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Underground nunca mais!
É típico: muitas pessoas
sempre vêm sistematicamente repetindo a máxima de Charles
DeGaulle que o Brasil não é um país sério,
utilizando essa idéia para afirmar as mais diversas inverdades
e meias-verdades sobre toda e qualquer faceta de nossa pátria,
típicas de quem prefere apenas reclamar e não vê
o que está acontecendo à sua volta, ou melhor, prefere
ficar apenas nas palavras, sem demonstrar um mínimo poder
de reação. Uma delas, onipresente em cadernos musicais
e conversas de bar, é a de que o rock brasileiro está
morto. Ou que, na verdade, nunca existiu. Dizer isso é um
terrível engano: o que está errado no Brasil não
é a qualidade da música, e sim o modo com o qual ela
é distribuída.
Não vamos entrar naquela discussão
da qualidade da música corporativa, e da necessidade da extinção
desta para que outros artistas tenham oportunidades de levar adiante
seus projetos. É fato: enquanto houver um show business,
haverá a arte corporativa. A questão maior é
a existência do meio termo entre o independente e o mega-sucesso.
Isso é o que falta no Brasil. Das duas uma; ou você
faz algo palatável para as massas, sem nenhuma tentativa
de crescer como artista, ou você continua tocando para os
mesmos conhecidos em um bar pequeno de sua cidade. É claro,
isso não vale para todo estilo de música produzido
por aqui. As gravadoras e as rádios respeitam e divulgam
artistas de alguns estilos com público bem específico,
como os sambistas de raiz, os MPBistas, neotropicalistas, etc, mas
note que, geralmente, elas exigem de forma subliminar algo "representativo
à cultura brasileira" para bancar um projeto de público
limitado.
Aqui tocamos em um ponto bem obscuro
dessas relações complexas entre arte, público,
crítica, etc. O que é representativo à cultura
brasileira? Vamos aos fatos: eu moro em um apartamento, no centro
de uma cidade fria - Curitiba, a linda -, não gosto de ir
à praia, não sei dançar, estou sempre ouvindo
bandas com guitarras elétricas, bateria comendo solta e um
sujeito cabeludo berrando como um porco em um abatedouro e tenho
diversos amigos que se enquadram tranqüilamente em quase todos
esses quesitos. Mas isso me torna menos brasileiro do que aquele
cara que está mandando ver no cavaquinho em uma roda de samba
qualquer, ou do retirante indo procurar emprego em São Paulo?
Não, somos do mesmo país, e isso é prova de
que acreditar em uma cultura nacional unânime e uniforme é
uma besteira quase tão grande quanto acreditar na morte do
rock brasileiro ou que Elvis ainda vive. Logo, em uma sociedade
brasileira "globalizada", "cosmopolita" e "urbana",
o rock é uma parte de nossa cultura tão importante
quanto o forró ou o boi-bumbá.
Aqui reside o grande problema da
música alternativa brasileira. Não existe espaço
para ela no mercado. Em todos os lugares onde há um show
business bem organizado, há também uma certa democracia
de estilos e gêneros. Obviamente, há a música
corporativa, tão pobre, mal-feita e relaxada quanto sua versão
brasileira - Kelly Key, Bonde do Tigrão, Snoopy Dog e Britney
Spears são equivalentes. Mas há, também, um
espaço intermediário, com uma boa estrutura para shows,
uma boa divulgação das músicas, um bom mercado
de discos, mas preservando a qualidade do artista sempre. Às
vezes são pequenas subsidiárias das majors, outras
são selos independentes, mas a questão é que
sempre há verba para bancar projetos que não visam
somente o lucro, e isso vai do jazz ao post-rock, passando até
mesmo pela música brasileira - sim, Bebel Gilberto fez um
sucesso absurdo na gringolândia!
O resultado da inexistência
desse meio-termo, como já foi dito, é a causa maior
da suposta pobreza do rock nacional. Poderíamos elaborar
uma lista infinita de bandas excelentes, que poderiam ter uma carreira
profissional perene e bem sucedida, mas que não foram para
frente porque não tinham como conciliar o ganha-pão
e a arte. Outras não chegaram a acabar, mas perderam membros
importantes, ou só fazem shows esporádicos, ou não
conseguem fazer com que seu disco atinja a sonoridade desejada.
Resumindo, não conseguem levar a cabo um conjunto de idéias
que, na terra da rainha ou nos Estados Unidos, poderia ser muito
bem sucedido.
Mas isso não quer dizer, de
maneira alguma, que estamos em um labirinto sem saída, e
que não há nenhuma chance de fazer um rock de qualidade
sem ter medo de morrer de fome. Apesar de tudo, as coisas parecem
mudar um pouco para nós que temos uma banda que foge ao óbvio
e ao sucesso fácil. Por diversas vias, um meio termo entre
o folclórico e o comercial começa a se abrir na cena
musical popular brasileira, tanto dentro das grandes gravadoras
quanto por intermédio de selos de pequeno e médio
porte.
Há três anos, uma banda
carioca, o Los Hermanos, resolveu fugir de sua pecha de one-hit-wonders
e cometeu um grande disco, Bloco do Eu Sozinho. Eles estavam dentro
do esquemão, já tinham seu sucesso nacional e poderiam
simplesmente aproveitar essa boa onda para ganhar um dinheiro fácil
e comprar um lote na Ilha de Caras. Mas, ao invés disso,
preferiram gravar um disco complexo e maduro, utilizando toda a
possibilidade de distribuição de uma grande gravadora
nacional - a Abril - para mostrar ao público a sua noção
de música, e não a noção de música
que os outros estão acostumados. Não poderia ter dado
mais certo; claro, eles não venderam tantos discos e também
não criaram mais um mega-hit de proporções
bíblicas tocado à exaustão, mas conseguiram
um público grande o suficiente para mantê-los no topo,
que realmente gosta de suas composições e que irá
com certeza sustentar uma carreira longa e perene, sem a necessidade
de um hit cretino ou um bonitão para aparecer no cartaz.
Não é isso exatamente
o que uma banda independente quer? A possibilidade de viver de sua
própria música, com um público cativo e interessado?
O sucesso do Los Hermanos pode no momento ser um caso isolado hoje,
mas quem sabe ele não abra os olhos das grandes gravadoras?
Investir em uma carreira pode ser bem mais lucrativo do que investir
em canções medíocres com sucesso incerto. Só
o tempo vai dizer a verdadeira importância dos barbudos na
história da música pop brasileira, mas espero que
eles sejam vistos daqui a alguns anos como os precursores de toda
uma geração de músicos talentosos bem-sucedidos
e bem divulgados.
Outro caso interessante a ser visto
é a existência e a proliferação de selos
independentes pelo Brasil afora, como a Monstro Discos e a Midsummer
Madness. Aos poucos, eles vão se tornando a casa de bandas
que, mesmo sem sair do esquema independente, conseguem fazer shows
disputados por todo o Brasil. Ainda não atingiram o patamar
que deve ser alcançado - algo como uma Sub Pop, uma Chemikal
Underground, uma Jeepster -, mas podemos ver o esforço do
pessoal desses selos para torná-los cada dia maiores e mais
bem conhecidos, e fazer com que seus discos tenham uma qualidade
cada vez maior, refletindo cada vez mais a idéia do artista.
O público ainda é muito limitado, mas ele vai começar
a aumentar à medida que a divulgação boca-a-boca
for atingindo mais e mais gente interessada. Claro, se houvesse
aquelas "college radios" abaixo do Equador, as coisas
se tornariam bem mais fáceis, mas temos que nos ater aos
meios que já possuímos - a boca, por exemplo.
Não posso afirmar isso com
convicção, até porque muitas vezes certas previsões
são apenas frutos de nossas utopias, mas nós estamos
presenciando o real nascimento do rock alternativo brasileiro. São
festivais nascendo e crescendo, bandas novas abrindo espaço
no mercado para um som elaborado e diferente, gravadoras abrindo
espaço - mesmo que seja por engano - para novas propostas
e pequenos selos começando a sair da puberdade. Mas e a nós,
amantes da música, o que fazer? Comprar os discos, ir aos
shows, comentar com os amigos sobre aquela banda que você
viu na semana passada, encher o saco da rádio de sua cidade
pedindo a nova do Psicotrópicos Deluxe* e, claro, pegar uma
guitarra e tentar escrever uma puta canção. Esse é
o canal: grandes músicas. A partir do momento em que o público
tomar consciência das milhões de possibilidades que
o rock - e o jazz, o blues, a MPB - nos trazem, basta estar no lugar
certo com a música certa que tudo vai fluir naturalmente.
*Psicotrópicos Deluxe é uma banda
de surf music instrumental de São José dos Pinhais,
periferia de Curitiba. É apenas um exemplo de banda independente
que eu acredito que todos deveriam ouvir, mas pode ser substituída
por outra de sua preferência.
Francisco Marés, curitibano pentelho de 17
anos, ex-proprietário do blog Pangloss,
toca baixo em uma banda sem nome e acha Sigur Rós lindo.
08/07/2004
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