| “Ten”
completa, nesse próximo mês de agosto, seu 15º
aniversário de lançamento. Muito já foi
escrito sobre este primeiro disco do Pearl Jam, um sucesso
estrondoso que deve ter ecoado até às imediações
de Júpiter. Gosto bastante do álbum; ainda que
não seja meu preferido do hoje veterano quinteto de
Seattle, é um disco especial por outros motivos. Para
homenagear nossos álbuns prediletos nesta seção
Memória, a idéia não é simplesmente
descrevê-los sob a perspectiva da opinião pessoal,
em termos qualitativos – para este fim já contamos
com a seção de resenhas
– mas relatar alguma impressão de caráter
mais aleatório, alguma lembrança associada às
primeiras audições, enfim, coisas nostálgicas
em geral, que valham a pena recapitular por ocasião
de seus aniversários. “Ten”, para mim,
é um disco envolto em uma densa camada de nostalgia
e boas lembranças.
Corriam os primeiros anos da
mítica década de 90. A música se soldou
à minha vida nessa época (pois é, existem
aqueles cuja existência transcorre sem música),
onde conviviam bem em meu cardápio musical pré-adolescente
diversas bandas bastante diferentes, de Clash a A-ha, de Metallica
a Dire Straits, de Sonic Youth a Information Society, de REM
a Guns n’ Roses, de Led Zeppelin a Men at Work. Naturalmente,
um gosto ainda em ebulitiva formação. Era a
época das saudosas fitinhas cassetes, montadas a partir
da programação das FMs (Near Wild Heaven foi
gravada depois que eu e um amigo ligamos para a Transamérica
pedindo por ela, e tivemos que cantarolar pro cara da rádio,
pois não sabíamos o nome da música),
dos vinis do vizinho mais velho que só ficava falando
de Nirvana e Alice in Chains e que nos chamava toda vez que
adquiria algum vinil novo, e dos recém lançados
CDs, que logo começaram a ocupar uma prateleirazinha
na locadora de filmes preferida do bairro.
Não sei precisar em
que ano, se em 1991 ou 1992, caiu em nossas mãos uma
fitinha 60 minutos que no lado B tinha parte do “Staring
at the Sea” do Cure e no lado A uma banda desconhecida.
A origem dela não tenho como registrar aqui –
é uma recordação que não existe
há muito tempo, lamentavelmente. Era uma fitinha Sony
EF-X, um modelo mais antigo, de um cinza acrílico bem
escuro (os modelos seguintes foram clareando cada vez mais).
Não trazia nenhum nome de música nem de álbum,
sabíamos apenas que ali tinha parte da coletânea
do Cure e mais uma outra banda de nome curioso. Fizemos as
cópias, recortamos umas tradicionais capinhas de surf
a partir de edições velhas de Fluir e colocamos
as fitas, objetos tão provisórios, em nossos
portas-fitas – e naquele momento, as músicas,
imortais, incorporaram-se em nossas vidas.
Para ser mais exato, a gravação
do Cure, iniciando com Killing An Arab, começava ainda
no lado A, quando a quinta música do tal Pearl Jam
terminava. Lembro perfeitamente ainda hoje do finalzinho em
fade-out de Release emendando no inesquecível barulhinho
de “stop/rec” e a formidável introdução
de Killing An Arab. O interesse maior inicialmente era o Cure,
banda que eu já gostava muito, mas só possuia
músicas dispersas gravadas nas coletâneas de
rádio, Boys Don’t Cry, Friday I’m In Love,
entre outras. Mas, aos poucos, muito foram me chamando a atenção
as cinco carrancudas músicas do Pearl Jam, e acho que
rapidamente o lado A da fita se tornou o mais rodado.
Ver uma foto da banda foi acontecer
somente algum tempo depois quando uma Fluir, que trazia em
suas páginas finais uma seção sobre música
(eu comprava muito pouco a Bizz, particularmente menos ainda
nessa época), trouxe uma pequena notinha sobre o Pearl
Jam e seu primeiro trabalho, “Ten”. De quebra
ficamos sabendo o nome do disco. Conhecemos o disco completo
logo na sequência, quando a locadora que tinha os CDs
de música para locação adquiriu-o. Só
então ficamos sabendo que as músicas da fitinha
se chamavam Once, Even Flow, Alive, Black e Release, até
hoje minhas preferidas. Nas primeiras audições
do CD completo, gostei de todas as outras, menos Why Go e
Jeremy, que, aliás, não gosto ainda hoje. De
qualquer modo, “Ten” para mim é Once, Even
Flow, Alive, Black e Release; o resto são faixas extras.
Contextualizando, já
que alguém pode estar achando esquisita essa dificuldade
toda: internet, só em 1997; MTV ninguém lá
do prédio foi ter antes de, sei lá, 1995 ou
1996; comprar um CD ou um vinil era um evento raro, devido
as escassez combinadas de boas lojas, idade e dinheiro. Acho
que naquela época, depois de adquirido o primeiro CD-Player,
as primeiras economias de mesada foram destinadas à
trilha sonora do “Young Guns” (sim, Jon Bon Jovi)
e ao “Scream in Blue” do Midnight Oil.
Mas, aos poucos, as coisas
foram ficando mais acessíveis. E em algum momento,
a fitinha se perdeu, foi reutilizada, sei lá. Olhando
superficialmente o caixote de fitas guardado no armário
das coisas inúteis-mas-não-descartáveis,
vejo que pouquíssimas daquele modelo antigo de EF-X
sobreviveram; no meio de 400, se houverem cinco, é
muito. Portanto, é pequena a probabilidade de que alguma
destas tenha, por baixo de suas várias gerações
de labels colados, um parzinho de labels escrito “Pearl
Jam” e “The Cure”. Vai saber.
E a vida seguiu. O primeiro
CD do Pearl Jam que comprei foi o “Vitalogy”,
em 1994. É o meu Pearl Jam favorito. Acho que logo
depois comprei o “Ten”, para descartar finalmente
a fita gravada a partir do CD da locadora. Antes disso, provavelmente
em 1993, comprei uma fitinha cassete original do “Vs”
– de todas as coisas que já tive em minha vida
e hoje não tenho mais, se pudesse escolher uma única
para ter de volta, seria essa fitinha. “Vs” seria,
se fosse continuar o ranking dos preferidos, o segundo colocado.
Na terceira colocação, “No Code”
teria leve vantagem sobre “Yield” e “Ten”.
Agora, se o mote do ranking fosse o de discos com melhores
lembranças afetivas, independente de bandas e época,
“Ten” certamente figuraria ali nas primeiras colocações.
Aos seus 15 anos de vida, praticamente todos passados em convivência
íntima com 15 da minha (e muito provavelmente das suas
também), minhas mais sinceras felicitações.
Fabricio Boppré
julho/2006
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