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Pirataria, J. Quest e o Naufrágio dos 500 anos
A Vingança da Batatinha.

Alguém se lembra daquela idéia ridícula que um certo figurão do governo, que para nossa (ao menos, minha) vergonha era um representante do Paraná, de comemorar os 500 anos da descoberta do Brasil enviando uma nau de volta a Portugal? E que, de tantos "jeitinhos" que foram dados, o treco simplesmente nem saiu do porto, provando que nem 500 anos depois a gente não seria capaz de fazer o que portugueses - veja bem, portugueses - haviam feito e saído como heróis? Poucos sabem que esse figurão anteriormente havia sido prefeito da grande exportadora de enchentes, auto-intitulada "capital ecológica" e atual "capital social", Curitiba, por indicação e proteção do atual governador, Jaime Lerner. Ele, que se elegia com coraçõezinhos nos adesivos de campanha, pelo PDT, antes de se aliar àquela coisa chamada Maluf. OK. Mas isso não vem ao caso, eu só queria fazer um paralelo aqui para dar um título mais bonito ao texto.

Senhor Jaime Lerner anunciou, dia 8 deste mês, mais um projeto de nau, não só para o Paraná, mas com pretensões de esticar isso para o país todo. Só que desta vez não é para chegar a Portugal, ele quer dar uma de Felipe de Espanha, acabar com os corsários... declarar guerra à pirataria. Sim, porque aqui, "53% dos discos comercializados são piratas". E, como seu protegido, está errando no lugar de dar o seu "jeitinho"... ele chamou o projeto de "Operação Sigla", envolvendo Polícia Civil, Militar, Federal, além das Receitas Estadual e Federal, para começar um projeto de fiscalização e... conscientização (quem me dá um exemplo de boa conscientização feita pelas instituições acima levanta o dedo!). Recebeu apoio de figurões da música como Alcione, Padre Marcelo Rossi, Sandra de Sá, Xandy (esse, do Harmonia do Samba), Vanessa Jackson (quem?), J. Quest, Raimundos e Exaltasamba, o presidente da Abril Music (Marcos Maynard), além de representantes da Associação Brasileira de Produtores de Discos. O que toda essa galera tem em comum?

Respondo: são nobrezinhos. Saíram da verdadeira realidade desse mar aberto que se chama música e agora não são capazes de enxergar nem onde o problema começa, então ficam aí apoiando projeto sem pé nem cabeça. Quando eu tinha aulas com discussões que iam para a área de Humanas, geralmente meus professores apontavam os músicos como grandes defensores da liberdade de expressão, que desafiavam autoridades e essas coisas... Eu, como fruto da "geração X", acho difícil acreditar nesse tipo de coisa em termos de Brasil, se nossos músicos são como esses citados acima. Só vendo. Ou nem vendo. Sabe, eu escrevi para ele, tem um link no site do Governo do Paraná que se chama "fale com o governador", mas não boto um pingo de fé que chegue a qualquer um que seja naquela cúpula de idiotas.

Falei que bloquear a entrada de CDs virgens pelo Paraná (para quem não sabe, o PR recebe os do porto de Paranaguá e manda para o Paraguai, ou seja, é canal para o resto do país) não adianta. Cansei de dizer que se não querem que o CD, software, ou o que quer que seja, seja pirateado, a empresa é que tem que criar vergonha na cara e botar um preço competitivo, o Governo que tem que botar um teto de lucro nessas empresas e o artista que tem que parar de aceitar que seu CD seja vendido em shopping recebendo uma porcentagem ínfima do preço. Cansei de saber de artistas (os de verdade) que se fodem para fazer um disco, aí vem uma gravadora e passa a mão em 90% do valor dos discos que eles fizeram, quando não levam embora o tal do Direito Autoral. Pirataria é roubo? E comprar CD original de gravadora não é ajudar o roubo dessas corporações? Olha ali quem tá apoiando o treco, fora artistas "reconhecidos" e relativamente bem estabelecidos no mercado (ao menos pelos seus 15 minutos de fama).

Sandra de Sá apareceu na TV dizendo algo do tipo "os fãs devem pensar no trabalhador que está perdendo o emprego". Mas o que o músico tem que fazer em tempos de mp3 e CD-R? Manter o estupro do bolso do fã de música, que nem sempre consegue achar o que quer, e quando acha tem que desembolsar uma grana fodida? Não, é utópico, é pedir para naufragar o mercado da música, achar que vai ganhar grana vendendo a sua música com base nesse sistema falido de gravadora. Músico quer grana? Libere sua música. Libere de vez, bote mp3 por aí, limite os lucros de sua gravadora, e faça shows. DIVULGUE, e o povo vai querer ver. O povo quer CIRCO, Sandrinha, não CD a 40 reais. Trabalho de músico é tocar música, ora essa. Aí você vende os CDs que VOCÊ fez lá no show, com músicas exclusivas (afinal, você ainda tem o dom para fazer música de verdade, não é? Ou isso o povo compra enlatado também?). Ah, mas esses caras não precisam disso. Já gravaram meia dúzia de música pegajosa, então acham que não têm mais que trabalhar. Quem precisa são os artistas que estão aí quebrando a cara e que não conseguem contrato com gravadora sem vender a alma ao demônio e censurar a própria música, e esses caras ainda querem bloquear um dos principais veículos que eles podem usar para falar mais alto que a rádio que só toca bababeibe - seus próprios CD-Rs. Vale lembrar que a tal Operação Sigla não é só para CD pirata, é para software também (sabe aquele programa básico que se você quiser comprar tem que desembolsar R$2000?). A batatinha se vinga. Um lado sobe os preços, o outro pára de pagar.

É o último grito de um governo cego querendo manter um sistema que começou a ser minado, dizendo que com isso está "protegendo a cultura brasileira". Ah, Jaiminho, vai dar a bunda. Quando é que vou esperar importar um disco e pagar R$60, se posso pedir para baixarem na Internet, muitas vezes no site do próprio artista, que quer que eu ouça a música dele? É assim que eu protejo minha cultura contra Exaltasamba e afins. O Padre Marcelo que me perdoe, pode doar todo o lucro besta de sua música para caridade - não dá para levar a sério um cara que tinha suas músicas de "erguei as mãos" intercaladas com Tchan no Carne-aval. É muita ingenuidade! Só uma coisa que vale a pena lembrar: quando o trabalho de certo artista não vale nada, nada mais justo do que ele não receber nada por ele. Scott McCloud (é, um quadrinista) deu uma definição muito certa de Arte: é aquilo que é feito sem objetivos de reprodução e nem de sobrevivência.

Encerro meu último acesso de "tolerância zero" com mais algumas das pérolas que peguei no site do Governo do Paraná:

* "A gente está atravessando um período de mudança no país e o momento é de vontade política para mudar o que está errado. Ouvindo estas declarações de esforço em defesa da música brasileira, deu orgulho de ser cidadão." (Rogério Flausino, Jota Quest).

HA-HA-HA!!! Mudar o que está errado com uma medida dessas, ou manter um esquema de falência geral para o músico (e o fã de música) pobre, hein? Cidadão. Kane.

* "Estamos felizes com iniciativa do governador Jaime Lerner. Espero que ela seja seguida por outros estados. O combate à pirataria é necessário para que sejam mantidos os investimentos na música brasileira." (Marcos Maynard, da Abril Music).

Quando é que você vai investir no que você não conhece?

É isso aí. Não posso largar o Bandit em cima do que o dono dele anda falando por aí, mas posso pedir que quem é contrário entupa aquele site de mensagens contrárias. Por hoje é só, pessoal...

Para ver a reportagem completa a respeito da Operação, clique aqui.

    Ana D. M., aestrik@cbgb.net