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Texto escrito em homenagem aos 10
anos de lançamento de “Mellon Collie
and the Infinite Sadness”.
Leia o que foi escrito na época:
Rock com cérebro
(Revista Veja, edição de 10 de janeiro
de 1996)
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Até a metade de 1995, a discografia
do Smashing Pumpkins era formada por três discos que
já haviam sido suficientes para imputar ao grupo o
status de um dos preferidos do renovado público do
rock ‘n’ roll, cujo perfil havia sido recém
remodelado pelo furacão grunge. “Gish”,
o debut lançado em 1991, apresentava uma banda ainda
em formação, fazendo nada muito diferente do
que trocentas outras bandas faziam influenciadas por Black
Sabbath ou Jesus and Mary Chain, para citar somente uma referência
clássica e uma contemporânea à época.
Nas letras de um Billy Corgan ainda cabeludo talvez já
residisse algum diferencial artístico, mas no geral
é um disco de proporções limitadas. “Siamese
Dream”, 1993, é sem dúvida alguma um passo
à frente nesse contexto particular, ainda que seja
também um álbum bastante relacionado ao rock
alternativo e seus estouros de guitarra e melodia que eram
a marca de 8 em 10 discos mais bem cotados nas paradas daqueles
tempos. Rock alternativo que, diga-se de passagem, começava
a deixar de ser tão alternativo assim. Completava
a obra Pumpkins a coletânea de b-sides “Pisces
Iscariot”, lançada em 1994, de identidade um
pouco mais sortida, o que pode ser atribuído ao fato
de ser um disco formado por canções de diferentes
fases do grupo e experimentações que não
couberam nos dois discos oficiais lançados até
então. Três bons álbuns, em especial “Siamese
Dream” e seus hits arrasadores como Cherub Rock, Disarm
e Today, mas que não apontavam explicitamente para
o que a banda faria a seguir.
Nesse ponto, o ditador da banda, Billy Corgan,
havia tratado de criar expectativa em todos aqueles que acompanhavam
seu grupo, ao dizer que a próxima obra do Smashing
Pumpkins seria um divisor de águas. Se dizia influenciado
por novos sons e declarava que sua banda lançaria um
disco verdadeiramente relevante. Um trabalho febril em estúdio,
que começou em fevereiro de 1995 e só foi terminar
em julho, foi levado a cabo pelo grupo ao lado dos produtores
Alan Moulder e Flood, para tentar materializar as pretensões
de seu líder. Sessões que chegavam a durar 16
horas e a obsessão meticulosa de Corgan para com o
resultado final levaram o grupo a um estado de esgotamento
emocional que quase decretou o fim prematuro da banda. Mas
tudo valeu a pena. O resultado, o álbum duplo “Mellon
Collie and the Infinite Sadness”, apareceu nas prateleiras
das lojas de discos americanas no dia 24 de outubro de 1995.
Vale lembrar que o trabalho foi complementado no ano seguinte
pelo box set “The Aeroplane Flies High”, que traz
cerca de 30 canções que não couberam
em “Mellon Collie and the Infinite Sadness”. Até
que me provem o contrário, a quantidade de canções
notáveis gravadas pela banda nesse reduzido espaço
de tempo é algo inédito na história da
música.
“Mellon Collie and the Infinite Sadness”
se transformou, em poucos dias, no álbum duplo mais
vendido da história, teve vários hits com clips
exibidos exaustivamente na MTV, e outras estatísticas
mercadológicas mais, mas isso tudo não me interessa.
O fato é que desde a primeira vez que botei os ouvidos
neste disco, o que ocorreu em janeiro de 1996, algo me ligou
a ele de maneira magnética e definitiva. Não
que isso possa interessar a alguém, mas de quantos
discos você pode dizer algo parecido? Pois é,
espero que poucos. Até já tentei escrever sobre
antes, tentativa essa miseravelmente malograda, é lógico.
Mas no mês que “Mellon Collie and the Infinite
Sadness” faz 10 anos, sou obrigado a esboçar
algumas frases novamente – ao menos dessa vez conto
com a ciência de que escrever sobre um disco que lhe
é mágico é tarefa impossível.
Eu diria que minha visão é superficialmente
a que segue.
“Mellon Collie and the Infinite Sadness”
é uma obra magistral, arrebatadora desde sua introdução
instrumental até a canção de despedida.
Repleta de paixão e ousadia, barulho e melodia, fúria
e graça, é um tour de force de uma
banda decidida a criar um álbum que vá além
daquilo que todos os outros álbuns do mundo oferecem
aos seus ouvintes (o grau de sucesso da banda nessa empreitada
é algo que cada um deve deduzir por si só, mas
creio que a essa altura já deve ter sido possível
perceber qual a minha opinião). A mais saliente conseqüência
dessa ambição, a variedade sonora presente em
suas aproximadas duas horas de duração, levou
muitos a torcerem o nariz, ao mesmo tempo que levou tantos
outros a apontá-lo como um marco. Para o segundo grupo,
a grandiosidade que a banda não negou em sua concepção
veio acompanhada de inspiração e execução
compatíveis, o que levou o Smashing Pumpkins a marcar
o mundo da música com uma obra-prima vigorosa e pungente.
Mas, ao contrário do que pode parecer, não se
trata de um conjunto de músicas complexas ou de significados
profundos – muito pelo contrário. A maioria das
canções são de assimilação
imediata; a banda estava em seu auge criativo, jorrando melodias
lapidares, refrões memoráveis e afiação
instrumental na ponta dos cascos, explorando até o
limite cada uma dessas virtudes e sem impor fronteiras ao
seu processo criativo (o que incluiu um arsenal de instrumentos
diversificados à disposição), em especial,
às composições de Billy Corgan. De conceito,
tem-se somente a superficial impressão que Corgan quis
escrever sobre a variedade de sentimentos e estados de espírito
que nós da espécie humana somos acometidos,
com alguma frouxa conexão com os subtítulos
dados aos discos, “Dawn to Dusk” e “Twilight
to Starlight”. A questão é que o poder
da música ofusca qualquer tentativa de teorias maiores
sobre seu conteúdo e eventuais sentidos encadeados.
Para ilustrar isso tudo, a primeira atitude
naturalmente considerada seria uma descrição
faixa-a-faixa, mas estou certo de que isso renderia um maçante
tratado sobre a diversidade de adjetivos que podem ser utilizados
em um texto cujo tema é música. O mosaico musical
é muito amplo: o riff seco e robótico de Zero,
os lentos e melancólicos dedilhados de To Forgive,
a melodia pop frugal e de astral nostálgico de 1979,
os guitarrismos dilacerantes de Muzzle, a delicadeza atmosférica
de In the Arms of Sleep, o caos sonoro de Tales of a Scorched
Earth, a batida eletrônica ruidosa e suja de Love, o
clima idílico da canção de amor By Starlight,
a sonoridade fantasiosa e meiga de Cupid De Locke, a urgência
intensa de Jellybelly, a ingenuidade quase arcaica de Lily,
e por aí vai. Mais importante do que prosseguir nessa
lista é ressaltar que todas essas canções
convivem perfeitamente bem apesar de suas aparentes distâncias
e incompatibilidades, provavelmente devido ao fator comum
que existe entre elas: a altíssima inspiração
que dá vida a cada faixa, transformando-as em capítulos
independentes de uma admirável jornada musical. Em
resumo: uma profusão de canções ininterruptamente
excepcionais concebidas sem maiores laços físicos
e um álbum fabuloso em sua totalidade.
Um exemplo destes contrastes: Stumbleine
é uma pequena canção formato violão-voz,
de uma beleza inequívoca e singela, que faz você
pensar que nada além de um violão deveria ser
necessário. Logo a seguir, separadas por mínimas
unidades de tempo, a algazarra absurda de XYU, que parece
ter sido gravada a partir de uma jam em estúdio onde
os membros da banda tocavam alucinadamente e Corgan urrava
qualquer coisa por cima, sem saber que eram gravados. E isso
estranhamente faz sentido. E como esse mesmo disco pode abrigar
a esquisitice psicodélica de We Only Come Out At Night,
que poderia estar na trilha sonora de The Fearless Vampire
Killers, caso Roman Polanski tivesse dirigido sua comédia
sobre vampiros depois de 1995?
Quando não estava com a imaginação
totalmente desvinculada de bases tradicionais, a banda serviu-se
de todos os arquétipos possíveis de canções
de rock, sempre com espetacular sucesso: do então formato
básico verso-calmo-refrão-explosivo de seu hit
maior, Bullet With Butterfly Wings, ao peso cadenciado e sólido
de Here Is no Why, passando pela sinfonia épica de
microfonias de Porcelina of the Vast Oceans, pela raiva incontida
e anárquica de An Ode To No One, culminando na devastadora
Bodies. Nessas citadas e em algumas outras, o Pumpkins esculacha:
guitarras inflamadas e absolutamente empolgantes são
a tônica. Mas notem que, o que em muitos discos é
o diferencial, a virtude encerrada em si só, em “Mellon
Collie and the Infinite Sadness” é apenas um
aspecto.
Um outro fator que me intrigou desde o início
da minha história com esse disco é o esmero
que a banda dedicou à abertura e ao fechamento de sua
obra. Após uma bonita e rápida introdução
ao piano, Tonight Tonight abre os trabalhos de maneira inesquecível:
Billy Corgan cantando sobre uma noite de redenção,
amparado por uma perfeita combinação de música
clássica (violinos em primeiro plano) e guitarras,
é um dos maiores legados deixados por “Mellon
Collie and the Infinite Sadness” à música
contemporânea. E Farewell and Goodnight, a derradeira
canção, possui toda uma beleza e ternura que
fazem com que o ouvinte que não passou incólume
pela audição do álbum estabeleça
definitivamente uma relação de afetividade com
ele, que dificilmente será quebrada pelo resto de sua
vida. “Goodnight, my love, to every hour in every day/goodnight,
always to all that's pure that's in your heart” são
as últimas palavras, antes do mesmo piano da faixa
de abertura entrar em cena novamente para terminar a viagem.
Antes de concluir, pelo menos duas canções
merecem um parágrafo dedicado: Thru The Eyes of Ruby,
com seus ricos detalhes e camadas de guitarras, é,
de todas as 28 canções desse disco, aquela mais
dificilmente transposta para palavras. Reza a lenda que 25
trechos gravados independentemente estão comprimidos
ali naqueles sete espetaculares minutos. Mas não falamos
aqui de virtuosismo e complexidade tais quais são normalmente
associados a excessos de guitarra e produção:
cada trecho, cada evolução de Thru The Eyes
of Ruby, contribuem de maneira intrínseca para um crescendo
de dimensões grandiosas cujo desfecho, com Corgan cantando
que a noite chegou para nos tornar eternamente jovens, está
entre as maiores criações artísticas
humanas (antes de achar isso um exagero, lembre-se que se
trata meramente da minha opinião). Ruby é, das
músicas perfeitas, a mais perfeita. Thirty-Three é
outro momento de inspiração única e execução
brilhante: uma canção de âmago simples,
cujo arranjo bucólico forma uma moldura perfeita para
o lirismo de Corgan. Duas faixas bastante diferentes entre
sim, exemplos perfeitos para ilustrar os predicados desta
obra-prima.
Já se passaram 10 anos do lançamento
de “Mellon Collie and the Infinite Sadness”, e
há quase essa mesma quantidade de tempo eu venho ouvindo-o
freqüentemente, sempre com a mesma admiração
e catarse de sentimentos. Já é parte inexorável
de minha vida. Se, ao longo da sua, você desenvolveu
ligação igual com algum disco, então
há de me entender quando digo que colocar essa satisfação
em palavras é impossível. Ficam então
esta segunda tentativa frustrada e a minha humilde reverência,
nesta data simbólica.
Fabricio Boppré
out/2005
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