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Review: Purple

avaliação:

Essa banda é meio estranha para mim. No auge do grunge, quando o STP apareceu para o mundo, tachado de imitação barata do Pearl Jam (cargo que depois foi ocupado de forma sedenta pelo Creed), eu não pude resistir à apelação que era "Sex Type Thing" e "Plush". Embora a última não causasse tanto rebuliço assim em minha pessoa, o primeiro álbum deles tinha lugar certo em meu CD player.

Aquele debut calcou-se nas distorções e nas paredes sujas de guitarras, conversando com o ouvinte através de uma linguagem pesada porém facilmente assimilável, o que de certa forma foi um prato cheio para os detratores desse primeiro trabalho. Considerando ou não um oportunismo, o álbum tinha produção do ex-mago Brendan O' Brien (por onde anda esse cara?) e ajudou a convencer às massas que o peso era algo digerível se oferecido em doses populares e bem produzidas (algo que acontecia seguidamente na época). Os dois anos que sucederam o muito bem-repercutido álbum de estréia resumiram-se em turnês e enfrentamentos com a imprensa, sempre tachando o quarteto de cópia de grunge.

"Purple" nasceu então como uma tentativa de provar que o STP tinha acima de tudo personalidade, que aquilo que foi apresentado em 1992 era genuíno e que por motivos circunstanciais o resultado misturou-se com o que a cena mundial vinha produzindo. O novo álbum apresentava algumas composições menos certeiras, mas que poderiam ser facilmente executadas nas FMs sem que isso significasse a reutilização de recursos manjados tão contestados anteriormente. Para tanto, a adoção de propostas acústicas e desencanadas trouxeram a "Purple" uma faceta interessante do Stone Temple Pilots, que aliadas a uma pequena elaboração no som deram um grande passo rumo à credibilidade.

"Meat Plow" não deixa margem para grande interpretações - faz aquilo que fora feito no disco anterior, como quem tem medo de afugentar os fãs sedentos pelo "som de Seattle". Ainda assim, o refrão They got this picture of everything é cantado em tom fantasmagórico, para depois ser quebrado por um ritmo inverso, uma elaboração mínima que dá idéia de que tinham um algo mais dessa vez. "Vasoline" foi o primeiro single e curiosamente não remetia à tosqueira de "Sex Type Thing" nem ao baladão "Plush". Tem riff mais inteligente e apela a um pop interessante. A banda começa a mostrar que desenvolvendo um pouco mais seu som era capaz de refinar sua sonoridade e talvez demonstrar mais maturidade. "Interstate Love Song" é o grande passo do álbum, na minha opinião, a melhor música que os caras já fizeram. Início com vertente country, a música entra em uma doce melancolia, com melodias muito bem elaboradas e uma condução vocal majestosa de Scott Weiland, contrastando com o alto volumes daquelas guitarras. O refrão da faixa é o que se pode esperar de uma música pop, o que me fez reavaliar o potencial dos rapazes dali para diante. "Still Remains" é uma balada pesada ou um peso melancólico, com outro refrão marcante e inusitado. E como não poderia deixar de ser, "Silvergun Superman" e "Unglued" trazem um pouco do que foi o Stone Temple Pilots anterior, uma pancadaria gratuita para agradar a meninada (esse esquema de encher o CD com coisas dispensáveis, sabe como é). Para a decepção das FMs, o que deviam ser baladas fáceis ("Creep", do álbum anterior) aparecem agora como música mezzo country: "Big Empty" e "Pretty Penny" evitam o baladão óbvio e pintam o disco com cores diferentes. O encerramento fica a cargo de "Kitchenware & Candybars", faixa alvo de um processo por plágio de um cantor de rua de Seattle. A canção traz um tom de brincadeira, ao flertar com música de crooner para karaokês ou cabarés.

Se "Purple" não serviu para destacar o conjunto como uma das grandes bandas do início da década, ao menos conseguiu aliviar o peso de ser taxada como sub-produto. A notável evolução melódica que o álbum ofereceu foi suficiente para impor um certo respeito, deixando a porta aberta para que "Tiny Music", de 1996, fosse bem mais audacioso para conferir a eles o respeito que mereciam. A partir dali a banda iniciaria um flerte com o rock visceral do anos 60 ("Tiny Music"), para dali adiante mesclar a tendência com o peso sonoro dos 90 ("No. 4"). Embora sem deixar um legado referencial, a banda venceu os preconceitos e ainda hoje atrai a atenção quando o vocalista brinca com drogas ou faz incursões em outros grupos.

 

Vicente Moschetti
publicado originalmente no blog Baby Let's Rock