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Porto Alegre (RS), Brasil - 19 de maio de 2004

Porto Alegre certamente foi um destino inesperado nessa turnê alienígena do Lemonheads pelo Brasil. Alienígena porque há quase cinco anos Evan Dando havia abandonado oficialmente o nome Lemonheads passando a se apresentar como artista solo. O que na real não muda muito, pois o conceito geral sempre foi de que o Lemonheads é o Evan Dando e quem mais estivesse na banda. O tal "retorno" foi arranjado sem nenhum alarde, literalmente do nada. O management de Evan Dando afirmou desconhecer a turnê no Brasil a um site não oficial que soube dos shows do Lemonheads por fãs brasileiros. Enfim, sabe-se lá porque o nome foi desenterrado (quer dizer até sabe-se, ou melhor, especula-se que o nome Lemonheads teria mais apelo em terras brasileiras do que um show de Evan solo). Evan Dando topou a parada provando que leva sua carreira com descontração, não se importando em deixar o nome Lemonheads para a história. O mais surpreendente é que já está circulando por aí uma entrevista de Evan onde é anunciado um novo álbum do Lemonheads para breve. É uma bela notícia, mas é bom ficar com um devido pé atrás, afinal, não era Evan Dando que estaria naquela banda The Virgins??

Voltando a Porto Alegre (tá fácil desviar do assunto), se o Lemonheads não é das bandas mais conhecidas e adoradas no Brasil, em Porto Alegre o anonimato da banda é gritante. Jamais tocou no rádio nos tempos em que a banda tinha destaque, o status do Lemonheads na cidade estava mais para "banda de MTV" do que para "pioneiros do rock alternativo". Quando a banda sumiu do mapa, não houve uma redescoberta que volta e meia acontece com outros nomes, e as histórias de Evan Dando, que poderiam render ao sujeito o até simpático reconhecimento como um "maldito", não colaram em Porto Alegre, onde ele está mais para o fraco que não soube levar a carreira adiante. Não é tarefa das mais fáceis encontrar um fã do Lemonheads na cidade, pelo contrário, entre aqueles que sabem que eles são talvez exista mais resistência à banda do que admiradores. E ainda assim, pela primeira vez trouxeram o Lemonheads para Porto Alegre, para a alegria e entusiasmo de poucos.

O show foi marcado para o Bar Opinião, lugar que abriga sem muito esforço mais de duas mil pessoas. Logicamente a expectativa não era de lotação máxima e até rendeu brincadeiras no caminho para o show, "vamos encontrar só as moscas lá dentro". Dito e feito, o lugar estava muito vazio antes do show. Dez minutos de vídeos no telão e o movimento não aumentava. "Olha lá, entraram mais duas cabeças!", era tudo o que se podia dizer esporadicamente. Na hora que o Lemonheads entrou, com boa vontade deviam ser uns quatrocentos expectadores.

Os primeiros a subir no palco foram os portoalegrenses da Bidê ou Balde. Ironicamente também não se trata de uma unanimidade em Porto Alegre. A banda fez um belíssimo show, mesmo com a recepção um tanto fria do público. O carisma da tecladista Kátia, recém-saída da banda, fez falta, mas no som, a banda superou a ausência dos teclados com muita pegada roqueira e as performances sempre divertidas de Carlinhos e cia. É admirável como a banda parece afiada e bem entrosada mesmo com a perda recente. No repertório, a BoB apresentou duas músicas inéditas, que estarão no terceiro álbum da banda, além das já conhecidas "Cores Bonitas", "Microondas" e "Bromélias", destaques do álbum Outubro ou Nada. Do primeiro álbum vieram os maiores hits, "essa vendeu muito disco" foi a introdução de Carlinhos antes de tocar "Melissa". "E Porque Não?" sempre ganha força ao vivo com a letra original, "eu estou amando / a minha FILHINHA", talvez tenha sido o ponto alto do show.

Na seqüência vieram os canadenses do All Systems Go e então chegou a hora de se posicionar na grade junto ao palco para ver o Lemonheads. Não há muito a dizer sobre o All Systems Go, exceto que foi um show limpo, sem problemas técnicos de som nem nada. A dita mistura de hardcore com melodias de apelo pop funcionou bem ao vivo. Segurou bem o público, não foi o show tomara-que-acabe-logo que muitos estavam esperando. Mas é indiscutível que eles estavam ali para preencher o tempo, não deixaram grandes impressões, lembrando nesse aspecto o show dos igualmente inexpressivos Hell on Wheels que abriu para o Teenage Fanclub em Curitiba.

E então chega a hora de Evan Dando, que toma o palco sozinho com o violão, tocando "Style", total surpresa no setlist. Evan estava visivelmente alterado, por motivos muito alardeados em outros lugares, nem cabe especular ainda mais aqui. Ao menos a voz estava ok, diferente do que aconteceu no show de São Paulo. Mas ele mostrou alguma dificuldade de manter o tempo das músicas no violão nas primeiras músicas e era evidente que ele não tinha muita noção do que estava acontecendo. Por volta da terceira música, alguém do público pediu "rock n' roll" ao que Evan meio irritado falou algumas palavras endereçadas ao sujeito, pegou a guitarra e o resto da banda entrou. Ali parecia que tudo iria sair errado: Evan ficou vários minutos se acertando com a guitarra, descontente com a afinação e parecendo cada vez mais desorientado. A banda tentou acompanhar, eles acabaram meio que simulando uma jam e então parece que Evan desistiu e resolveu tocar de qualquer jeito. Alguém pediu "Down About It" e foi prontamente atendido e a partir dali o show estava razoavelmente bem encaminhado musicalmente.

Mais tarde a estremecida relação Evan-público foi devidamente salva pelo gesto de uma fã.

Parêntese: fã aliás que eu tive o prazer de conhecer via Orkut. Sim, a existência do Yogurt está plenamente justificada para mim após ter conhecido outros fãs via comunidade Lemonheads.

Pois bem, a Gabriela estava vestindo uma camiseta escrito "cabeças de limão" e tentou por várias vezes entregar uma de presente a Evan. Até que ele se deu conta e pegou a camiseta. Nisso alguém gritou "that's Lemonheads in portuguese!", e a expressão do cara mudou na mesma hora que ele pegou a camiseta na mão. Ele não teve dúvida: com um jeitão todo atrapalhado, tirou a camisa e vestiu o presente, a galera vibrou e foi um momento muito bonito do show.

E então, mesmo confuso Evan passou a fazer um visível esforço para agradar o público (o difícil era ele sacar as coisas na órbita em que estava), em certo momento disse que o público brasileiro era o melhor e ainda lascou o indefectível "I love Brazil." Provavelmente o mesmo deve ter sido dito em sua última passagem pela Eslovênia, mas ainda assim é sempre bom ouvir isso. Durante "If I Could Talk I'd Tell You", ele mudou a letra na segunda parte, adaptando um discurso anti-Bush. Terminou puxando o coro "just one bullet to kill George Bush" no que foi timidamente acompanhado pelo público.

Foto: Bruno Maestrini, www.bpix.com.br

Evan Dando, à frente dos Cabeças de Limão

As músicas? O setlist (nitidamente bolado na hora) privilegiou a fase Atlantic do Lemonheads. Do álbum Lovey teve a bela "Ride With Me", de It's A Shame About Ray só coisa fina: a emocionante faixa-título, além de "Hannah & Gabi", "Confetti", "My Drug Buddy" e "Rudderless" que teve o vocal dividido com um cara da equipe da turnê (Evan não apresentou quem era o sujeito), naquele momento Evan aproveitou para dividir um "cigarrinho" com a equipe. Come on Feel the Lemonheads foi representado pelas já citadas "Style" e "Down About It", mas teve ainda "the Great Big No", "Being Around", "Big Gay Heart" e "Into Your Arms", que teve a recepção mais calorosa do público, com muita gente cantando junto. Rolou ainda "Hospital" e a já citada "If I Could Talk I'd Tell You" de Car Button Cloth. Como já havia acontecido nos outros shows da turnê, o Lemonheads também prestigiou músicas da carreira solo de Evan Dando, como "It Looks Like You" e "Stop My Head", cuja introdução soou bem esquisita na guitarra de Evan. Enfim, os fãs saíram do show sem reclamar do repertório e não havia como, realmente. Pessoalmente falando, faltaram duas grandes favoritas: "Stove" e "Mallo Cup", mas nada que comprometesse.

Para terminar, mais dois chavões. Peço desculpas a inteligência alheia, mas isso realmente cabe aqui. Foi um belo show para quem foi ao Opinião sem grandes expectativas. Ou por conhecer o histórico de Evan Dando, ou por ter acompanhado relatos dos outros shows da turnê. E outra, foi o típico show para fãs. Para o típico fã torcedor, aquele que se afeiçoou tanto à música do Lemonheads que releva qualquer deslize e sai de lá torcendo para que tudo dê certo para o cara e que ele volte ainda outras vezes.

Alexandre Luzardo