa biografia assim que vi pilhas e pilhas dela na livraria e, aproveitando a folga que as "megastores" permitem, ler uma boa parte dela sem pagar um centavo. Apesar de tudo, eu não compro essas coisas e se a viúva dele vender os diários mesmo, eu também vou ler na livraria e não vou pagar.

Estou falando do tal "Fragmentos de uma Autobiografia: Kurt Cobain", cata-níqueis do Marcelo Orozco. OK, eu também posso estar sendo herege, porque o cara trabalhou na Showbizz, e, segundo fontes, trabalhou na defunta General, que aparecia até em tira de quadrinho underground como ícone de adolescente retardado (eu tenho a n.º 01 da General, só não sei onde enfiei, ké comprá?). Mas é minha opinião a única que eu posso exprimir, né? Então.

Quando suplemento de jornal adolescente quer vender mais, bota a foto do Cobain na capa. É exatamente assim que eu me sinto com relação a essa biografia. Primeiro: custa um preço abusivo, como a maioria dos livros. Essas coisas cheirosas são impressas a 8 reais ou menos por unidade, em Docutech, e vendidas por 35, em média. Direito autoral nenhum vale isso, a não ser que seja uma obra tipo "Tolkien", dessas que o cara leva uns 50 anos pra processar tudo e escrever. E depois, morre. Segundo: jornalista não é formado em Letras, e muito menos lingüista. Não sabe nem o que é parcimônia. Portanto, não devia se meter a analisar o que ele chama de "literatura pop" sem ter no mínimo entrado de cabeça nisso, não só ter estudado a parada por alguns MESES e tchaaaaans, você tem um livro. UM LIVRO, daqueles com capa dura e tudo! Não essas coisas impressas em papel "lixa" que você compra na banca.

Mas como o que está em jogo é o livro pelo seu conteúdo e não o preço, vou ter que ser sincera: fazer análise de personalidade de músico a partir de letra é pedir para cair em pegadinha e publicar besteira. Qualquer um que pertenceu a essa raça de pseudopoetas sabe que exagera o que está sentindo na hora e tem vontade de tacar fogo em toda a papelada 10 minutos depois, ou seja lá a hora em que você cruze os rascunhos das letras que escreveu. Sim, pode-se fazer reflexões sobre o que está escrito. Muita coisa está escondida nas letras, é verdade. Mas se você vai com aquela visãozinha objetiva do treco, sem conseguir se colocar na pele do (compositor?), e ainda se você não consegue encontrar equivalentes do mesmo nível na hora de traduzir a letra, esqueça. Fica tendencioso. Você nunca vai conhecer a vida da pessoa por completo, ou as nuances da língua nativa dele, nem como seus neurotransmissores funcionavam ou deixavam de funcionar. E se você esquecer de escrever "veja bem, caro leitor, essa é a minha humilde interpretação e é por isso que eu gosto dessa banda", fica mais tendencioso ainda. Só que você não vai escrever uma coisa dessas, porque o adolescente babaca que vai comprar o livro quer saber do Kurt, não do biógrafo.

A maior prova de que o recado do Nirvana não foi entendido nesse livro está nos vários depoimentos que saíram promovendo o lançamento dele:

"...Os alternativos num canto, os metaleiros em outro. Ou seja, um monte de turminhas. O Nirvana juntou tudo isso e rompeu alguns rótulos... Depois da morte... parece que essa fragmentação do rock em geral está aí outra vez. Ou se faz algo com apelo comercial ou se faz coisas com o nariz empinado."

O Nirvana não rompeu rótulo nenhum, apenas ignorou. Tanto que o Cobain ria quando soube que Nirvana tocava nos programas de metal da MTV ("Let them be fooled!"). E essa história de não misturar "panelinhas" não acabou quando apareceu o Nirvana e nem ressurgiu depois da morte dele. O fenômeno Nirvana foi muy otro, a história de "grunge" era completamente diferente para "eles" e para "nós", a platéia. E quanto a misturar, basta você ver essas bandas que estão surgindo agora, essas tipo Limp Biscoito e coisas do tipo, quer mais mistureba de gosto duvidoso que isso? Já quanto a fazer tudo de nariz empinado OU fazer algo comercial... será que é uma coisa OU outra ou as pessoas que estão emplacando? Ou será que é mais como os Strokes, que são os mais nariz-empinado que surgiram nos últimos tempos? Nenhum garageiro se acha bom demais para a mídia. Você precisa dos lugares para tocar, criança; se for nariz empinado, toma latinha de cerveja, não importa quantas demos tenha enviado para a rádio rock nem quantas groupies sonsinhas você tenha comido.

E sobre o fortalecimento da "mídia alternativa"... "É por aí mesmo, mas sem domesticar a coisa"

Pôôôô. Quando o Nirvana atingiu o que esse povo gosta de chamar de "mainstream", a maior parte dos amigos do Cobain viraram a bunda pra ele! E ele ficou todo doído! Como é que vêm me falar agora que o Nirvana era algo contra a domesticação do alternativo, se essa é uma das maiores marcas de Seattle- marketear a banda do amigo? (Não necessariamente doméstico no sentido das pessoas que moram no lugar. Seattle era tipo um centro catalisador). O Nirvana PARECEU isso, mas não era pra ser; esse foi um dos motivos por que tudo virou uma zona, deu tudo errado, e a cabeça não só do Kurt mas também de vários outros figurões do "grunge" (quem conhece a história sabe do que eu estou falando) foi para o saco.

Eu podia discursar mais um monte sobre isso tudo, sobre o quanto a importância da banda esteve no que ela disse aos fãs e não exatamente o que ela quis dizer foi entendido, e tudo. Mas vou finalizar com só mais uma coisa, voltando aos parágrafos iniciais. Não desmerecendo quem escreveu. Foi o que publicaram por aqui, que o livro é resultado de uma análise feita em alguns MESES. E análise de LETRAS. Ninguém faz uma análise dessas em MESES. E até onde eu li, parece que os fatos biográficos de verdade (não fofocas típicas de paparazzi roqueiro, tipo "com que nome ele se registra no hotel") citados no livro são aquele arroz-com-feijão que sai em toda historieta sobre o Cobain: ah, o pisciano, sensível, que foi rejeitado pelos pais depois do divórcio deles, criança hiperativa que tomava remédio depressor do sistema nervoso desde pequeno, morou debaixo da ponte, era um depressivo incorrigível e tal, tinha deficiência de serotonina e pessoas assim tendem a se viciar em heroína. Cadê a análise um pouquinho mais aprofundada? Dá mesmo para publicar uma "autobiografia" baseado em letras de interpretação duvidosa (porque são subjetivas), sem nem fazer uma huh, amostragem, do que o "poeta" falava em entrevistas, do que os amigos falavam, enfim, para saber o que tinha valor na cabeça dele e separar do que é viagem de quem está interpretando?

EXEMPLO:
"Love myself better than you. I know it's wrong, but what should I do?"
Pra normais: "Eu me amo mais que você. Sei que está errado, mas o que posso fazer?" - um Kurt se sentindo culpado por ter amor próprio, egoísta, aquele cara sensível, depressivo, incapaz de gostar de si mesmo. Ele mesmo, "I hate myself and I wanna die".
Pra mim: "Eu sei me amar melhor que você. Eu sei que está errado, etc". Um Kurt perturbado porque bateu punheta ou se drogou demais e gozou com isso mais que com a namorada. Esse Kurt é um porco, aquele delinqüente juvenil que pixava "God is gay" por aí. Bate punheta e nem se arrepende depois.
E aí, com qual Kurt você fica?

VIU? Bando de inocentes que acham que "Heart Shaped Box" é uma música romântica de dor-de-cotovelo e ficam chocados quando descobrem que é um feto falando tudo aquilo pra mãe que o abortou.

"Shakespeare não interpretava Shakespeare", bem falou minha mãe. Mas aposto que ele entendia Shakespeare mais que todo mundo. Eu também não entendo o Kurt. Ninguém entende. E acho que se ele estivesse por aqui, iria se matar de novo. Se é que se matou, mas essa é outra história.

    Ana D. M., aestrik@cbgb.net