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Morte
Aos Neanderthais
1967. Auge da psicodelia, da loucura
e da música pop ou apenas um gol de placa aos 5 do primeiro
tempo? Sinceramente, eu quero acreditar – e, na realidade,
acredito – na segunda hipótese. Como podemos chamar
de decadência 37 anos – ou, se esse texto tiver uma
data de validade bem longa… faça as contas! –
nos quais nasceram – e eventualmente morreram – os Pixies,
Smashing Pumpkins, Neutral Milk Hotel, The Clash, Teenage Fanclub,
REM, entre tantos outros? Sim, 1967 foi apenas aquele golaço
de bicicleta que abriu o placar nesse jogão de bola que é
a música pop.
Poderia fazer uma lista de dezenas
de discos lançados nesse ano, mas prefiro me ater a um só:
Forever Changes, de uma banda – terrivelmente, para nós
amantes do SoulSeek – chamada Love. Não é o
meu favorito – temos Zombies, Beatles, Velvet Underground
com Nico, Nico sem Velvet Underground –, nem mesmo o mais
representativo, mas é a minha mais recente descoberta/aquisição
– junto com um do Nick Drake e outro do Jeff Buckley, todos
em promoção em uma lojinha no centro de Dublin. O
que me encantou nessa pequena obra de arte foi sua sofisticação;
o rock ainda buscava uma identidade própria, e misturá-lo
com doses pesadas de influências externas ainda era algo relativamente
raro, apesar do início do desenvolvimento dessa linha de
trabalho pelos Beatles, pelos Beach Boys, etc. Mesmo assim, Arthur
Lee e seus comparsas foram fundo em sua viagem; a primeira faixa,
“Alone Again Or”, é algo próximo de uma
dança flamenca, a deliciosa “Maybe The People Will
Be The Times Or Between Clark and Hilldale” leva o público
a algum lugar na Cote d’Azur – apesar de ser uma homenagem
a Los Angeles –, a estranha “A House Is Not A Motel”
mostrou ao mundo o que é um puto solo de guitarra, e por
aí vai. Esses pequenos atos de rebeldia contra a obviedade
da música pop expandiram os limites do rock de uma forma
jamais vista.
Assim como Forever Changes, todas
as grandes obras desse ano apontam para a mesma direção.
Foi uma verdadeira revolução, não apenas na
música, que tirou o cabaço da juventude ocidental,
abrindo seu leque de possibilidades artísticas, filosóficas,
teológicas e sexuais de uma forma jamais antes vista. A arte
finalmente pode ser simples o suficiente para ser popular e complexa
o suficiente para encantar seu público. Em certos pontos,
foi rompida a barreira entre o juvenil e adulto, o pop e o erudito,
etc.
2004. 37 anos se passaram desde que
o Love e tantos outros fizeram parte da grande revolução
cultural de nossos tempos – levando em conta que a revolução
de Mao Tse Tung não nos afetou profundamente. O pensamento
ocidental mudou e evoluiu – para o bem ou para o mal –
a partir das idéias pregadas no final dos anos 60, e a música
não foi um caso à parte. O simples conceito de música
pop como arte vem dessa época. A lisergia do Love foi revista
por gente como os Flaming Lips, Velvet Underground é o pai
desnaturado de todas as bandas que sabem que o barulho pode ser
lindo e, bom, a influência do Sgt. Peppers não requer
comentários mais incisivos. Os – bons – artistas
desse período, porém, nunca se contentaram em repetir
sistematicamente o que foi feito no passado; eles usaram seus elementos
apenas como base para desenvolver sons que refletem sua própria
visão do mundo, e a capacidade de usar uma simples influência
como base para milhares de idéias totalmente divergentes
é o que fez o rock ser um gênero tão rico e
variado.
Mas não é isso o que
tenho visto atualmente. Em algum momento não muito glamoroso
da minha vida – provavelmente estava semimorto em um computador,
bebendo café requentado e me perguntando se não havia
algo mais produtivo a fazer – um grande amigo meu me disse
“cara, baixe alguma coisa do Jet, essa banda é do cacete!
Are You Gonna Be My Girl é a melhor música de todos
os tempos”. Ele não era o primeiro a me dizer isso;
já havia lido algo sobre a banda em diversos lugares, sabia
que se tratava do novo hype do momento – seja isso algo bom
ou ruim –, sabia que era algo retrô e, sinceramente,
não esperava muita coisa. Mas esperava algo que fosse bacana
para se ouvir ao checar meus e-mails, consultar minhas comunidades
no Orkut ou ler algo não mais profundo do que Harry Potter.
Mas o que ouvi, de certa forma, me
chocou. Era algo tão primitivo e simplório quanto
um livro de filosofia escrito pelo Alexandre Frota – depois
de escrever uma autobiografia e virar ator pornô, não
duvido que isso seja algo provável. Não havia nada
de memorável, nenhuma evolução de acordes,
nenhuma melodia de algum valor, nada. “Rock de raiz”,
alguns dizem, mas para mim isso tem outro nome: estagnação.
O tal do Jet não é nada além de uma repetição
insípida e inodora da simploriedade – e não
da simplicidade – das piores canções dos Beatles
e dos Rolling Stones em seus estágios iniciais – que,
sinceramente, não têm lá muito valor artístico.
Supostamente, esse é o novo
rock, a salvação do rock, ou o que quer que você
goste de chamar esse tipo de lixo. Mas se isso representa o rock
atual, posso afirmar com firmeza que o rock morreu. Por quê?
Simples: qualquer gênero que vanglorie sua própria
estagnação e repetição é um gênero
morto. A beleza de um gênero musical é a sua capacidade
de se reinventar, de se misturar às mais variadas vertentes
sem perder sua essência. A mudança é essencial
para a sobrevivência.
Voltando ao disco do Love, para fazer
uma comparação rasteira: a música de “vanguarda”,
o novo som de 1967 é infinitamente mais refinado, sofisticado,
interessante e, principalmente, evoluído do que seu suposto
equivalente em 2004. E, já que fizemos uma comparação
rasteira, vamos a uma conclusão rasteira: o rock está
em plena decadência. Sim, total decadência.
Felizmente, podemos respirar aliviados:
esse troço aí – Jet, Libertines, aqueles caras
barbudos que eu esqueci o nome, Kings de alguma coisa – pode
ser chamado de qualquer coisa, menos de novo rock. São apenas
bandinhas sem graça tentando emplacar músicas tão
simplórias e fracas que fariam aquela banda de fundo de quintal
do seu vizinho parecer um agrupamento de Lennons e Maccas. O novo
rock pode não estar na capa da NME, ou na coluna do Lúcio
Ribeiro, mas ele é responsável pela sobrevivência
do gênero que nos deu e nos dará tantas alegrias. Gente
como os Decemberists, ou os Delgados, que não tem a mínima
vontade de copiar o que já foi feito no passado e escrevem
grandes canções de acordo com sua própria visão,
e não da maneira que alguém em 1964 escreveria. Colocar
a alma na música é o que mantém um gênero
vivo, e essa é a verdadeira chave para a evolução
do rock. E esse é o espírito de 1967.
Apenas um adendo: não tenho
nada contra canções simples. Na verdade, sou adepto
do “quanto mais simples, melhor”, e fã declarado
de obras como Alien Lanes, do Guided By Voices. Também gosto
de bandas retrôs, como os graciosos Raveonettes e o excelente
Interpol. A diferença é que todos os citados nesse
parágrafo têm o mínimo de senso melódico
e a capacidade de criar grandes canções – ao
contrário dos Kings of sei lá o quê e aquela
música que só tem uma nota e, ainda por cima, das
mais irritantes.
Francisco Marés, 17 anos, curitibano, atualmente
vive em Galway, Irlanda e recentemente adquiriu o hábito
de escrever à mão. Ouve Flaming Lips antes de dormir
e At The Drive-In para acordar.
17/11/2004
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