TODOS
os rótulos. TODOS. Não importa o quanto te faça
mal admitir: a menos que você tenha feito parte da "cena"
original, chegou até você pela mídia, o que
te caracteriza como poser. E se você se identificou e absorveu
a idéia, você foi vítima da mídia,
cara. Verdade. Aí, anos mais tarde, não adianta
você dizer que o rótulo morreu... porque ele continua
lá, pra botar num saco só um monte de estereótipos
e atitudes que antes, provavelmente, você apresentava também.
É por isso que eu acredito em rótulos (o que seria
da Hellmann's sem ele?), desde que se entenda direito o que tem
por trás desse nome (gordura?)... Agora, o "grunge",
um debate infinito porque não se sabe se, afinal, a coisa
sequer existiu. É verdade, esse debate sempre ressurge
das profundezas do inferno e na verdade nunca me surgiu ninguém
que fizesse alguma coisa além de conversa de surdos (ninguém
escuta, só fala). Então, vai lá, o que está
aqui é somente meu ponto de vista e quem não concorda
sabe o que fazer (ploch).
Um
monte de gente definiu o que é música "grunge"
por duas coisas:
1) vem de Seattle ou surgiu na carona da fama dessa cidade;
2) nem um expert é capaz de dizer se o treco puxa pro "punk"
ou pro "metal".
Sei,
analfabeticamente, que muito do som parece metal mesmo, apesar
de não entender lhufas de metal - em ALGUMAS músicas
de ALGUMAS bandas. Se parece, então pronto, puxou do metal.
Mas outras não têm nada a ver. E aí entra
a atitude simplesmente indefinível (porque varia entre
os extremos "vão se foder" e "estou pouco
me fodendo"), o que geralmente levava os (artistas?) a peitarem
a mídia. Aí, quanto mais os caras peitavam a mídia,
mais adolescentes olhavam e diziam: "olha só, eu também
acho a MTV uma merda inalcançável", e alimentavam
a mídia que maldiziam. Punk?

Quer
dizer, dá pra escrever um tratado de 1600 páginas
e ainda não vai dar pra entender direito o que é
que funcionava na mídia sobre o "grunge". Era
um bando de gente fazendo o próprio som sem se importar
se "essa influência veio de fulano, que é de
tal estilo", e aí o resultado foi a zona que os críticos
botaram sob o mesmo nome. Bandas com sons e propostas diferentes,
todas num mesmo balaio, mesma central (teoricamente, a Sub Pop),
mesma época e tal. Sei lá!!! Então, algumas
atitudes podem estar associadas - culpa da imprensa, da época,
do lugar ou das bandas mesmo - ao nome "grunge", quer
dizer, fora roupa e essas babaquices. Coisas que, quando o treco
baixou aqui pra valer, quase ninguém entendeu, e era por
isso que dava pra escutar Nirvana e Guns'n'Roses na mesma levada...
mas que, depois que determinadas opiniões dos caras começaram
a aparecer, podia-se concluir que...
-
fora
a Courtney Love, não teve estrelinhas pedindo glamour,
retorno e sendo arrogantes (ou pareceu assim);
-
talvez pelo fato de tocarem próximas umas das outras,
as bandas falavam, cutucavam e faziam propaganda umas das
outras, ao invés de se cagarem de medo de um processo
apenas por mencionar nomes (ou pareceu assim);
-
o treco não era feito pra estádio, definitivamente
(ou pareceu assim);
-
mas o melhor era que (parecia) que ninguém estava querendo
parecer um grunge (exceto, talvez, pela CL) - eles eram o
que eram e foda-se como os outros iam chamá-los ou
não (ou pareceu assim).
Eu fui vítima desse negócio aí. Quer dizer,
mesmo que as bandas fossem um bando de filhos da puta que não
acreditassem em nada disso (não tou dizendo que eram),
foi a imagem que a mídia passou deles, acabei gostando
da idéia e agora sou mais uma incompreendida falando mal
da Rede Globo. Ficou muito mais do que três blusas de flanela,
jeans rasgado, camiseta do Nirvana (essas rasgaram mesmo) e coleção
de entrevista. Mais tarde, acabei descobrindo que uma galera do
punk também acreditava em determinadas coisas que estão
aí, então vão escritas aí em baixo,
caso alguém um dia goste das idéias também.
Claro que isso não vai fazer de você um "grunge"
ou um "punk", quem faz isso são os outros.
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1)
Você pode absorver um pouco de todos esses "rótulos",
ser chamado de headbanger, bicha, psicopata, surf, hippie,
punk, autodestrutivo e o diabo a quatro, mas o único
que pode dizer de onde veio sua cabeça é você
mesmo. Então, escolher um dos rótulos acima
e pirar que vai seguir o estilo de vida à risca é
idiotice. Primeiro você vive, depois te dão
o rótulo.
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2)
Pare de querer seguir estilos. Se você vai se sentir bem
com os pêlos do peito raspados, raspe. Se quer tingir o
cabelo de amarelo cagay, tinja, mas não porque te disseram
pra fazer isso ou porque você acha que vão te aceitar
melhor assim. E não crie expectativas sobre uma pessoa
por causa das roupas que ela usa.
3)
É melhor você ir ao ensaio da banda do teu amigo
e se divertir do que morrer numa grana pra alimentar o ego de
um imbecil que está cagando pra o que você é.
Alimente sua "cena local", conheça as bandas
de sua cidade. Não é porque não estão
no rádio que são ruins. Claro, isso se aplica a
cidades em que bandas locais ainda existem. :-P
4)
Não pague pelo que você consegue fazer sozinho. Se
tiver que comprar uma roupa, não pegue a mais cara só
porque tem uma marca foda nela ou porque ela tem esses rasgos
modernosos. Pô, qualquer imbecil sabe bordar meia dúzia
de lantejoulas num saco.
5)
Se não der pra comprar o CD das bandas quando for vê-las
ao vivo, tente comprar direto do selo, não do shopping
center. Você sabe que indo ao shopping vai pagar uma grana
alta, que não vai chegar até a banda, ou, se chegar,
vai ser uma merreca. Se quer presentear alguém, grave uma
fitinha (ou um CD, se você se arrega num CD-R) com músicas
que você acha que valem a pena para o presenteado.
6)
Você é um ser humano, não tem mais valor nem
menos que os outros, não importa quantas merdas familiares
te aconteçam, quanta droga você use ou o quanto Kerouac
você tenha lido. Então, trate os outros de igual
pra igual, e isso inclui a loura burra na sua sala de aula. Não
seja um hipócrita. Se você faz isso, então
não reclame que ninguém te escuta.
Parece imbecil ter que colocar essas coisas por escrito, mas tem
UM MONTE de gente que nunca se tocou disso, principalmente no
meio daquele povo mais velho que ainda não superou a adolescência
direito. Essas pessoas nunca vão aceitar bem se um dia
você está de preto e no outro está com uma
camiseta dos Pistols. Pra mim, pelo menos pra não ligar
pra isso essa coisa de "grunge" serviu... mas tenho
a clara impressão de que nenhuma das bandas nem sonhava
que passava essa imagem. Quer dizer, contra qualquer coisa que
te podasse a liberdade individual, fosse usar calça (é,
o clipe do Nirvana) ou fosse pagar preços abusivos num
ingresso (lembra da Ticket Master?), eles diziam outras coisas.
Mas sei lá, não conheci nenhum deles, então,
vai saber? Pode ser mais um golpe de mídia, mas esse, pelo
menos, aproveitei.
Ana D. M., aestrik@cbgb.net