Esta é a versão antiga da Dying Days. A nova versão está em http://dyingdays.net. Estamos gradualmente migrando o conteúdo deste site antigo para o novo. Até o término desse trabalho, a versão antiga da Dying Days continuará disponível aqui em http://v1.dyingdays.net.


discografia,
letras e reviews:

* principal
* complementar

arquivo
Home | Bandas | Letras | Reviews | MP3 | Fale Conosco
Review:  Songs for the Deaf

avaliação:

Esse disco é, acima de todas suas qualidades, eficiente. É um dos poucos que eu tenho certeza absoluta que levaria para a infame ilha deserta. Em todos os aspectos que você possa abordá-lo, você vai chegar à conclusão que não tem como não curvar-se à excelência de Josh Homme e considerá-lo o melhor roqueiro desde Kurt Cobain. Não tem como.

É um disco que prometia desde o momento em que seu embrião passou a ser maturado, quando o ex-Screaming Trees Mark Lanegan juntou-se às Rainhas da Idade da Pedra na turnê európéia em 2001. O que vinha acontecendo em reuniões casuais passou a ser oficial - Lanegan passara a ser membro efetivo do cast (ôba!). Na verdade, os discos anteriores "Queens Of The Stone Age" e "Rated R" já tinham sido uma redenção para quem está sempre procurando aquele disco de rock que justifica o investimento, que agrada mesmo, que é como o freguês gosta. Na verdade, o Kyuss, banda anterior de Josh e do companheiro Nick Oliveri já havia cravado sua importância na história do rock pesado dos anos 90. Então o caso aqui é de artistas abençoados, bebedores da famosa água benta texana que nos dá outros artistas como o Polyphonic Spree, o Lift To Experience e o Trail Of Dead. Só que, observe, são mais de 10 anos de atividade em que Homme só acertou o alvo.

Eis que o que já estava bom tomaria proporções históricas quando o boca-grande Dave Grohl começou a espalhar que estava dando umas voltinhas no estúdio onde o novo álbum estava sendo feito e que tinha tocado bateria em umas duas músicas. "Uau! O ex-baterista do Nirvana volta às baquetas!". Alguns meses depois a informação não só confirmaria a mão de Dave como complementaria que sua participação tomaria o álbum todo. Holofotes ligados com força máxima, "Songs For The Deaf" sai do forno e todas aquelas bandas trabalhadas pela mídia naquele período são automaticamente reduzidas a pó. Os caras conseguiram nos surpreender de novo. Mais uma vez.

"Songs For The Deaf" tinha tudo para ser um disco em que a música assume papel secundário. A escalação de dream team poderia muito bem ofuscar o trabalho e justificar as atenções ao álbum. A nova exposição que a Interscope Records passaria a dedicar à banda caracterizava o oportunismo, o consumismo em função dos fatos secundários ao invés da música. Mas, como diria o peão de obras aqui da empresa, "não tem perigo". Quando falamos de QotSA, lidamos com uns caras que gostam muito de cheirar, fumar, beber, curtir umas minas peladas e tocar muito alto. Justamente o chavão clássico do rock. Entretanto, esse espírito rock n' roll lisérgico e pesadão reflete perfeitamente em sua música, as suas influências são perfeitamente sintetizadas nos resultados e os caras conseguem produzir sonoridades que mesmo nem tanto inovadoras, adquirem uma originalidade e eficiência ímpares. E "Songs For The Deaf" é toda essa síntese do que esses caras foram desde os tempos do Kyuss, reelaborada à perfeição para o agrado de todo o ser humano que gosta de rock. É a síntese de um disco de rock perfeito.

Conceitualmente, o álbum emula a trilha sonora de uma viagem de carro, onde as músicas são intercaladas por vinhetas que emulam locutores de rádio, trocas de estação e discursos evangélicos. O ritmo é desenfreado, dos primeiros segundos de "Millionaire" até o final de "A Song For The Deaf", o ouvinte é submetido a uma montanha russa infernal, um buffet de variadas influências que o proíbem de pressionar stop antes que o disco tenha terminado. Como evitar uma chacoalhada, uma bateçãozinha de cabeça na seqüência "Millionaire"/"No One Knows"/"First It Giveth"?
"A Song For The Dead" confirma que a participação de Dave Grohl transcede os motivos mercadológicos para reafirmar sua qualidade impecável como baterista, dando ao disco toda a competência que um baterista precisaria dar. A lisergia dá as caras, seja nos vocais "sob efeito" de Josh ("The Sky Is Falling"), seja nas influências do peso mórbido do velho Sabbath ("A Song For The Deaf"). Nick Oliveri consagra seus punkzões inconfundíveis ao dar vida nova a "Millionaire", um original do projeto Desert Sessions e ao antecipar o flerte com sonoridades pop que depois se concretizariam em seu projeto Mondo Generator ("Another Love Song"). E é claro, mete o coturno na porta em "Six Shooter". O disco ainda tem espaço para louváveis hits com tendências radiofônicas como o quase-ska "No One Knows" e o primor "Go With The Flow", sem que isso signifique perda de qualidade ou venda da alma para o capeta. A presença de Mark Lanegan oferece mais brilho ao disco, concedendo-no ainda mais recursos de exploração. Sua característica voz preenche de forma obscura a regravação de "Hangin' Tree" e possibilita o amálgama entre vocal inacessível e sonoridades digeríveis em "God Is On The Radio" (isso porque não vou tocar no assunto dos shows, em que Lanegan retorce músicas como "Autopilot" e "Walking On The Sidewalks" de forma inesquecível). A tal faixa escondida "Mosquito Song" corre em paralelo, como que um momento de relax na fogueira depois de uma inesquecível viagem pelo deserto. Ao final da canção, não nos resta outra alternativa a não ser pressionar play mais uma vez, assim como fazem as crianças ao repetir a dose no trem-fantasma.

"Songs For The Deaf" sintetiza toda a carreira do QotSA, impulsionando novidades como Grohl e Lanegan, dando a tão sonhada nova vida ao rock. É o disco mais rock dos últimos anos e por mais que se procure não se encontrará outro tão eficiente. Está na lista dos melhores de todos os tempos de muita gente. Conquistou alternativos, metaleiros, posers, a minha namorada, o meu avô e até o presidente da república. E sem que isso abale o prestígio que a banda recebeu. É o álbum para se levar à ilha deserta, repito. E isso é passível de ser concluído logo que o CD começa.

PS.: Eu cheguei a conclusão que esses caras são uma exceção na minha maneira de ver música. Sempre apoiei a mudança como prioridade na carreira de uma banda, o experimentalismo como princípio básico da evolução de um artista. Nesse caso, eu abro mão dessa convicção e declaro que Josh & cia. podem se reunir à vontade e gravar quantos "Songs For The Deaf" eles quiserem. Mesmo que venha mais-do-mesmo pela frente, é o tipo de prato que eu sempre vou querer repetir.

Vicente Moschetti
publicado originalmente no blog Baby Let's Rock

ler também review de Alexandre Luzardo