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Rio de Janeiro, Sexta-feira, 21/10/2005 - Palco Lab

[intro]

Que o ano de 2005 pode ser considerado um marco na história de shows relevantes no Brasil ninguém discorda. Mesmo com a concorrência de apresentações passadas como as de Pixies, Brian Wilson e Mars Volta, o ano está atravessando um segundo semestre insano, que muitos buscarão explicação em alguma teoria do caos ou da entropia, aparentando os eventos com tsunamis e furacões que assolaram outras terras. Alimentando a tendência e injetando combustível na iniciativa estão as operadoras de telefonia celular, que se apoderaram do mercado antes explorado pelas marcas de cigarro. Competidoras naturais, não só investiram na sempre contestada idéia de trazer bandas gringas para o país, mas inauguraram uma corrida para decretar qual delas estaria por trás do melhor dos festivais. A guerra das telefonias virou uma guerra de festivais: o público, ao invés de decidir entre a marca X ou a Y de um modelo, entre a operadora A ou B, acabou decidindo entre qual(is) banda(s) gostaria de ver. Beleza de impasse.

[Tim]

Nessa ótica, o Tim Festival usou a experiência de outras duas edições e construiu uma estrutura digna de aplauso em sua edição carioca. Mais uma vez apoderou-se da área externa do Museu de Arte Moderna e fez ali um evento até cosmopolita para os padrões com os quais estamos acostumados (pelo menos com a tradicional gambiarra que temos aqui em Porto Alegre). Numa área central do evento, o tal Village, cujo acesso poderia acontecer por R$ 10,00, o carioca podia ter o gostinho de andar às voltas das tendas, comer uma fatia de pizza por R$ 8,00 ou beber uma latinha de ceva por R$ 4,00. A função social do evento.

[Lab]

As atrações se desdobraram por mais de um palco, cada qual com seu preço e pulseira de acesso diferenciados. De uma maneira geral, o palco Stage (o maior) recebia as atrações mais acessíveis e famosas, o Club recebia jazz, o Motomix fazia as vezes de rave e o Lab trazia alguns nomes de "vanguarda". Numa noite onde Strokes e Kings Of Leon sugeriam aperto e gritaria de tietes, algum outro palco automaticamente teria de representar a alternativa mais coerente. A tal "vanguarda", assim, ganhou meus setentões (mais taxas da Ticketmaster), já que se desenhava ali a chance de ver Maurício Takara, Autechre e Vincent Gallo numa parada só. O espaço Lab encarnava a modelagem vanguardista a que se propunha e, mesmo sem ter entrado nas outras tendas, tenho certeza que foi o espaço mais bala: pequenas arquibancadas laterais proporcionavam acomodação a uma proximidade incrível do palco, sendo todo o espaço forrado por um carpete vermelho ao melhor estilo kubrickiano. Para fechar beleza, telões de ótima qualidade e ar-condicionado fumeta, gelando até o osso. E o som? O som foi o melhor que já peguei: bem definido, nítido, perfeitamente dimensionado para um ambiente de cerca de 2.500 pessoas. Teoricamente, o mínimo para que a escalação da noite pudesse se apresentar de forma bastante recompensante.

[a vanguarda carioca não é bem a mesma que a daqui do sul]

Ao contrário de esperados cabelos vermelhos, roupinhas de brechó e óculos garrafais, o perfil do público na noite mais alternativa do evento não fechou bem com o que era de se esperar. Muitos ali estavam como eu: vieram para ver o Wilco e o Arcade Fire, não quiseram topar com a balbúrdia dos Strokes. E, incrivelmente, a vanguarda carioca é bem comportada, arrumadinha, na qual se identificava sem muito esforço artistas globais queimando fumo pelas arquibancadas. "Devem estar aí para babar o ovo do Vincent Gallo", pensei. Defendendo a vertente das tribos, apenas os caras com barba, no melhor estilo Los Hermanos de ser, coisa fácil de ser vista no evento carioca.

[M. Takara + 3]

Quando o som do Takara começou, pouca gente havia se colocado em frente ao palco. Eu mesmo resolvi guardar meu lugar nas pequenas porém confortáveis arquibancadas. Explico: o baterista do Hurtmold já tinha me vendido seus dois discos solo, de forma que já sabia mais ou menos o que devia pintar por ali. Show para assistir sentado, curtindo as eletronices no conforto e conferindo as capacidades da coisa funcionar no palco. Eu tiro um caldinho de seus discos, mas eles em vários momentos se concentram na experimentação massiva, que às vezes cansa um pouquinho, se perde e é sempre um desafio a mais nesse tipo de festival. Mas o show que vi, só para eu ficar quieto, surpreendeu. Takara é alicerçado por dois comparsas, um controla animações no telão, outro é fincado na bateria. Com essa estrutura, parte para a briga com uma parafernália eletrônica e uma bateria extra, que vez em quando ele espanca com gosto. O que em disco chega a soar por demais artificial ou repetitivo, ao vivo é anabolizado pelo desempenho certeiro do baterista de apoio, que em momento algum se confunde com os ritmos quebrados que produz no instrumento. Takara tem pleno domínio de seus apetrechos e consegue utilizá-los de forma sincronizada com as bases que constrói. Meses de ensaio? Não, cancha mesmo. Fica difícil determinar os momentos em que os músicos estão improvisando ou estão reproduzindo fielmente alguma coisa previamente ensaiada. Todo o serviço é certeiro, com início, meio e fim, o que contribui para um ótimo resultado geral, mesclando pitadas de pós-rock com eletrônica da Warp, com melodias e efeitos bem encaixados. E, mais importante, já prontinho para gringo ver. Por mais que o público tenha terminado a apresentação com a mesma calmaria com que começou, já desconfiava que tinha visto o show da noite.


Maurício Takara

[Autechre, ops, Jamie Lidell]

Mesmo que o Gallo representasse o auge do vanguardismo da noite, o Autechre seria uma chance de ver essas bandas que todo mundo diz apreciar mas ninguém na verdade escuta. Figurinha da incensada gravadora Warp, a dupla representa esse lance de eletrônico abstrato, de música inteligente, uma coisa que poderia ter sido ou muito tri ou muito sacal. Mas o emprego do famoso jargão "problemas pessoais e tal" justificou o cancelamento da apresentação dos gringos, desatualizando as informações que constavam no meu ingresso. Em seu lugar, um outro carinha do selo, Jamie Lidell, do qual nunca tinha ouvido falar. Não costumo ir a shows sem conhecer as bandas previamente, o que fez da experiência um exercício de avaliar o som do cara na lata e na hora mesmo traçar um veredicto. Para quem comprou o ingresso em busca dum techno panorâmico, foi um tanto frustrante receber um Prince reloaded no lugar. Lidell foi acompanhado por um carinha que usava um óculos de papel, responsável por alcançar apetrechos ao músico, filmá-lo e confundir a platéia, que levou uns vinte minutos para se dar conta que ele não era o músico e não fazia nada além de ajustar a câmera e alcançar utensílios (um capacete fazia parte dos cacarecos, por exemplo). Vamos aceitar que mesmo com o som calcado no funk e no soul, algo como um Prince + Jackson 5 + Warp, o show dele era divertido e ele tinha a manha da parafernália que controlava (sua indumentária era um roupão de tigresa e um sapatinho de couro branco). Minha namorada achou a voz dele parecida com a do carinha do Maroon 5, eu admito que ele realmente cantava muito. Mas mesmo com tudo isso a coisa não fluiu delícia e lá pelas tantas resolvi retornar ao ambiente externo, onde patricinhas cariocas davam um outro contexto ao festival de música.

Ali tinha um palco free patrocinado por uma marca de cerveja, onde tocavam naquele momento DJ Marky + B.Negão. Não fiquei muito tempo na volta, mas o povo pulava ensandecido enquanto Marky jogava pesado seu drum n' bass e B.Negão dava umas enjambradas no microfone. Nada de vocal de protesto – naquele ritmo e com aquela necessidade de apenas "bombar a massa", o rapper carioca só conseguiu ficar nos "uhus" e "ieiés". Voltei para o Lab, o Lidell estava fechando a escrita e o povo, vejam só, aplaudia de pé. Lidell, com seu funk/soul assimilável, representou a familiaridade em meio à esquisitice das outras atrações.

[Vincent Gallo]

O show menos provável de acontecer no Brasil foi, quando resolvi comprar o ingresso, alvo de minhas maiores desconfianças. Mesmo lendo no Gordurama uma crítica favorável de um show do cara em Camden Town, não conseguia me convencer que essa iniciativa poderia dar certo no Rio de Janeiro, por mais que o Lab tivesse a temperatura ideal para isso. "When" não é o tipo de álbum que, se executado fielmente num palco, desperta o interesse da platéia, uma vez que ele só funciona em momentos de clausura. A platéia tem de estar muito a fim. E Vincent Gallo definitivamente não combina com uma terra onde se anda de chinelos e bermuda. Tinha convicção que, para esse lance rolar, o cultuado artista usaria de artifícios adicionais para encher seu som, tipo pegar os lances do Takara emprestados. Mas Gallo apostou no seu cacife e se deu mal. Para começar, a tal grávida gostosa que tocou o horror em Camden, que àquela altura já devia estar com a criança nos braços, foi substituída por um magrão que não trouxe alternativas que justificassem a ausência feminina no palco. Completando, um outro carinha ficava mais no baixo, sendo que de vez em quando eles alternavam as atividades entre o piano e a bateria, que quase não foi utilizada. Devia ter chamado na amizade com o Frusciante e ter trazido o cara junto. Gallo contou com um clima que o espaço não proporcionou, uma vez que o vocal frágil e o som suave e concentrado em dedilhados de guitarra, tal igual ao disco, simplesmente se perdeu em meio à conversalhada da platéia. Mesmo largando mão de suas faixas mais interessantes ("When", cantada pelo magrão interino, "Honey Bunny"), o público foi aos poucos dispersando, indiferente ao que se passava no palco. Bingo.


Vincent Gallo

Ao final do set, umas três fileiras que ali ficaram em frente ao palco clamaram por um bis, o qual Gallo fez questão de atender. Voltaram ao palco, tocaram mais uma e veio a derradeira despedida com um emblemático "Thank you for staying". Ao meu lado, Caetano Veloso todo de branco sararicava em meio aos remanescentes. Procurei à minha direita o povinho maconheiro da Globo, mas eles já não estavam mais lá.

Vicente Moschetti


Rio de Janeiro, Sábado, 22/10/2005 - Palco Lab

Memórias não são traçoeiras. Memórias apenas condensam, bagunçam e enfeitam a inexorável linha do tempo, de acordo com as sinapses que piscaram na mente de cada um. O nascer-do-sol misteriosamente arranca muitos detalhes da minha. Isso significa que não consigo lembrar a ordem das músicas do show do Arcade Fire. De qualquer modo, fiz o meu dever de casa, e espero ter o setlist correto. O importante é que eu não vou esquecer o estrago que esse setlist fez.

Memória falha ou não, o que se passou naquela tenda é, de qualquer modo, irreprodutível. Confesso que a minha expectativa era toda para o Wilco. O "Funeral", debut do Arcade Fire, seguiu dias a fio na minha vitrola. Isso nunca se comparou, contudo, à minha fixação pelo "Yakee Hotel Foxtrot", do Wilco. A noite estaria feita somente com o Wilco e a sua Jesus Etc. Some-se a isso eu não lembrar de ter lido sobre a insanidade dos canadenses ao vivo. O Arcade Fire seria apenas um bônus muito bem quotado.

Isso era o que devia estar pensando quando as preparações se iniciaram. Movimentação no palco, apetrechos a rodo: apreensão. Ora, barulhinhos são bons, desde que não se abuse deles. Nada no "Funeral" parecia indicar que o Arcade Fire teriam esse mau gosto. De qualquer maneira, citando o Chapolim, gato escaldado tem perna curta. Será que teríamos um teatro sem sentido? Teria eu que me distrair e rir até chegar a vez do Wilco?

Quanta bobagem passa pela cabeça imatura! Um bando de jovens canadenses subiu ao palco, entoou "ô ô ôoooo", e isso bastou para o resto todo sumir. Só vou falar uma vez do público: êxtase. Só vou falar uma vez de mim: êxtase. Procuro adjetivos para isso tudo. Só achei superlativos. E superlativos não têm mais força numa época em que todas as comédias românticas propagam o "amor da minha vida". Acho que eu deveria procurar um verbo. Do alto do meu limitado vocabulário, desconfio que não acharia nenhum verbo também, mesmo se escavasse todas as palavras já proferidas em toda a história da humanidade. Quem sabe no dia em que se matematizar a lingüística eu consiga uma fração irracional adequada.

E "ô ô ôoooo" era só o começo de Wake Up. A minha atordoação ainda juntava as peças, trabalhando na velocidade do Homer Simpson: sim, a banda estava teatralmente vestida, num show de rock, como se estivesse em um funeral. Sim, eles estavam de luto, mas dizendo que o que se deve fazer nessa hora é celebrar a vida. O que eu tentava entender é como isso não caiu no ridículo. Se fosse qualquer outro grupo de pessoas ali em cima, não haveria outro resultado que não o ridículo absoluto. Disco conceitual com auto-ajuda barata? Não cola. Importação de princípios zens? Jamais. No entanto, tudo fazia perfeito sentido, porque a música que vinha dali simplesmente não deixava a coisa ruir. E ninguém estava profetizando auto-ajuda nenhuma, nem espantando fantasma nenhum. Estavam, sim, fazendo música. A explicação parecia plausível, então aproveitei para apreciar a música como deveria.

Fazer música. É óbvio que fazer música não pede mais do que um indivíduo colocando sua arte em ondas sonoras, não importa se para isso use apenas sua voz, um tambor, ou uma orquestra. O Arcade Fire usa o que estiver no palco. E eles sabem tudo que existe no palco. Sabem toda aquela parafernália assustadora? Ouve-se o som que ela faz. Ela se encaixa perfeitamente na música. Faz todo o sentido do mundo ver os caras correndo de um lado para outro para pegar outro instrumento em microssegundos, para dar continuidade à música, porque você vê que aquele som é essencial ali. Não se sabe como algum dia já se criou música sem um espoleta escalando e batucando a armação do palco. Não se imagina mais um mundo em que capacetes não viraram instrumentos musicais oficiais. Nada era enfeite fútil; tudo, mas tudo mesmo, era música. E os caras suavam para buscar as coisas certas, na hora certa, para virar música.

Neighborhood #2 (Laika) e No Cars Go seguiram em um terreno já conquistado. A tentação é de falar que todos estavam "vivendo o momento". Sabe quando isso faz sentido de verdade? Sabe quando a música vira Música e simplesmente conta coisas sobre sua mente que você próprio não sabia? O mais assustador é quando isso faz mais sentido do que das outras vezes. Você sabe que está, então, confinado em um show do Arcade Fire.


Arcade Fire

Prometi não falar do público, certo? O problema é que o Arcade Fire pareceu realmente comovido conosco. Eles estavam se divertindo com as boas centenas de pessoas que sabiam as letras de cor, que cantavam junto e que pulavam desgraçadamente. Foi assim até na calma Haiti, com a voz de Régine reinando. E também vieram Headlight Looks Like Diamonds e Crown of Love. Ah, claro, Crown of Love. Acho que essa era a música à qual eu tinha mais antipatia. E, heresia, não é que ela ficou bonitinha ao vivo? Ou eles são competentes mesmo ou jogaram alucinógenos pelo ar condicionado.

Mal sabia eu o que viria a seguir. Win Butler, líder da banda, anunciou "Brazil", e celebrou-se uma versão estilizada e mórbida de "Aquarela do Brasil". Dispensarei outras metáforas desnecessárias. Depois dessa, Tunnels alimentou o dia. A minha adoração incondicional a esta música deve ser uma confusão causada pelo tom nabokoviano da letra.

Emendaram Power Out, que tem aquela pitada de the Cure que poucas bandas conseguem aproveitar (fora o próprio Cure, claro). E a seqüência caiu muito bem: Rebellion (Lies). Não houve bis. Tentei me consolar e me convencer de que a tal Música ficou condensada naqueles minutos extremamente intensos. E, com a corroboração de algumas teorias físicas, minutos extremamente mais curtos do que os convencionais. Mas a quem poderia enganar? Vou fazer coro aos que amaldiçoaram a organização por não permitir um miserável bis. Não podia haver melhor final do que "every time you close your eyes, lies, lies" ecoando. E, mesmo assim, poderia ter havido um bis.

Para não deixar o tom de contradições de lado, repito as minhas palavras estupefatas: esse foi o show da minha vida. Escolho com muito cuidado os tais superlativos, sim. E, mais uma vez, o show do Arcade Fire foi o show da minha vida. A explicação não está acima; eu nunca achei nenhuma. Fiquei apenas com a conclusão. E eu encontrei a conclusão quando começaram os "ô ô ôooo".

Natalia Vale Asari

A única atração que considerei imperdível, desde que tomei conhecimento da escalação deste evento, era o Wilco. Pelo menos eu pensava assim antes de saber que o Perry Farrell estaria por lá também, mas desse fato só tomei conhecimento após o mesmo ter se consumado. Pelo o que me falaram, ele estava apenas discotecando, mas era bem capaz de eu ter ido para o Rio de Janeiro um dia antes apenas para ver a figura que fundou o Jane's Addiction. Infelizmente, quando soube, era tarde demais. Confesso que fiquei um pouco decepcionado naquele momento, mas algumas horas depois, eu nem me lembrava disso, nem me lembrava direito de qualquer outra coisa que estivesse ocupando minha cabeça naquele dia, naquele semana, se bobear, naquele mês. Naquele intervalo de tempo, presenciei o show do Wilco, e também a estupefante apresentação do Arcade Fire, mas o show do Wilco foi aquilo que na hora, e ainda agora, classifico sem titubear como o show da minha vida. O que não significaria muito se eu revelar que não foram muitos os shows assistidos por mim até aqui, mas ganha peso se levar em consideração que tenho expectativa de vir a assistir muitos outros shows, mas dificilmente consigo imaginar que algum deles será mais sensacional do que foi este.

É sempre um experiência formidável assistir no palco uma banda tocando canções que você ouve seguidamente, se torna íntimo delas, cantarola diversas vezes ao longo dos dias, etc. O show de Jeff Tweedy e cia, para começar, foi especial pois o setlist foi irrepreensível neste contexto pessoal. Faço nova confissão: conheço pouco dos três primeiros da banda, até gosto deles, mas nunca me apresentaram nenhum diferencial que me fizesse tê-los como discos prediletos, sob qualquer óptica. O contrário acontece com os dois últimos, "Yankee Hotel Foxtrot" e "A Ghost Is Born", com os quais possuo grande ligação. E em seu primeiro show em terras brasileiras, a banda recheou o setlist com todos os grandes momentos destes dois espetaculares álbuns.

Pouco tempo após os insanos músicos do Arcade Fire deixarem o palco totalmente aclamados pela galera, Jeff Tweedy, Glen Kotche, John Stirratt, Nels Cline e Pat Sansone entram e se posicionam sem pressa. Jeff, em um de seus tradicionais paletós surrados, aparência de quem anda se alimentando muito bem, cabelos mais desgrenhados do que nunca, inicia o espetáculo com Poor Places. Taí uma música que, dentre as muitas pérolas de "Yankee Hotel Foxtrot", nunca tinha me despertado muita atenção, mas, ao vivo, soou linda como nunca, e funcionou maravilhosamente naquele momento específico. Explicando melhor: no intervalo entre o Arcade Fire e o Wilco, eu estava bastante ansioso. Depois do catártico e barulhento show da primeira banda, a platéia estava com os nervos à flor da pele, adrenalina a mil, e pedia fervorosamente um bis dos canadenses, que rapidamente ficou claro que não iria acontecer. Senti até que o local, pelo menos ali pelo lado direito do palco onte estávamos posionados (na arquibancadinha já citada pelo Vicente), esvaziou um pouco quando percebeu-se que o Arcade não voltaria. O som do Wilco difere levemente do Arcade Fire, no sentido de que certamente não daria continuidade ao ritual alucinado que vinha sendo orquestrado pelos canadenses, pelo menos não logo de cara, e eu temia o que aconteceria, qual seria a reação da platéia, até mesmo a minha própria. Mas essa apreensão foi logo dissipada por Poor Places: a bela melodia, a voz incomparável de Jeff e o suave e tristonho crescente da canção foram suficientes para ganhar a platéia, mudar o ambiente, e dar início a cerca de duas hora de magnífica música ao vivo.

Kigpin, do "Being There" veio a seguir, canção de veia country, violões misturados a guitarras, a banda esbanjando entrosamento e competência, a despeito de ter em sua formação dois membros praticamente novos (Pat Sansone e Nels Cline entraram na banda em 2004). Na sequência a banda atacou com uma sequência inesquecível: Muzzle of Bees, com seu dócil e preguiçoso arranjo acústico desembocando em uma das já famosas seções de descontrução engendradas pela banda (no disco esse trecho final não chega a ser tão dissonante, mas ao vivo as microfonias foram ensurdecedoras), em execução perfeita, emocionante. Os acordes iniciais de Handshake Drugs quase me fizeram chorar; outra preferência pessoal, uma canção perfeita, dentro dos meus critérios, e foi a primeira vez que eu vi in loco uma música que integra a minha seleta listinha de músicas perfeitas. Cansei de ouvir a versão ao vivo que está no EP bônus de "A Ghost Is Born", nos dias que precederam o show, para imaginar como seria. Obviamente, eu não cheguei nem perto. Depois I Am Trying To Break Your Heart, um clássico moderno que dispensa maiores comentários, e Hummingbird, com seu alto astral meio ingênuo, meio rural, meio difícil de descrever, contagiando banda e platéia. Aquelas seis musiquinhas ali já tinha sido o show da minha vida. Sim, eu vi o Pixies ano passado, e mantenho o que eu disse: aquelas seis musiquinhas já tinham sido o show da minha vida. Mas tinha muito mais por vir ainda...

A banda visivelmente se divertindo, Jeff Tweedy à vontade (não é muito do seu estilo trocar idéias com a platéia entre as músicas, e seus problemas pessoais são notórios, mas ele me pareceu um camarada gente fina e naquele momento, bastante descontraído), a platéia ovacionando, e a noite seguiu perfeita, com o grupo variando bem o cardápio, naturalmente com a predominância de músicas dos dois últimos discos. Alguns destaques: Jesus Etc, com arranjo diferenciado (não importa como a banda toca esta, pode ser jogando ovos na parede e com uma gaita de fole, será sempre um música perfeita), a nova Walken (Jeff jogando pra torcida: "essa foi feita para vocês"), Via Chicago (ao vivo, ainda mais densa e tempestuosa), Spiders, War On War, The Late Greats, Misunderstood, I'm A Wheel, intercalando momentos de caos elétrico e momentos de sublime simplicidade.


Wilco

O bis prolongado e repetido ("nós quase nunca viemos aqui, por isso continuamos tocando mais e mais!"), para delírio geral, teve Heavy Metal Drummer (canção pedida pelo camarada Gustavo por e-mail, com Jeff Tweedy fazendo questão de dizer que a música foi incluída por causa disso), as clássicas e perfeitas ao vivo Outtasite e Monday, e o cover de Bob Dylan I Shall Be Released fechando com chave de ouro 800 quilates uma noite inesquecível.

Não tem como escapar da discussão sobre o melhor show do evento. Alguns colegas citam o Elvis Costello, outros o Television, alguns falam do Strokes, a maioria ficou impressionada com o Arcade Fire. O Arcade Fire foi de fato sensacional, Elvis Costello e Television eu não vi mas duvido que tenham sido ruins, mas daqui uns 40 anos, espero que, com dezenas de bons shows assistidos na memória, ainda vou estar lembrando do Wilco emendando Muzzle of Bees e Handshake Drugs, em 22 de outubro de 2005.

Fabricio Boppré


Porto Alegre, Terça-Feira, 25/10/2005

Indiscutivelmente, as grandes duas atrações do TIM Festival 2005 foram Wilco e Arcade Fire. O primeiro mereceu todas as celebrações por causa de seus dois últimos grandes discos, pela representação do caráter desbravador que assumiu e pela própria incredulidade instaurada pela banda ter se deslocado ao Brasil, com tantos Franz Ferdinands podendo tomar seu lugar num evento tão incensado. Já no caso do Arcade Fire, a incredulidade pode ser ainda maior, uma vez que os canadenses desembarcaram na pátria amada justamente no meio do olho do furacão, com um disco altamente celebrado e com o apadrinhamento de celebridades caetanovelosísticas lá de fora. Tentei lembrar de bandas que representassem a mesma urgência quando se apresentaram aqui, mas só consegui chegar em australianos que fazem cover do Pink Floyd. Focado o valor inestimável da iniciativa, pode-se ir um pouquinho mais além.

Porto Alegre, desde que vou a shows, sempre foi uma das capitais do refugo, isto é, de atrações internacionais cuja idade e peso dos artistas já estouraram o limite. Salvo algumas iniciativas recentes (Placebo, por exemplo) e outras memoráveis (Faith No More), os gaúchos aqui até têm a oportunidade de ver atrações grandes, porém, com décadas de defasagem ou com apelação aos reféns das FMs. No livrinho da irrelevância, tocaram recentemente aqui Dire Straits, Lenny Kravitz, Offspring, Living Colour e mais um monte de artistas que estão claramente capitalizando no início da decadência ou mesmo atirando no mercado terceiro-mundista, contando com a inocência dos selvagens latinos. Com base nisso, é de se tirar o chapéu para a iniciativa do TIM versão Porto Alegre: aproveitar o embalo e trazer Strokes e Arcade Fire para tocar aqui, dando um gostinho do que já vem acontecendo no centro do país há alguns anos.

Justamente por essa defasagem em relação ao centro do país e pela política "caixa-prego" de conduzir eventos desse tipo, Porto Alegre enfrenta alguns problemas para receber visitantes ilustres. Em primeiro lugar, há problemas em acomodar o público em um lugar que ofereça um mínimo de estrutura. No caso do evento, ao contrário do profissionalismo impecável aplicado na edição do Rio de Janeiro, a organização local meteu mais de sete mil cabeças num galpão que um dia foi uma fábrica de máquinas. O local, repito, era uma fábrica e não há ali a menor possibilidade de conciliar os objetivos do evento com a estrutura existente. Com uma proliferação de som horripilante, o local ainda tem colunas de metal que, para quem não está muito metido no meio da platéia, posicionam-se exatamente na frente do palco. Nesse sentido, o lance saiu bem ruim: som mastigado e inúmeros obstáculos na frente de alguma parte do público. Completando, nossa imprensa tem algumas dificuldades de lidar com esses eventos. A divulgação, apontada para as massas, apostou forte na presença dos Strokes, conhecidos por grande parte do público por alguns hits de FM. Obviamente, não soube muito bem como fazer com o Arcade Fire. O resultado só poderia ser (assim como foi em São Paulo) um show dos Strokes com a abertura duns caras aí.

Com a piazada a mil (muitos com visual Strokes devidamente reproduzido), o evento arrecadou de fazocas a manos a fim de mandar brasa nas menininhas. Um plus porto-alegrense, que não vi no RJ, foi uma considerável área VIP para onde nem ingressos haviam sido disponibilizados. Quer dizer, alguns muito especiais tiveram privilégios que os mortais que pagaram de R$ 40,00 a 60,00 não tiveram. Enxergavam melhor o palco e tinham serviço de garçom. Coisas gaudérias. Posto tudo isso, já dava para perceber que por mais que o Arcade Fire suasse sangue no palco (o que não me surpreenderia), o evento presenciado no Rio já tinha ganhado a medalha de ouro, pelas condições corretas de estrutura e público.

Acústicos & Valvulados tocou seu rock certinho, agradecendo por estar no TIM e de alguma forma agradando bastante o público dos Strokes, já que quem escuta Strokes regularmente aqui na capital gaúcha certamente escuta muito A&V, graças às FMs locais. Enquanto na etapa carioca houve alguma intenção de disponibilizar artistas novos, em Porto Alegre optou-se pela surpresa zero. Não fosse pelos canadenses que se apresentariam depois, o público teria assistido a um evento sem um pingo sequer de renovação, uma vez que A&V e Strokes estavam na ponta da língua da gurizada.

O Arcade Fire entrou no palco com a tarefa de se comunicar com a platéia gaúcha, o que por si só já era uma parada dura. Ilustríssimos desconhecidos, certamente reuniam na platéia meia-dúzia de blogueiros (aos quais me incluo) que sabiam do valor que aquele momento tinha para os prados gauchescos. A grande massa estava mesmo nas pilhas para que o show dos Strokes começasse, o que podia ser claramente percebido na camada de público que estava atrás do burburinho: enquanto a banda tocava o horror no palco, muitos ficavam olhando para as paredes. E falando em tocar o horror, o show foi tão intenso quanto o do Rio, apenas combalido por todas as forças malignas destacadas anteriormente. Toda a intensidade da banda, o coral uníssono, os olhos fechados pareceram mais uma vez autênticos e genuínos e, apenas para não dar contra total, a turma mais à frente aos poucos mostrou sinais de empolgação. Tudo foi mais uma vez exercitado: Régine foi para a bateria, Richard e Will encheram o palco de teatralidade, Win usou toda sua estatura para centralizar um dos shows mais imperdíveis do rock. Deram um bônus (a cover de "Storm Trooper", do Bruce Springsteen), fizeram a vez com os locais ("Brazil" do Ary Barroso), intercalaram novamente "Power Out" com "Rebellion (Lies)", o momento mais arrepiante que uma banda já produziu num palco. Will ainda tratou de finalizar com um golpe certeiro, escalando as estruturas metálicas do galpão com seu tambor a tiracolo, simbolizando a proposta diferenciada e a entrega da banda em cima do palco. Reafirmei minha crença na força suprema dessa banda que tantos admiradores arrebanhou em tão pouco tempo justamente quando, ao contrário de esperadas vaias e clamores pelos novaiorquinos, o público assistiu e aplaudiu. Se na quarta-feira compraram o "Funeral", bem, aí é outra coisa.

Com a chegada então do momento esperado pela maioria, as gurias de menos de 1,70m de altura começaram a cotovelar o alheio. Já escutei mais Strokes no passado e confesso que a banda de forma alguma incomoda meus ouvidos. Sou mais essa proposta de pop/rock do que os hip-hops que estão por aí. A dificuldade toda foi adaptar a percepção ajustada para o show de antes no show que estava começando. No palco, os caras mandam seus hits, sem grandes inovações, com o público respondendo em alto volume. Muita gente dançando, refrões berrados à volta no mais famoso "portuinglês". Sintetizando, a banda entrou com o jogo já resolvido, limitando-se a trocar passes no meio campo. As faixas novas acabaram não fazendo grandes diferenças, ainda mais com o som embolado que se percebia e músicas como "Last Nite", "Reptilia" e "Barely Legal" foram devidamente celebradas e meticulosamente executadas. Um show de rock que acertou os anseios da maioria da horda que estava no galpão, não chegando nem perto do que a banda anterior propôs e efetuou, mas cumprindo com seu papel.


Strokes

Com essa saraivada de boas bandas tocando no Brasil, surgiu após o show o comentário que Porto Alegre pretende desenvolver um local mais apropriado para esses raros eventos, de forma até que eles não continuem assim tão raros. Ganham todos se uma nova estrutura for disponibilizada. Ainda assim, o TIM em Porto Alegre marcou uma noite onde uma grande banda internacional e uma grande banda de verdade voltaram sua música para uma platéia sedenta por shows desse patamar. Que a organização fique atenta e aos poucos vá absorvendo um pouco da diferenciação proposta pelos cariocas, investindo num ar-condicionado, num ambiente específico e se possível se dando conta de que a presença de uma banda como Arcade Fire aqui significa muito mais do que esses shows de segunda linha que tentam nos enfiar goela abaixo.

Vicente Moschetti

fotos dos shows do RJ: Site oficial do TimFestival 2005
foto do Strokes em Porto Alegre: Portal Terra