|
OS EMPAQUISTAS
(desde 2003)
Esta é uma adaptação
do manifesto Stuckista original de Billy Childish e Charles Thomson
para a música. Não necessariamente tem relação
com o tal Stuckism (www.stuckism.com), que não tem se mostrado
muito fiel ao que prega em seus manifestos.
“Suas pinturas estão
empacadas, você está empacado!
Empacado! Empacado! Empacado!” (Tracey Emin)
Contra o conceitualismo, o hedonismo
e o culto ao ego-artista.
1. Empaquismo é uma busca
pela autenticidade. Removendo a máscara dos sabichões
e admitindo onde estamos, o Empaquista se permite a expressão
sem censura.
2. A música é um meio de autodescoberta, assim como
a pintura e assim como qualquer arte que seja produzida de maneira
realmente sincera. Tem o poder de engajar uma pessoa num sentimento,
uma forma de pensamento e/ou de ação e permite ao
indivíduo expressar tais coisas de maneira que outros se
identifiquem.
3. O Empaquismo propõe um modelo de arte que é holístico.
A Arte é um encontro do consciente e do inconsciente, do
pensamento e da emoção, do espiritual e do material,
do que é particular e do que é público. Não
se justificam os rótulos que colocam diferentes manifestações
da música popular como oposições, matéria-prima
para adolescentes acusarem-se mutuamente de não estarem produzindo
“música de verdade”, bem como não se justifica
a segregação imposta pelos músicos “eruditos”
a si mesmos em relação às outras formas de
expressão da mesma arte. A fragmentação da
música em estilos “opostos” empobrece a experiência
e limita a expressão da vida humana através dela.
4. Músicos que não tocam música não
são músicos.
5. Bandas que só existem por trás de gravadoras não
são bandas.
6. O Empaquista toca música porque tocar música é
o que interessa.
7. O Empaquista não fica deslumbrado pelos prêmios
e royalties, está engajado de corpo e alma no processo de
compor e tocar. O sucesso, para um Empaquista, é poder levantar
da cama pela manhã e tocar.
8. É dever do Empaquista explorar sua neurose e sua inocência
através de sua arte e exibi-la ao público, enriquecendo
desta forma a sociedade, compartilhando a experiência individual
e individualizando a experiência coletiva.
9. O Empaquista não está fazendo carreira, e sim é
um amador (do latim ‘amar’), que corre os riscos de
realmente compor ao invés de ficar se escondendo atrás
de estilos e músicas prontas. O amador não é
menos que o profissional; na verdade, se sobrepõe a ele,
porque não tem a necessidade de ser infalível e por
isso pode experimentar.
10. A música cria mundos dentro do mundo, permitindo a comunicação
entre realidades psicológicas de várias pessoas diferentes.
Cobrar por uma música que você compôs há
vinte anos e com que já não se identifica, não
executá-la em público e mesmo assim achar errado que
pessoas que se identificam com ela se recusem a pagar para a gravadora
não é ser artista, é ser trapaceiro. Não
está havendo comunicação nenhuma nisso.
11. O que chamam de música contemporânea erudita não
existe. Existe uma tentativa frustrada de macaquear o que os modernistas
fizeram, e existem tentativas ainda mais frustradas de intelectualóides
de macaquearem o que os mestres clássicos fizeram fazendo
apresentações de mau gosto. O que era antes um processo
criativo durante o Modernismo acabou se dissolvendo em três
vias: aqueles que querem destruir a estrutura da música,
chutando um cachorro que já está morto, aqueles que
querem incluir a música popular no erudito, mas esquecem
que são acadêmicos que nunca conviveram realmente com
a experiência popular e portanto querem arrotar uma cultura
que não lhes pertence, e os piores de todos, que são
os virtuoses wannabes, que não compõem nada mas acham
que é grande coisa tocar escalas durante 8 horas por dia
cada vez mais depressa. O Empaquista pede uma música que
esteja viva junto com a experiência humana, que se atreva
a comunicar idéias essenciais, e que não se considere
uma inteligência superior.
12. Contra o culto ao ego do artista e a subestimação
do que existe fora do eixo das metrópoles. O Empaquismo é
um não-movimento internacional.
13. O Empaquismo é anti “ismos”. O Empaquismo
não se torna um “ismo” porque Empaquismo não
é Empaquismo, é estar empacado!
14. Bandas que se escondem atrás das Elektras da vida, atrás
da própria postura conservadora, egoísta e típica
do político, estão posando de revoltadas e subversivas
com suas roupas para conquistar adolescentes enquanto os golpeiam
pelas costas, contradizendo com suas posturas tudo aquilo em que
querem parecer que acreditam (na própria capacidade de fazer
música decente, entre outras coisas).
15. A constante luta do ego-artista pelo reconhecimento público
resulta num medo constante do fracasso. O Empaquista se arrisca
a falhar abertamente quando ousa expressar suas próprias
idéias através da sua arte. Enquanto medo que o ego-artista
tem de falhar o leva a odiar a si mesmo, as falhas que o Empaquista
encontra empurram-no para um processo de se aprofundar que o leva
a entender o quanto lutar é fútil. O Empaquista não
luta, o que é fugir do que você é e onde você
está, mas se engaja com o momento.
16. O Empaquista abandona a laboriosa tarefa de ficar fazendo joguinhos
de novidades, choques e truques.
17. Se o desejo do modernoso é parecer sempre “esperto”,
é dever do Empaquista estar sempre errado.
18. O Empaquista se opõe à esterilidade das apresentações
em locais como estúdios, cerimônias e a MTV como se
apresenta hoje, e clama por apresentações em garagens
e bares biboquentos, com acesso a bebida, mesa e espaço para
pogo. O ambiente em que a música é sentida (ao invés
de endeusada) não deve ser artificial e vácuo.
19. Crimes da educação: ao invés de promover
o avanço da expressão pessoal através de processos
artísticos apropriados e assim enriquecer a sociedade, o
esquema das escolas de música e belas artes tornou-se uma
burocracia nojenta, cujas motivações primárias
são o dinheiro e a vaidade. Os Empaquistas defendem uma política
aberta de admissão nessas escolas que se baseie no trabalho
de um indivíduo, ao invés de priorizar quem foi o
professor dele, quem o indicou ou seu currículo acadêmico
(ou falta dele). Nós ainda clamamos que seja detida imediatamente
a política de enredar alunos ricos sem talento. Todas as
faculdades deveriam se colocar à disposição
da educação de adultos e uso recreativo de seus estabelecimentos
pela população que vive em sua área de alcance,
porque se uma escola ou faculdade não oferece benefício
nenhum à comunidade em que está instalada, não
tem o direito de ser tolerada.
20. O Empaquismo abraça tudo o que denuncia. Nós somente
denunciamos aquilo que pára no ponto de partida – o
Empaquismo começa no ponto de parada!
Ana D. M., aestrik@cbgb.net
“O povo não quer
supermercados fora da cidade, o povo não quer comida transgênica
e não quer arte conceitual” (Childish &Thomson,
2000). E também não quer masturbação
sonora, quer música.
“Nós não somos
o Metallica”
(Bruce Dickinson)
|