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POR QUE BILLY CHILDISH?

Este texto levou mais de meio ano pra sair. Verdade. Quando a gente (eu e o Luzardo) entrou num acordo sobre escrever uma sessão para o indivíduo em questão devia ser final do ano passado, ou começo deste ano, acho eu, e a idéia era de antes ainda. Neste meio-tempo, guardei uma quantidade de material e passei por alguns probleminhas, e quando voltei para organizar toda aquela bagaça – “muito bem, texto, agora você sai” – descobri que a quantidade de informação era muito, mas muito maior que um ser humano poderia processar num final de semana.

Não que seja muito difícil entender o que o senhor Childish quer dizer com os seus mais de 100 álbuns lançados ao longo de 25 anos, além de mais de 30 coletâneas de poesia, 2000 pinturas, gravuras, desenhos, xilogravuras e o escambau, e desde 1996, 2 romances de que eu tenho notícia mais 2 que soube de projetos mas não pude checar se já saíram.

Comecei a duvidar da adequação de colocar uma sessão sobre o Billy Childish aqui quando bandas de britpop começaram a dominar o Lado B e a lista de discussão do Dying Days. Comecei a pensar sobre a propriedade disso porque anteriormente o site era quase só de grunge, e agora virava mais só para o alternativo, mas nada que levasse diretamente ao que este cara é. Porque ele está contra tudo isso... e fala mal abertamente de todo mundo metido nisso...

Só que depois de ler uma quantidade de manifestos, que vão aí com (tentativas de) versões em português, cheguei à conclusão de que era importante mesmo o que este cara vem fazendo e não dava pra deixar de lado. Posso não gostar de tudo que ele faz ou não ser capaz de ouvir o tempo todo, mas Billy Childish é uma figura sem dúvida digna de respeito e merece ser citado aqui, porque se as pessoas acreditassem mais no que esse cara está dizendo, a MTV não estaria virada na bosta como está e eu teria lugares aonde ir de noite ao invés de ir sempre no mesmo bar torcendo pra tocarem os mesmos discos, e botando mp3 no computador o dia inteiro porque não agüento o rádio. Então, lá vai.

Para encurtar a história, não se sinta um indie frustrado se nunca ouviu falar nele. A imprensa ignorava a produção deste indivíduo até que ele caísse nas graças do público norte-americano e japonês, acho que é porque a imprensa inglesa não gosta dele mesmo. O cara foi diagnosticado disléxico, foi barrado na hora de entrar numa escola de artes e depois que conseguiu entrar, foi embora no primeiro ano. Desde então, está jogando na cara dos acadêmicos e donos de galeria, bem como toda a imprensa inglesa, o quanto eles são vazios, o quanto o que eles produzem e vendem como arte é estúpido, e o quanto os ingleses não sabem o que é rock’n’roll, que música não é roupa. Os americanos provavelmente começaram a reparar na produção do Childish depois que saíram colaborações dele com o Nirvana e com o Mudhoney. Billy Childish teve contato com a Sub Pop... fora o grande monte da sua produção auto-centrada (certo, porque é verdade que quase tudo que ele escreve é explicitamente a respeito dele mesmo ou de pessoas que ele odeia – como maneira de lidar com situações criadas por pessoas que você não pode confrontar)... entre seus seguidores, desde então, estão Kurt Cobain, Kylie Minogue (!!!!), Beck e os White Stripes (Jack White chegou a publicar uma conversa com Billy como entrevista para a Dazed and Confused, alegando o posto de “fã número um”).

Mas desde a década de 70, quando lia poemas para o público (NB: escritos no inglês disléxico e o cara está pouco se fodendo, porque ainda escreve assim) Billy está batendo na mesma tecla: a arte (música, pintura, poesia ou o que seja) tem que ser sincera, real, mesmo que isso seja forte demais para o estômago de alguns e carregado demais de humor negro para outros. Fazer colagens de figuras prontas no computador, expôr tubarões em tanques de formol não é arte. E bandas que páram de ouvir música decente e começam a ser fãs delas mesmas começam a produzir porcaria. Por isso, segundo ele, Bo Diddley e John Lee Hooker conseguiam fazer seis, vinte álbuns bons em seguida, e raramente outras bandas (cita os Stones, os Kinks e os Pretty Things) conseguiram fazer algo de bom depois dos três primeiros álbuns, e no caso do punk rock (The Clash, Richard Hell, The Damned, The Ramones, Alternative Television, The Down Liners Sect, Johnny Moped), depois do primeiro álbum – porque para os primeiros, não existia a pressão de um mercado endeusando as figuras e transformando o trabalho deles em cultura de massas, muito menos suas músicas em roupa, então suas carreiras e sua inspiração continuavam as mesmas.

“Arte que tem que estar em galeria para sê-lo não é arte”. Um movimento artístico idealizado por ele e Charles Thomson em 99 (do qual Billy não faz mais parte) está até hoje atacando a arte britânica, insistindo criticar abertamente queridinhos da arte inglesa como Damien Hirst e Tracey Emin (a ex de Billy, destaque por um tal de revival dadaísta, que segundo Billy só prestou em 1914 e olha lá), dizendo que a arte contemporânea é chata, retardada, mais preocupada em parecer uma destruidora de convenções do que em procurar uma maneira de refletir o que é humano (o que, no fim das contas, seria a única coisa para que serve a arte).

“Se você TEM que ser bom em alguma coisa, você nunca vai fazer nada. É essencial fazer um monte de coisas e não ser bom nelas.” Por isso, não é vergonhoso não ter ouvido falar de todo mundo, viu. Não é vergonhoso ser ignorante. Ser o espertão é uma mentira egocêntrica. E, assim, Billy ganhou o título de “padrinho do Rock’n’Roll Lo-Fi”. Mesmo dizendo que os Headcoats, que são apontados como inspiração de bandas que fazem o estilo Lo-Fi, é hi-fi: alta fidelidade. Representar a energia no som que fazem, e isso fica bem fiel mesmo, na verdade. Hi-fi, diz ele, não é esse rock pré-fabricado de sintetizador (que o Kraftwerk já fazia há 25 anos atrás e fazia de uma maneira divertida, não pretensiosa). Em termos de fidelidade, uma cassete é muito mais fiel que muita faixa da MTV, porque tem o que a música tem que ter: som e palavras. Sem edição: a primeira impressão que você tem ao ouvir o som de uma das bandas dele, é que ela deve ter sido gravada e tudo em mais ou menos uma hora, e que o cara está com pressa de passar para a próxima música (ou, como disseram... pra próxima banda).

Atualmente, acho que The Buff Medways ainda está na ativa... pelo menos estava até 2002. Mas entre 80 e 89, Childish esteve em uma série de bandas que são chamadas pelo Allmusic de punk-rock-de-garagem-na-linha-do-blues, ou simplesmente “som de Medway” (em referência ao lugar de onde essas bandas saíram): Thee Milkshakes, Thee Mighty Caesars, Thee Headcoats. Estas três sem contar The Pop Rivits, em que Childish apenas cantava e é punk ‘só punk’ e outras. Foi nestas bandas que se formou a fama de serem feitos discos demais (ao que ele responde que são as outras bandas é que fazem discos de menos), sendo que os Milkshakes chegaram a lançar quatro LPs num único dia porque disseram a eles que a quantidade de discos que eles estavam lançando era “suicídio comercial”. E quando cancelaram o estúdio para uma gravação dos Headcoats, a banda simplesmente voltou ao quarto onde ensaiavam e gravou um disco de covers com o que tinham lá.

Aqui é onde eu queria chegar com este texto. Não vou entrar em mais detalhes sobre as bandas e a biografia, não aqui. Quem precisa de um estúdio, no fim? Grava do jeito que der. Vai ser Hi-Fi, mesmo. Largue mão de ser materialista um minuto, criança.

E é por isso que eu continuo odiando os Strokes.


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Ana D. M., aestrik@cbgb.net