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Primeiro dia

Tim Stage: Picassos Falsos, PJ Harvey, Primal Scream

Chegando atrasado, praticamente no meio do show do tal Picassos Falsos, realmente percebi que não perdi nada; o repertório da banda não me agradou nem um pouco. O que ouvi anteriormente da banda me deu a impressão que seria algum fantasma dos anos 80 (e realmente era), mas também tentava soar como um elo perdido entre aquela década e o Paulinho Moska(!). A única coisa que distinguia desse lance agora retrô eram os “brasileirismos” - percussões características, o vestuário do vocalista que lembrava adaptação teatral de Morte e Vida Severina, etc. Desconheço se, na época na qual o Picassos Falsos surgiu, eles tenham sido pioneiros nisso, mas a verdade é que esse toque de regionalidade me parece cliché e bem forçado. As músicas que mais sacudiram a galera foram as que seguiam moldes anos 80 - entre essas um rockzinho eficiente cujo refrão enaltecia os cariocas (claro que teve muito paulista babaca que achou aquilo o cúmulo). Mas, no geral, foi chato e só serviu para o povo pegar lugares para o que viria a seguir.


O exagerado Picassos Falsos

Após me esgueirar ao máximo que pude no meio da multidão durante o show do Picassos Falsos e o intervalo, consegui chegar numa distância de três pessoas da grade em frente ao palco, e isso era o máximo que eu poderia conseguir no momento: além dos PJmaníacos, já estavam devidamente a postos os que vieram prestigiar o Primal Scream, guardando seus lugares na chamada fila do gargarejo.

PJ Harvey demorou para subir ao palco, o que só contribuiu para aumentar a ansiedade de seus fãs. Houve troca de amplificadores, e os roadies ainda montaram uma segunda bateria no palco. Durante o intervalo, ao olhar para o backstage, era possível flagrar uma silhueta feminina muito semelhante à dela circulando nas proximidades do palco e gesticulando com outras pessoas. Após um bom tempo, Polly Jean subiu ao palco, acompanhada de seus músicos estranhos; um baixista que parecia um punk de meia-idade (pelo corte de cabelo quase-moicano), um guitarrista alto e desengonçado que parecia ter saído de alguma banda de Seattle dos anos 90, e um baterista careca, por sinal o único que parecia mais "normal" entre todos. Polly Jean trajava botas e um conjunto vermelho com a capa de seu último álbum "Uh Huh Her" estampada nas costas. E aquela saia minúscula agraciou vários marmanjos que estavam nas primeiras fileiras...


Polly Jean em ação

PJ iniciou seu set com "Uh Huh Her", faixa que batiza seu último disco, mas que, por ironia, não está no mesmo. Eu já tinha ouvido uma versão acústica envenenada da música, e nesta performance ao vivo ela me pareceu meio estranha; o volume do microfone principal estava baixo, e Polly Jean pediu para aumentar diversas vezes. Fora isso, senti que a banda se perdeu milimetricamente algumas vezes no refrão. Mas ao desenrolar do show, os problemas com som foram sumindo e então PJ Harvey pôde ter o público do Tim Festival em suas mãos: a empolgação com "Meet Ze Monsta" (executada num ritmo mais lento), "The Letter", "Big Exit" e "Who The Fuck" culminaram numa versão coletiva de "Down By The Water". Por ser a música mais conhecida de PJ Harvey, era como se todos os presentes no recinto resolvessem cantar a parte dos backing vocais: quando Polly Jean cantava a frase "That blue-eyed girl..."; a platéia devolvia a plenos pulmões a participação. Foi o maior momento do show; se haviam algumas pessoas resistentes ao carisma meio tímido da musa, com certeza essa resistência foi quebrada ali.


PJ mandando ver nas maracas de “Meet Ze Monsta”

O momento mais irregular do show foi quando PJ emendou músicas mais calmas e desconhecidas, sendo que uma delas era "Evol", que não pode ser encontrada em nenhum álbum. Porém, ela logo se redimiu, tocando a urgente "50ft Queenie" no mesmo ritmo frenético que a versão do álbum “Rid Of Me”. No auge da música, PJ chegou a estourar uma corda... A postura de palco dela me pareceu ao mesmo tempo cativante e um pouco insegura, mas ela arrancava palmas de qualquer um. Visivelmente impressionada com a platéia, Polly Jean disse algo como "é muito bom tocar para vocês e ver um monte de rostos felizes assim", além de falar "obrigado" na língua tupiniquim várias vezes. Diferente de Avril Lavignes da vida, PJ Harvey demonstra uma postura instigante no palco sem apelar para atitudes rebeldes e gratuitas. O show terminou com a longa e climática "To Bring You My Love", um final marcante para uma apresentação sem bis, apesar do público insistir em chamá-la de volta. Ocorreram até vaias aos técnicos de som do Primal Scream.


Primal Scream: Bob Gillespie mal se mantinha em pé

Porém, o Primal Scream me impressionou, e muito. As duas primeiras músicas do set (“Allright” e ”Accelerator”) foram bem pauleiras, e logo começaram as aberrações eletrônicas características da banda, como “Miss Lucifer”. O vocalista Bob Gillespie, vestido elegantemente com um terno preto e uma calça platinada, parecia estar com seu senso de equilíbrio comprometido, usando o pedestal como apoio, assumindo uma performance mais séria em relação aos outros integrantes da banda. O baixista Mani (que tem uma incrível semelhança com Johnny Ramone, só que ligeiramente gordo), vestido com uma blusa verde amarela escrito "BRAZIL", era o que mais mantinha contato com o público. Em certa altura do show, Mani chegou a dedicar “Sick City” aos Mutantes. E um dos integrantes da banda que chamou a atenção simplesmente por NÃO tentar chamar a atenção foi Kevin Shields, lendário integrante do My Bloody Valentine. Shields ficou apenas no seu canto esquerdo, tocando bordões simplórios e com a cabeça baixa. Fez jus ao estilo shoegazer dos tempos de MBV.


Mani, o baixista ramônico

Apesar de não gostar muito da mistura barulhenta de guitarras com ritmos eletrônicos empreendida nos álbuns do Primal Scream, no show eu tive que dar meu braço a torcer. O que às vezes pode soar extremamente maçante no estúdio, ao vivo ganha uma outra energia totalmente diferente. O resultado é um som ensurdecedor, com gravações soltas servindo de introduções ou interlúdios para mais esporro eletrônico. Essa tônica tecnologicamente caótica só abrandou um pouco durante “Rocks” (o grande hit do PS), “Burnin’ Wheel” e no bis com “Jailbird” e “Movin’ On Up”, justamente as músicas que dão mais destaque às guitarras. Depois, ainda voltaram para mais um bis, detonando “Kick Out The Jams” do MC5. Foi como se eles soubessem que nós brasileiros perdemos a chance de assistir o MC5 no Goiânia Noise deste ano, e eles resolveram nos compensar de alguma forma. Como se fosse necessária uma boa-ação dessas, depois de um show memorável como esse...


Gillespie no comando do show que deixou todos surdos


Segundo dia

Tim Lab: Grenade, Libertines, The Mars Volta

O espaço do Tim Lab era um pouco menor que o Tim Stage, e isso propiciou um show mais intimista. Escalado com a difícil tarefa de segurar os ânimos ensandecidos das fãs do Libertines, o Grenade abriu a noite no palco Tim Lab. E a banda de Londrina não fez feio: com um set list conciso, mostrando músicas competentes, este show pode vir a ser um grande impulso na carreira do Grenade. A performance foi ainda mais notória do que o show anterior que eu vi no Curitiba Pop Festival 2004, quando a banda foi obrigada a tocar para um público quase inexistente, às 15 horas da tarde. Desta vez, o Grenade pôde tocar para um público bem maior e segurou as pontas com um show muito bom e enérgico, com músicas como “Old Wish”, “Rain Maker” e “Vampire”. Tanto que, no final, o guitarrista/vocalista Rodrigo Guedes ainda estourou todas as cordas de sua Gibson SG, enquanto executava a última música. Quem foi para o Tim Lab apenas para assistir o hype do momento acabou descobrindo uma grande banda nacional.


Grenade: show para fãs de Libertines

Com o fim do show do Grenade, a platéia logo foi se agrupando perto do palco. Engraçado que, nos outros shows do dia anterior, como PJ Harvey e Primal Scream, em certos momentos eu tive que me manter na ponta dos dedos do pé para visualizar o palco. Mas isso não ocorreu no show do Libertines: a horda de fãs do grupo era composta por adolescentes baixinhos - em sua grande maioria meninas, sendo que algumas delas exibiam cartazes com os dizeres "Anthony, I love you" (referindo-se ao novo guitarrista Anthony Rossomando).

Fora o fator fã, o show do Libertines foi muito coeso. Puxando Carl Barat para os vocais principais desde a saída do porralouca Pete Doherty, o Libertines mostrou a que veio. Fizeram um show extenso, contando com os hits do primeiro disco, como “Time For Heroes”, “I get Along”, “Up The Bracket” e do recente disco auto-intitulado, como “Can’t Stand Me Now” e “Last Post On The Bugle”. O baixista John Hassall mantinha uma postura impecável, raramente demonstrando alguma empolgação. Por outro lado, o baterista Gary Powell mandou muito bem nas baquetas (em certo momento do show ele até arriscou uma batida de escola de samba durante um solo de bateria), e, pelo que a música do grupo mostrou, ele seria o melhor instrumentista dali.


Libertines para menores

Após a sensação do momento, metade do público do Tim Lab evaporou. Azar de quem saiu; o Mars Volta apareceu repentinamente no palco, sem ao menos ser anunciado, ao contrário do que aconteceu com as outras bandas. Após vários ajustes dos roadies, os sujeitos estranhos simplesmente brotaram no palco e fizeram uma cacofonia de sons como introdução pitoresca. O vocalista Cedric Zavala ficou visivelmente irritado com os técnicos, que pareciam ter esquecido de regular o volume de seu microfone. Cedric gesticulou, arriscou agudos e quase engoliu o microfone em um pequeno ataque de histeria, devidamente acompanhado de seus trejeitos e danças desconcertantes.

A banda emendou a entrada com "Roullete Dares (This is the Haunt)". Ninguém ali estava preparado para aquilo. Assim que os primeiros acordes foram tocados, tanto a banda quanto o público reagiram com uma selvageria tremenda. Clones malfeitos de Cedric Zavala subiam nas costas de desconhecidos e os usavam como escada para dar moshs violentos. E o Mars Volta incendiando tudo aquilo, com um som ora agressivo, ora progressivamente tortuoso. Todo aquele discurso anti-violência na platéia na época do At the Drive-in foi descartado. Foi o caos. Era como se fosse difícil de acreditar que tais sujeitos estavam ali, em nossa época atual, fazendo uma mistura de punk com rock progressivo/clássico e a platéia respondia com violência à performance de palco tresloucada do vocalista.


Mars Volta
"Concertina", faixa do EP Tremulant, deu seqüência à loucura. Sendo mais calma na maior parte do tempo, sua execução ao vivo serviu para dar uma abrandada nos ânimos do público, principalmente na parte cantada em espanhol. O empurra-empurra perto do palco deu lugar a vários rostos embasbacados com o lirismo melódico de Zavala. Mas isso durou apenas até a próxima porrada: “Drunkship Of Lanterns”, seguida de “Eriatarka”. Apesar das intermináveis jams que esticaram as músicas no limite do suportável, o show terminou tão repentinamente como começou.

O Mars Volta veio, fez estardalhaço e tocou cerca de cinqüenta minutos, os minutos mais intensos que se poderia ter presenciado naquela noite. O público remanescente sentiu-se roubado, xingou o Libertines por terem estourado o seu tempo de performance. Mas a duração do show do Mars Volta é geralmente de quarenta minutos, com um set list formado de cinco ou quatro músicas. Mesmo assim, se Cedric, Omar e cia não fizeram o melhor show do festival, com certeza foi o mais bizarro...

Alexandre Lopes
fotos do 1° dia: Site oficial do TimFestival 2004
fotos do 2° dia: Kadu Barral