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Entrevista com Nick Cave, realizada por Fábio Massari em 1992

Tenho te visto com freqüência em São Paulo. Você pretende se tornar um cidadão paulistano?!

Na verdade essa é uma boa pergunta. Quando menos percebo estou em São Paulo, e a maior parte do tempo não sei me responder porque estou aqui. Acho que a idéia básica é fugir da Inglaterra, estou cansado da Inglaterra e da Europa em geral. O Brasil tem um tipo de vida que me agrada. Só não sei por quanto tempo vou ficar, não tenho a mínima idéia.

Acho que sei pelo menos um bom motivo para você estar no Brasil agora: o relançamento do seu disco The Good Son.

Tive problemas com a gravadora, problemas de distribuição, e o disco acabou não chegando às lojas. Na Europa, ele foi muito bem, vendeu duas vezes mais do que qualquer um dos anteriores.
Fico meio desapontado, afinal de contas, o disco foi gravado aqui, há uma série de sentimentos, vibrações brasileiras envolvidas. E não estou falando de dinheiro... o retorno financeiro seria vastamente superior se eu tivesse feito tudo, e ficado, em Londres.

Vamos fazer uma volta ao passado.

Entrar no túnel...

Críticos-especialistas têm colocado com certa freqüência o nome do Birthday Party ao lado de Velvet Underground, Stooges e MC5, na tentativa de amarrar, alinhas essas bandas seminais. O que você acha disso?

Eu particularmente não diria que fomos tão importantes quanto o Velvet Underground, mas vejo, sim, uma linha costurando essas bandas. Todas eram muito primais e violentas, tinham um modo violento de encarar as coisas, ainda que o fizessem de maneiras diferentes.

Desses, os Stooges são a maior influência...

Tudo começou quando eu era garoto e comprei o Raw Power.

O estrago provocado pelos Stooges na Austrália é enorme, né?

A importância deles é crucial, principalmente para o nosso (australiano) movimento punk. Na Austrália muita gente conhecia e gostava da banda, enquanto que na Inglaterra eles eram completamente ignorados. O punk se auto-gerou de maneira alienada por causa de grupos como o Sex Pistols, que não se importavam com o passado, mesmo com os Stooges. Mas nós nos importávamos. Sempre nos preocupamos com as raízes da música, de onde ela vem.

E o papel dos Saints, no punk, no rock autraliano?

Ninguém pode ignorar os Saints! Para mim eles são a maior banda australiana... são a maior banda de todos os tempos.

Você acha que a “importância” deles para o punk australiano é maior do que a do Radio Birdman?

Infinitamente! Havia, na época, duas escolas de pensamento: em Sidney ouvia-se e soava-se “hard rock”, era a área de bandas como o Radio Birdman; em Melbourne, que é mais ou menos de onde eu venho, as influências eram Stooges e logo depois os Saints. Eles não foram uma influência só na música do Birthday Party, mas em toda a minha vida.

E que tipo de recordações você tem da época do Birthday Party?

Para falar a verdade não me lembro de muita coisa. Foi um blackout que durou quatro anos. Ficamos boa parte do tempo em Londres, algo por volta de quatro anos... nunca tive muita certeza de quanto tempo durou a banda. Tocamos em todos os buracos sujos de Londres – você conhece alguns deles – e fomos totalmente desprezados pela crítica e pelo público. No nosso primeiro ano de vida, acho que só tocamos umas três vezez. Lavei muito prato para poder sobreviver. A coisa começou a crescer no segundo ano, quando passamos a perceber que tínhamos um público só nosso e que esse público tinha um modo “muito” particular de se relacionar com a banda.

A separação da banda se deu de maneira meio conturbada...

O final foi meio desastroso, eu diria. Percebemos que não havia para onde ir, e os discos são um testemunho disso. Musicalmente, tínhamos atingido o nosso pico. O problema maior foram os shows: no começo, éramos nós que atacávamos diretamente o público, encostando-o na parede, assustando-o . Mas a situação se inverteu de maneira estranha, ao ponto desse público exigir que abusássemos dele, queriam que descarregássemos toda nossa violência sobre ele... o que acabou invalidando a nossa proposta inicial. E a essa altura, metade da banda odiava a outra metade.

Daí para a carreira solo foi um passo fácil?

O passo que eu dei, o mais lógico para mim, foi abandonar tudo. Foi o Mick Harvey quem insistiu para que eu continuasse. Eu sempre faço o que ele manda, é o meu “padrinho”. O Blixa Bargeld também ajudou na minha volta, já que éramos amigos há um bom tempo. Ele sempre me impressionou como guitarrista, a verdadeira antítese do Rowland Howard. Rowland nunca soube se controlar, sempre tocou o mais alto possível, continuamente, o que era bom para o Birthday Party, mas isso acabou bloqueando qualquer tentativa de evolução. Já o Blixa sabe quando toca e quando ficar quieto.

Você sempre esteve ligado, de alguma maneira, ao cinema. Do elogio ao nosso Pixote às participações em filmes como Asas do Desejo e Ghost Of The Civil Dead.

Eu amo o cinema. Posso assistir a qualquer coisa, pois o que me agrada é o ato físico de sentar numa sala escura para ver o filme... Trabalhar no cinema é outra coisa! Não considero minha aparição em Asas do Desejo um trabalho cinematográfico, estávamos só tocando. Ghost Of The Civil Dead é um bom filme, opaco… Acabo de participar de um filme chamado Johnny Suede, em que faço o papel de um músico velho, albino e junky – possivelmene o pior papel que eu poderia ter aceito e que pode se transformar no maior constrangimento da minha carreira cinematográfica. Não sei muito bem porque fui aceitar o papel, acho que é porque achei que estava ficando muito exigente, preciosista demais nas minhas escolhas.

E quanto a escrever seu próprio roteiro, ou dirigir?

Não tenho intenções de fazer isso. Se eu tirar um tempo para escrever algo, vai ser um livro. Assim ninguém coloca o dedo no seu trabalho. Se você escreve um roteiro e dá esse roteiro para o produtor ou diretor, ele não é mais seu. É simples assim. Eles vão massacra-lo e todo seu trabalho terá sido em vão.

Já que falamos há pouco de Wender, Asas do Desejo e roteiros, textos, dá para fazer a conexão com o escritor Peter Handke aqui... você acha que reflete de alguma maneira o personagem “típico” dessa turma, aquela pessoa em constante movimento, em busca da tal identidade, do lar...?

Acho que sim, consigo ver um pouco desse personagem em mim. Não quero ser mórbido sobre o assunto ou falseá-lo dando ênfase exagerada, mas sinto enorme, incontrolável necessidade de movimento. Não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar. Não tenho tido um lar desde que deixei a Austrália! Não tenho pertences, não me apego materialmente às coisas. Você não precisa achar um lar para viver. Vivo desse jeito, uma existência nômade.

Você já se arrependeu de algo que fez no passado, artisticamente?

Eu jamais escreveria algumas das coisas que escrevi no passado. Escrever é crescer – colocar para fora o que você pensa descobrindo suas crenças. Para saber como realmente me sinto com relação às coisas tenho de colocá-las para fora, vê-las de frente. Embora eu entenda as coisas que fiz com o Birthday Party, não há como voltar a fazer esse tipo de coisa, retomar aquelas idéias. Nem é possível. Para mim a evolução, o crescimento são partes do processo criativo. É o processo criativo...

O quanto de Nick Cave existe em Euchrid Eucrow, protagonista do seu romance And The Ass Saw The Angel?

Ele é um personagem fictício. De alguma maneira eu fui me tornando esse personagem... A experiência de escrever o livro foi extremamente intensa, fui me tornando o personagem... mas isso não quer dizer que o livro é autobiográfico.

And The Ass Saw The Angel poderia ter sido um disco?!

Sei o que você quer dizer... Eu escrevi o livro porque me pediram para escrevê-lo. Um editor me disse que eu deveria tentar, ficou insistindo... não sei se teria feito se não fosse assim. O livro trata de muitos assuntos dos assuntos presentes na minha música, mas vai mais longe, aprofunda muito mais as idéias. Sempre me senti limitado na hora de escrever as letras das minhas músicas. Gosto dos detalhes, de entrar nas brecas, por isso me senti muito bem na hora de criar um personagem, ao criar uma verdadeira visão de mundo com os olhos do outro.

Você lê a Bíblia com freqüência?

Sim. Tenho um grande fascínio pela Bíblia. Existe os fascínio literário... E é um período da história que me interessa.

Um artigo recente sobre você no semanário britânico Melody Maker...

Aquele lixo...

... dizia basicamente que a sua mitologia sobrevive por causa do cuidado, ou da frieza com que você trabalha alguns estereótipos...

Eu não acho que trabalhe com estereótipos! Eu não criei nenhuma imagem ou mitologia. Pouco me importa o que o público acha, espera ou quer de mim. O que a imprensa diz não me interessa minimamente, é problema deles. Tento manter meu senso de humor, mas no fim das contas é na minha vida que os bastardos estão se metendo. Se isso me incomoda? Incomoda, sim.

O que você tem ouvido ultimamente?

Ouço sem as mesmas coisas: blues, gospel... Não estou muito em contato com as novidades, principalmente com aquelas ditadas pelo hype, pela moda. Isso não me interessa.

Quais os planos para o futuro?

Tenho gasto boa parte do meu tempo olhando para a tela do computador, tentando escrever a primeira sentença de um novo livro. Está bem difícil começá-lo.

O que você vai adiantar desse livro?

Nada! Eu jamais cometeria o mesmo erro duas vezes. Só posso dizer que tenho a estrutura do livro, mas por enquanto nada veio para fora. Há muita pressão para que eu escreva esse livro, e eu acho que isso é até necessário. Às vezes é preciso que as pessoas me empurrem, me levem até a beira... escrever um livro é uma tarefa sagrada, solitária, necessita-se de muita auto-confiança. Preciso reunir forças, adquirir essa auto-confiança antes de começar a escrever. Sem querer ser dramático, escrever um livro é como entrar num túnel: você é engolido por tudo.

É possível detectar algum tipo de influência da cidade de São Paulo no seu trabalho?

Eu não sei. Quando você mora num país, numa cidade, não consegue evitar a absorção de certas coisas que estão ao seu redor. Eu não vim para cá por causa do meu amor por coisas brasileiras, música brasileira, por exemplo: não é por causa disso que estou aqui. Mas você acaba influenciado... As pessoas daqui me inspiram, o modo de ser, a maneira como conseguem encarar o inferno político, o inferno econômico em que vivem. Você tem que estar com os olhos tampados e ter algo no ouvido para não estar ligado no que acontece. O que é incrível no povo brasileiro, e eu sei que isso é um clichê, é que ele é capaz de sorrir, continuar sorrindo, na cara de tudo isso. E tudo bem se alguém disser que é uma espécie de fuga. Não importa. Eu fico com o valor do instante, fico com o momento em que o sorriso vem... sempre fui meio obcecado pelo Brasil, e nunca soube realmente por que.

Parece que você alguns problemas na produção de seu disco mais recente, Henry’s Dream.

Pela primeira vez trouxemos alguém de fora para produzir o disco. Esse cara chamado David Briggs, que produziu alguns dos melhores trabalhos do Neil Young... mas infelizmente conosco a coisa não funcionou. Ele tem sensibilidades muito americanas com relação às coisas, o que se mostrou problemático na hora de tratar com as nossas sensibilidades australianas, que são muito diferentes! Ele não parava de falar, ficava nos elogiando o tempo todo... no final simplesmente não sabíamos o que estava bom ou ruim. O que ele mixou ficou horrível. Ouvimos o disco na Austrália e achamos que estava um desastre. Remixamos tudo por nossa conta. Faltava garra. Não vamos trabalhar com ele novo, pode estar certo disso.

Foi você que escolheu o primeiro single, “Straight To You”?

Não, foi a gravadora. Na verdade são dois “lado A”: “Straight To You”, que é uma boa balada, uma triste canção de amor, e “Jack The Ripper”, que é extremamente violenta, agressiva, direta, puro blues. Eu queria que “Jack The Ripper” fosse o single, mas é claro que a gravadora preferiu a mais calminha.

O single serve para garantir o balanço dos extremos, amor e ódio, típico dos Bad Seeds...

Acho que estamos nos especializando nisso. Usamos a violência em tudo, temos uma maneira muito intensa de encarar o amor.

O Birthday Party, os Bad Seeds... Nick Cave de um modo geral tem bastante o tal respeito da crítica especializada. Que características da sua obra você acha que são mais destacadas, e corretamente, por esses críticos?

Acho que o que fizemos foi criar o nosso próprio nicho, algo único. Assim que alguém ouve identifica que somos nós. Não somos, nunca fomos influenciados por modas... um disco nosso pode até ser colocado na parada ou algo parecido, mas logo virá outro que vai conseguir evitar esse tipo de situação... De qualquer modo, não é isso que nos importa. O que queremos é fazer uma música incrivelmente alta e personalizada. Assim que você ouve, você sabe que Nick Cave está lá, e ele está cantando, cantando o que vê no mundo, cantando seus problemas.

Há alguma banda fazendo um som “parecido” com o seu?

Não. Não há nada parecido.

E o Gallon Drunk?

Eles tiveram azar. Eu ouvi a banda e gostei, e não porque eles “pareçam” Birthday Party... porque isso eles não são. É coisa da mídia. Uma vez que os jornalistas começam a aprisionar as bandas em rótulo, pronto: é o fim. Acho que o Gallon Drunk levou azar.

Por falar nesses rótulos, você chegou a escrever um artigo a respeito no New Musical Express...

Você leu aquilo?

... li e achei legal, mesmo que você tenha demolido algumas bandas prediletas como Danse Society...

O que destrói as bandas é o rótulo. O que importa é que existam bandas isoladas fazendo música, boa música, original. Dar uma etiqueta para uma banda pode ser útil, mas não vai durar. Você tem que expressar o que sente, não o que acha que deveria expressar.

Como vai seu novo livro?

Eu sabia que você ia perguntar isso. Ele ainda está lá em cima, no lugar onde todos os bons livros estão.

Essa é uma maneira de dizer que ele não existe, ou melhor, existe sem nenhuma linha escrita?!

Exata. No ano passado eu tirei férias, embora não soubesse bem disso. Na verdadem eu gravei um disco, Henry’s Dream, mas geralmente faço muito mais do que isso. Acabei não fazendo.

Dá para dizer que partes de Henry’s Dream saíram de cima desse livro?

Eu tenho minhas idéias, minhas obsessões... elas aparecem constantemente em meu trabalho. Como eu te disse uma vez, num livro eu levo essas idéias, essas obsessões muito mais longe, bem mais para dentro. Procuro alcançar seus extremos lógicos, infernais.

Livros, livros... Você diria que And The Ass Saw The Angel é um desses livros redentores, que representam a salvação para o autor?

Acho que sim. O livro foi escrito para mim mesmo, o que equivale a dizer que não é um livro para qualquer um. Fiquei completamente tomado pelo personagem, uma pessoa muda com uma visão muito particular do mundo. Se você conversar com as pessoas que estavam próximas a mim enquanto eu escrevia o livro, você vai descobrir que mudei radicalmente, como pessoa. Embora eu diga que o livro tenha sido escrito para mim, é bom deixar claro que não procurei criar voluntariamente nenhuma barreira de incompreensão, algo hermético que ninguém pudesse entender. No fim das contas trata-se de uma estória forte, uma novela com seu ápice e seu final. Não há nada de escrita automática, verborragia gratuita ou maneirismos vazios em geral.

Pode até virar best-seller...

Eu realmente não me importaria se o livro se tornasse best-seller. O livro vendeu bem, muita gente gostou. Eu diria que o único problema é que ele tem que ser lido em inglês, o inglês tem que ser a primeira língua do leitor, ou este tem que ter um bom domínio... Todos os grandes livros são difíceis, você tem que penetrar nas páginas, lutar com as idéias de quem escreveu.

Você tem uma média de leitura, mensal, semanal...?

Leio pelo menos três livros por semana. A idéia mesmo é fugir. Quando me sento com um livro, bloqueio qualquer interferência externa. Leio de tudo, de porcarias de aeroporto a coisas mais sérias. Tento balancear minhas leituras. Acabo de descobrir um autor chamado Patrick Hamilton, um inglês dos anos 40, muito instigante. Gosto muito do James Ellroy.

Já leu algo de literatura brasielira?

Estou lendo Capitães de Areia, do Jorge Amado, em inglês, há uns bons 2 anos. Tem sempre algo que me impede de terminá-lo.

A sua contribuição para I’m Your Fan, que é um tributo a um de seus ídolos, Leonard Cohen, é uma das melhores coisas do disco de longe. Sem dúvida, das mais “divertidas”. O que acha da idéia e do resultado?

Que bom que você falou que a contribuição é divertida... A minha versão é a melhor, não há dúvidas quanto a isso. A idéia inteira do disco era ruim. “Lenny” Cohen é um dos artistas mais incompreendidos e injustiçados que conheço. As pessoas tendem a achar que ele, que sua música são depressivos, o que é uma enorme bobagem. O problema com esse disco é que até os músicos, que deveriam saber um pouco mais, contribuíram para manter essa imagem equivocada. É ridículo. O disco inteiro é um bom exemplo de como interpretar Leonard Cohen de modo errado. A nossa versão é a que se salva, e salva o disco. É uma grande brincadeira, com o típico humor de Nick Cave.

Entrevista publicada no livro "Emissões Noturnas", de Fábio Massari, lançado pela editora Grinita Cultural.