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Allan Jones
Traduzido por A. D. Molin
Fotos: GULLICK, Steve. Pop Book number one: photographien
1988-1995. Munique/Paris/Londres: Schirmer/Mosel, 1996.
"Sabe", diz Eddie,
com voz trêmula, sussurando, quase um suspiro, "eu
sempre achei que iria acontecer primeiro comigo."
Nenhum de nós diz nada por um bom tempo depois disso.
O silêncio é tamanho que eu posso ouvir as batidas
do meu coração, um pulso insignificante. Eddie
olha para o chão, procurando segredos na pedra. O silêncio
é enervante. "Eu não sei por que eu achava
isso," ele diz, finalmente. "Só parecia que
ia. Quer dizer, eu não conhecia ele de rotina - longe
disso. Mas, de certa forma, eu nem sinto estar certo estar
aqui sem ele. É tão difícil acreditar
de verdade que ele se foi. Eu ainda falo dele como se ele
estivesse aqui ainda, sabe. Eu não consigo entender.
Não faz sentido."
"Eu me lembro quando ele
passou mal em Roma - eu não percebi naquela época
que era mesmo uma tentativa de suicídio - eu estava
em Seattle. Eu saí pra arranjar alguma coisa pra comer
e olhei as manchetes. Que ele estava em coma. Eu me assustei,
cara. Eu fui pra casa e fiz algumas ligações,
tentei descobrir que porra estava acontecendo. Aí eu
comecei a andar pela casa e a chorar. "Eu só ficava
dizendo, 'Não se vá, cara, porra, não
se vá... não faça isso.' Eu ficava pensando,
'Se ele se for, eu estou fodido.'"
Onde você estava quando
soube que ele tinha se matado? "Estava num quarto de
hotel em Washington, D.C. Um quarto de hotel que eu detonei."
Sua voz se extingue de novo, num silêncio assombrado,
problemático. Ficamos dessa forma, sentados, por um
momento; o tempo passando, nenhum de nós se apressando
para dizer alguma coisa.
Está quente aqui. Estou
muito cansado e começando a perder um pouco a atenção
quando o Eddie manda uma cadeira girando pelo camarim na direção
da parede, que ela acerta com um "crash" putamente
poderoso que me traz de volta à realidade.
"Foda-se, toda essa porra",
ele sibila com uma veemência terrível, e eu não
sei pra onde ele vai agora. "Você sabe, todo esse
povo, cara", ele diz, "todos se alinhando pra dizer
que a morte dele era inevitável... bom, se era inevitável
para ele, vai ser inevitável pra mim também,
também, se isso continuar."
"É por isso que
este podia ser a porra do nosso último show, pra mim.
A morte do Kurt mudou tudo. Eu não sei se eu posso
continuar fazendo isso.
"Viu, pessoas que nem
ele e eu, a gente não pode ser real. É uma contradição.
A gente não pode ser essas pessoas que escrevem essas
músicas reais. A gente tem que viver de acordo com
as expectativas de um milhão de pessoas. E a gente
não pode fazer isso. E aí tem uma porra duma
mídia cínica no topo de tudo isso. Foda-se,
fodam-se eles. O tempo todo, eles questionam a tua honestidade.
Não importa o que você diga, não importa
o que você faça, eles acham que é só
um ângulo. Eles acham que é tudo uma porra dum
jogo. Porque é tudo com que eles estão acostumados.
É o que eles pensam que é, um jogo idiota. Eles
não sabem o que é real e o que não é.
E quando alguém vem tentando ser real, eles não
sabem a porra da diferença.
"Então, se você
diz "Não, eu não vou jogar a merda do teu
jogo, eu quero sair fora... eu não vou fazer isso,
eu não vou fazer aquilo..., eles ainda pensam que você
é parte dele. Eles simplesmente não podem aceitar
que você não quer ser parte disso, que você
nunca fez parte disso. Eles acham que é só um
ângulo. Algum tipo de ângulo de merda. E isso
faz tudo ficar tão difícil pra alguém
que só está tentando ser honesto. Então,
foda-se."
Eddie pára para respirar,
e você pode sentir seu cansaço e alguma coisa
perto da histeria vindo dele em ondas. Você está
começando mesmo a se perguntar se ele já tinha
falado tudo o que conseguia, quando ele arranja um segundo
fôlego.
"E
outra coisa," ele grita de repente, e eu recuo. "A
gente nunca falou sobre isso, mas é como se você
estivesse dizendo que apesar da gente ser muito diferente,
existia provavelmente um monte de coisas que tínhamos
em comum. Histórias familiares, é, coisas que
aconteceram com nossas faílias e essa merda... e acho
que isso é alguma coisa que aparece no que a gente
escreve nas músicas, definitivamente. É meio
parecido, às vezes. Mas o que faz tudo ainda mais similar
é a forma como as pessoas responderam ao que a gente
escreveu e cantou, a identificação intensa."
"E eu acho que talvez
tenha sido um choque para nós dois que tanta gente
estivesse passando pelas mesmas coisas. Quer dizer, eles entendiam
tão completamente o que a gente estava falando. E isso
foi a merda que a gente achava que só ele e eu íamos
ter que lidar só com isso. Porque a gente meio que
escrevia essas canções para nós mesmos,
na verdade. E de repente, todas essas outras pessoas que se
conectam com elas e você de repente é o porta-voz
de uma porra duma geração. Imagina isso!",
ele grita.
"O...porta-voz...de uma...geração,"
ele continua, e você já não tem mais certeza
se ele acha que isso é triste, terrível ou engraçado
demais para descrever. "Eu te digo, cara," ele diz,
mais calmo agora, mas só, "quando o nosso primeiro
disco saiu, eu estava chocado sobre quantas pessoas se espelharam
em alguma coisa daquilo. Algo como 'Alive', tantas pessoas
que lidaram com a morte através daquela música.
Como as pessoas que lidaram com a morte do amor através
de 'Black' e tantas pessoas que lidaram com o suicídio
com 'Jeremy'. O tipo de cartas que chegaram até mim
sobre essas músicas, algumas delas eram assustadoras.
"É tão estranho.
Você escreve sobre essa merda, e de repente é
o porta-voz de uma porra de geração," ele
ri, e é uma risada amarga, assutadora, nada de engraçado
nisso tudo. "Pensa nisso, cara," ele diz. "Alguma
geração que pegaria Kurt ou eu como porta-voz
- deve ser uma geração bem fodida, né?
Quer dizer, essa geração deve estar muito fodida,
cara, muito, muito fodida...."
Estamos no backstage no Paramount
Theatre, sentando num camarim pequeno em algum lugar na vasta
feiúra do complexo de esportes e entretenimento do
Madison Square garden. Em algumas horas, o Pearl Jam vai estar
tocando no seu último show da parte atual de sua turnê
americana. Nove dias antes, Kurt Cobain tinha sido encontrado
em Seattle com sua cabeça estourada.
"Eu não sei como
a gente conseguiu passar a semana passada," Eddie diz,
arrastando a cadeira de metal por esta cela de paredes brancas.
Poderíamos ser pacientes em alguma instituição,
esperando algum tratamento desagradável. "Foi
difícil pra caralho, cara," ele diz, fatigado.
"Tão difícil. Por vários motivos,
eu não queria continuar essa turnê, e a morte
do Kurt foi um. Mas a gente decidiu se refazer, passar por
aquela semana e esquecer isso por um tempo."
A voz dele ainda está
cheia de pó e cascalho, usada, quase sumindo. É
um gemido de quatro-da-manhã-cheio-de-uísque-e-cigarro.
E ouvindo ele, você pode sentir seu humor pendendo entre
o cansaço e a violência. Ele parece, num só
momento, cansado além das palavras e pronto para algum
tipo de ação, uma declaração física
que desconte o seu pesar e desnorteamento dos eventos dos
últimos dias e o impacto que eles tiveram no seu precário
senso de si próprio; ele ainda não desistiu
da briga.
E ver os humores de Eddie se
erguerem e cambalearem, da instropecção dolorosa
a explosões de ódio pálido e impaciente,
é como assistir a um trovão se dividir nos céus
de verão. Num minuto, ele está falando num suspiro
tênue, no seguinte ele está gritando, xingando.
Num minuto ele está enfiado na sua cadeira, pequeno,
virado para si mesmo, cada vez mais remoto; no seguinte, seu
fisível explodiu e as coisas estão voando pelo
camarim. Descrever seu humor como "volátil"
seria pouco.
Você estava esperando
algo parecido, lógico. Quase na hora em que você
começou a pegar as notícias sobre o suicídio
do Kurt Cobain, você começou a pensar no Eddie
e como ele deveria estar lidando com isso. Eles deveriam ser
inimigos, arqui-rivais; este era o drama que se encaixaria,
as duas maiores estrelas no rock americano num conflito inconciliável.
Mas você havia encontrado Eddie há um ano atrás
em Londres e acreditado genuinamente que ele estava além
de tais bobagens, apesar dele não poder falar por Kurt,
que poderia muito bem ter a intenção mesmo de
cada palavra rude e azeda que disse sobre o Pearl Jam. Kurt,
você achava, poderia ser bem rancoroso.
"Teve um monte de coisa
que foi dita, mas nenhuma delas faz diferença,"
diz Eddie agora, pensando sobre isso. "E eu gosto de
pensar que ele pode ter relevado algumas das coisas que ele
disse, sabe... Quer dizer, tem uma pessoa que nós dois
conhecíamos, que me contou que Kurt havia perguntado
muito sobre mim. E eu achei isso legal. Me fez me sentir bem,
sabe. Porque tanta merda estava sendo escrita sobre a gente.
E a gente conversava, a gente conversou algumas vezes. E uma
vez, ele me jogou um parágrafo inteiro sobre o respeito
que tinha pelo que eu fazia, e ele percebia que era puro."
"Isso," ele lembra
de repente, "foi no MTV Awards. 'Tears of Heaven' estava
tocando no fundo, dança lenta. Eu lembro de ter saído
para surfar na manhã seguinte e pensar como aquele
momento foi legal, e 'Porra, cara, se a gente não tivesse
tido tanto medo um do outro...' Porque a gente estava passando
por tanta da mesma merda. Se a gente pelo menos tivesse conversado,
talvez a gente pudesse ter ajudado um ao outro."
Em dezembro passado, MM de
fato tentou colocar Eddie e Kurt lado a lado. Tínhamos
uma senhora capa de Natal em mente. Começou como uma
extravagância. Imagine a nossa surpresa, então,
quando as pessoas estavam falando que apesar de qualquer animosidade
previamente anunciada, primeiro o Eddie e depois Kurt concordaram,
só para terem mais um desentendimento sobre uma história
da capa da Time que agora parece trivial demais para ser mencionada
em maiores detalhes.
Na época, Pearl Jam
e Nirvana estavam escalados para tocar num espetáculo
da MTV, a ser filmado no Pier 48 em Seattle para audiência
internacional no Ano Novo. The Breeders e Cypress Hill estavam
também na lista e era pra ser uma reconciliação
pública entre Pearl Jam e Nirvana, depois de seu desentendimento
de longa data.
Um dia antes do concerto, Pearl
Jam anunciou que estava fora. A razão oficial era de
que a voz de Eddie estava mal, que ele estava esgotado. Conversando
no backstage com o fotógrafo da MM, Steve Gullick,
Stone Gossard, que tinha aparecido no Pier 48 para uma jam
com o Cypress Hill, descreveu Eddie como estando "muito
mal".
Houve algumas pessoas, inevitavelmente,
que duvidaram disso. "Eu estava doente mesmo, cara",
Eddie diz agora. "E essa é a verdade. A gente
tinha acabado uma turnê, e depois fizemos mais três
shows em Seattle e eu mal conseguia me agüentar lá.
As pressões eram intensas. Eles tinham gente alinhada
em cadeiras de rodas para eu ver e todo tipo de merda. E isso
suga tanto de você, esse tipo de coisa, que não
sobra nada."
"Mas eu passei por isso,
e então você sabe como é. Você sai
em turnê e quando chega em casa, baixa todas as suas
defesas. É como abaixar sua guarda no boxe faltando
30 segundos pra acabar o round e ser acertado quando você
menos espera. E eu tomei uma na cara, muito foda. E daí
eles estavam ligando, 'E aí, você pode estar
melhor na terça? Pode fazer isso? Pode fazer aquilo?
E aquele show?' E eu estava me sentindo uma merda e eu ia
soar uma merda e a gente sabia que um monte de gente ia ver
se a gente fosse tocar, e ia soar muito mal, ia ser uma merda.
Então eu só disse 'não' e isso virou
uma coisa enorme."
Um monte de gente pensou que
você tinha saído fora porque não queria
aparecer com o Nirvana, que sua não aparição
foi um grande 'vão se foder', que era simplesmente
petulância.
"E essa foi a pior parte
de tudo," Eddie diz, exasperado. "Estar sentado
em casa doente pra caralho e suando e tremendo e vendo as
horas passarem antes que isso fosse acontecer e pensar 'Eu
estou fodido, cara, muito fodido', e daí ver isso ficar
ainda pior porque tinha todos aqueles rumores sobre onde eu
estava e porque eu não fui lá. E as pessoas
estavam dizendo que a gente saiu fora porque queria o show
principal, senão a gente não ia aparecer. Mas
foda-se, não teve problema nenhum. A gente teria entrado
na abertura, por segundo ou por terceiro, em qualquer porra
de hora, sabe. Não tinha problema nenhum com a ordem.
E eu estava muito feliz em poder tocar com eles. Eu até
pensei em escrever pra eles pra dizer, 'Desculpa, cara, eu
estava mal', mas aí os rumores começaram a ficar
engraçados. Um deles dizia que eu estava surfando no
Havaí. Outro dizia que eu estava entrando e vi todas
as luzes e câmeras, e dizendo 'Orra, foda-se essa merda,
tô fora.' E aquela," ele sorri, "seria provavelmente
o chute mais próximo da realidade. Quer dizer, no final
da nota de rodapé estava que eu estava doente. Mas
mais tarde me pareceu que se a gente fosse mesmo pra fazer
alguma coisa juntos, deveria ser mais importante que um especial
da MTV, sabe."
Tinha uma coisa, falando sobre
a rivalidade entre Pearl Jam e Nirvana e a forma como as pessoas
tomam partidos, que Eddie lembra que realmente o magoavam.
Quando Kurt entrou em coma em Roma, uma revista local de Seattle,
um livreto de um café, tinha um artigo com a manchete:
"POR QUE NÃO PODIA TER SIDO O EDDIE VEDDER?"
Isso era exatamente o que Courtney Love havia dito para a
revista Select, eu digo a Eddie. Ele parece chocado. "Oh,"
ele diz, seu fôlego deprimido. "Que ótimo.
É ótimo mesmo. Isso me faz me sentir bem pra
caralho. Eu me pergunto por que ela não falou sobre
quando eu liguei pra ela noite passada e ofereci qualquer
ajuda que pudesse dar..." Ficamos num de nosso silêncios
regulares. "Eu não conheço mesmo nenhuma
dessas pessoas," ele diz, eventualmente. "Eu não
conheço Courtney, nunca tinha falado com ela antes.
Mas alguém disse que eu devia ligar pra ela e eu achei
que devia. Quer dizer, toda essa merda que surge e todas as
bobagens que voam na imprensa que vêm em itálico
e em negrito pra fazer disso uma coisa maior do que realmente
é, quando já está tudo dito e acabado,
eu sinto alguma coisa por essas pessoas. E aqueles que estão
vivos, eu preciso deixar que eles saibam como eu me sinto."
Em outubro passado, Pearl Jam
lançou "Vs.", o disco seguinte a "Ten",
que na época tinha estado no cartaz da Billboard por
mais de dois anos, tempo durante o qual havia vendido mais
de 5 milhões de cópias só nos EUA. Muitas
pessoas duvidavam que eles poderiam repetir esse tipo de sucesso.
No evento, "Vs."
vendeu, surpreendentemente, 1,2 milhões nos EUA nos
seus 5 primeiros dias após o lançamento, esmagando
as vendas de 777000 alcançadas pelos Guns'n'Roses com
"Use Your Illusion II" na semana de lançamento
em 1991. Na sua primeira semana de lançamento, o "In
Utero" do Nirvana vendeu menos de 200000 cópias.
Isso fez dele o álbum mais rapidamente vendido na América.
Pearl Jam era parte da história
agora, e você se perguntava como Eddie iria reagir ao
fato de que "Vs." iria ser mais provavelmente lembrado
agora não como um bom disco, mas como estatística.
Você esperava de novo que ele iria lidar bem, talvez
até apreciar o sucesso. Isso passou a ser pensamento
desejoso.
Em 19 de novembro, duas semanas
depois do começo da turnê americana do PJ, Eddie
foi preso em Nova Orléans por estar bêbado em
público numa briga de bar. Lá pelas 4 da manhã,
depois do primeiro de 3 shows lotados a Lake Front Arena,
Eddie estava bebendo num bar na Decataur Street no quarteirão
francês com membros da banda companheira Urge Overkill
e Jack McDowall, do Chicago White Sox, time local de baseball
do Urge.
Eddie foi acusado de estar
envolvido em atrito com um residente local, James Gorman.
Depois de uma troca de opiniões franca, Eddie supostamente
deu um tapa na cara de Gorman. Uma briga de socos começou
por todo o bar, o tumulto alcançou a rua. No caos que
se seguiu, disseram que Eddie nocauteou Gorman, enquanto McDowall
foi acertado por um leão-de-chácara do vizinho
Blue Crystal Nightclub. Quando a polícia chegou, prendeu
Eddie. "E eu não tinha feito MERDA NENHUMA!"
Eddie explode quando eu menciono o incidente. "O que
aconteceu", ele diz, "foi que em Nova Orleans, alguém
fez alguma coisa que eu não gostei e eu cuspi na cara
dele. E agora tem um processo de 3 milhões de dólares.
Isso é besteira. Eu fui tipo, eu estava pensando, 'Eu
ia levar essa desse cara se eu fosse alguém?"'
E eu pensei, 'Não, eu não ia.'"
Tentando entender a história
direito, pergunto a Eddie se ele está falando de James
Gorman aqui. "Eu não sei a porra do nome dele,"
Eddie diz de forma seca o suficiente para me fazer desejar
nunca ter perguntado. Então o que aconteceu? "Eu
devo ter falado com duas dúzias de pessoas naquela
noite, naquele bar, e os nomes de 20 deles acabaram no meu
guardanapo, mais um da guest list para o próximo show.
E até onde eu me lembro, eu falei com esse cara por
um tempo."
"Sabe" ele diz de
repente, se interrompendo, "Eu não devia estar
falando nisso porque ainda estou em litígio. Mas foda-se.
Foda-se. Eu não fiz merda nenhuma. Eu estava com o
Blackie e Ed do Urge. Eu falei com esse cara por um tempo
e a gente tentou ir adiante. Mas esse cara, ele não
ia deixar passar. Ele ainda tinha que ter mais. E ele ainda
tinha que cobrir mais uns tópicos. E Blackie diz, 'Olha,
cara, pega leve, que a gente, você sabe...' E esse cara
foi, 'Não, não. Eu ainda tenho que dizer mais
uma coisa, a gente precisa conversar...' E eu finalmente meio
que segurei ele contra a parede," ele diz, a voz se tornando
um suspiro enfático, "Eu...cuspi...na...cara...dele.
Grande bosta. De qualquer forma, daí todo o inferno
começou. Mas eu não dei nenhum soco. Graças
a Deus. Porque - vai saber? - eu podia ter machucado ele mesmo.
Porque daí foi quando eu percebi, sabe, que meu amigo
estava machucado. Ele caiu num pára-choque de um Jipe
na rua ali. Aí tem esse cara, um amigo meu talentoso
e respeitado, caído no chão inconsciente por
causa desse cretino que tá me dizendo 'Você não
é o Messias, você não é meu Messias...'
"E eu fui, 'É o que eu estava tentando te dizer,
cara. É o que eu estava tentando TE DIZER. Eu não
sou a porra do teu Messias.'"
"Essa é a merda
que acontece. Até noite passada, depois que a gente
tocou no 'Saturday Night Live', teve esse incidente, que foi
uma invasão pra mim. Alguma coisa que eu não
podia controlar aconteceu e de repente a gente está
nessa coisa gigante, e eu estou tipo 'Jesus Cristo, depois
de toda a porra que eu faço, caralho, e AINDA tem gente
que não tá satisfeito. Eles querem MAIS.'"
"Você sabe que eu
passei um monte de vezes por isso, e eu não vou dar
mais nada. Tipo, uns dias atrás, tem um gurizinho e
ele quer tirar uma foto comigo e eu não estava no grau.
Eu não estava bem. E ele vai, 'Ah vai, vai, deixa eu
tirar uma foto com você. Eu tenho que tirar minha foto
com você.' E eu vou tipo, desculpe, cara, eu não
posso fazer isso. Eu estou passando por coisas difíceis
esses dias. Tipo, a gente acabou de perder Kurt, três
dias atrás, cara. Eu estou todo fodido."
"E ele simplesmente não
tá ouvindo e dizendo, 'Eu devia te dizer, cara, o Kurt
posou comigo, cara...' E eu só disse, 'É, e
olhe onde ele está agora, olha o que isso fez com ele,
cara.' "Quer dizer, o que esse guri está fazendo,
sabe. Colecionando a porra das nossas cabeças? E você
sabe que esse piá, ele vai fazer a mesma coisa semana
que vem com um Bon Jovi da vida ou alguém mais."
"Você sabe o que
eu preciso agora?" ele pergunta de repente. "Eu
preciso saber o que as pessoas querem de mim. Eu sinto como
se tivessem todas essas contradições sobre o
que as pessoas querem, sabe. E no fim elas querem demais.
Eles querem que você seja um líder. Querem que
você seja uma vítima. Querem a sua alma. Querem
tudo. E alguns deles não desistem, são incansáveis.
E por que eu devia ligar? Eu nem devia me importar, o caralho,
cara. Eu devia ser forte o suficiente pra dizer 'Eu tou pouco
me fodendo. Fodam-se vocês todos, eu tou pouco me fodendo,
seus filhos da puta."
"E aí eu ia ser
mesmo o porta-voz de uma geração. Porque tem
um monte de gente aí fora, cara, dizendo 'Foda-se essa
merda, foda-se.' Eles são ignorantes e estão
felizes e tão pouco se fodendo pra tudo. Eu vejo um
monte de gente aí fora, cara, e eles estão pra
lá de fodidos. Então talvez eu devesse me importar
um pouco menos com eles, porque parece que eles não
se importam comigo."
Um mês atrás,
Kurt Cobain acabou com o que tinha se tornado a miséria
terrível da sua vida com um tiro que estourou a própria
cara. Você teria pensado que isso iria ser uma ocasião
para nada mais complicado que lágrimas e luto. Para
algumas pessoas, no entanto, foi uma oportunidade para condescendência,
moralismo questionável e alguma coisa perto de uma
indiferença. Para essas pessoas, Kurt era um fraco,
patético, um cuzão que escolheu a saída
dos covardes. Essas eram as pessoas para quem Kurt não
era mais nada que um tristinho irritante que, tendo alcançado
o sucesso, não fez nada além de reclamar disso.
Estou falando particularmente de Chrissie Hynde e a entrevista
embaraçosa com o querido tolo na NME na semana seguinte
depois da morte do Kurt, que pela grosseria foi bem insuperável.
"Quando as pessoas vão
entender que o simples fato de que não é o sucesso
que é a porra do problema," Eddie grunhe. "É
uma honra do caralho que as pessoas amem nossa música,
comprem nossos discos e venham aos shows. É o que acontece
quando um monte dessas pessoas começam a pensar que
você pode mudar a vida delas ou o quê, e criam
essas expectativas de merda que no fim só começam
a te incomodar, esse é o problema. Se isso é
sucesso, foda-se. Estou fora. A questão é, o
sucesso em qualquer nível pode ser difícil de
lidar pra maioria dos músicos. Por quê? Porque
você nunca acredita que você vai fazer sucesso.
Quer dizer, eu já conheci poucos músicos que
realmente acreditavam que eles iam fazer sucesso numa escala
maior. Pelo menos, poucos dos que eu gostei. Se eles achavam
que iam fazer sucesso, era provavelmente algum bichinha filho
da puta pra quem eu tava pouco me fodendo. Então quando
você sem esperar faz mais sucesso do que já imaginou,
pode ser uma coisa difícil de lidar. A eu acho que
Kurt, ele definitivamente tinha muita merda pra lidar. Ele
é tipo o Mike, nosso guitarrista, eu não ligo
de falar, foda-se. Mas ele está se fodendo demais,
fazendo merdas estúpidas e eu estou preocupado pra
caralho com ele."
"Quer dizer, a gente não
é a Madonna. E eu não ligo de mencionar o nome
porque ela é um bom exemplo e ela vai ficar orgulhosa
do fato que eu mencionei ela. Ela é alguém que
manipula a mídia, alguém que tem uma nova aparência
e um novo tema em cada performance. Ela orquestra esse tipo
de antecipação. 'O que ela vai fazer agora?
Onde ela vai depois?' Ela ama a atenção. "
E alguém assim, olha o que a gente precisou fazer.
Eles terminaram tendo que chocar e fazer strip e ir tão
longe quanto puderam ir. E sinto muito, isso é chato,
tão chato pra mim. Eu não preciso dessa atenção.
Eu não quero essa atenção. E eu não
acho que é justo qualquer um me criticar ou criticar
Kurt ou qualquer um por não querer tomar parte nessa
porra. Porque não é por isso que a gente começou.
A gente começou porque queria estar numa banda, tocar
música, fazer discos. Fim da porra da história."
Eddie ficou quieto pelos últimos
minutos, então você sabe que tem mais alguma
coisa na sua cabeça. "A coisa é,"
ele prossegue então, "você acha que seu
ego seria massivo, tocando para todas essas pessoas, fazendo
todos eles cantarem suas músicas. O fato é,
você nunca acha que é tão bom assim. Você
não acha que merece esse tipo de atenção
ou adulação. E então o que você
termina sentindo ao invés desse ego gigante é,
você acha que não tem valor nenhum. Você
não pode viver no nível da glorificação
e isso faz você se sentir pequeno e uma merda."
"Tipo, a gente recebe
milhares de cartas por semana de pessoas que querem algum
tipo de ajuda. Eu tive pessoas me enviando notas dizendo que
vão se suicidar e eu liguei pra elas, e algumas delas,
caras, estão além da ajuda. Mas você está
nessa posição em que começa a pensar
que deve haver alguma coisa que possa fazer, sabe. Então
talvez eu seja mais torturado agora, porque eu sinto que tem
mais coisas que eu devia estar fazendo. Mas você não
pode ajudar todo mundo e se você diz, 'Bom, eu vou ajudar
essa pessoa, mas não tem nada que eu possa fazer por
ela agora', é ainda pior, porque aí você
começa a agir como Deus. Porque há tantas pessoas
que merecem qualquer ajuda que você pode dar pra elas."
"É a mesma coisa com organizações.
A gente constantemente recebe cartas pedindo pra gente fazer
isso ou aquilo. E são boas causas. Mas eles não
podem nem aparecer mais pra mim. Porque eles sabem que eu
vou deixar eles levarem tudo. E as pessoas me avisaram disso.
Elas disseram, 'O que você está fazendo musicalmente,
não extrapole. A música é alguma coisa
de onde qualquer um pode tirar algo, e você não
deveria ter que fazer mais que isso. E se você puser
tudo nisso, então está ajudando mais pessoas
que pode imaginar.'"
"E eu cheguei a perceber
que essas pessoas estão provavelmente certas. Porque
se você se perde nessas situações individuais
e circunstâncias, você afunda nisso, pode perder
controle de sua vida e para onde vai. E então você
poderia mesmo não ter valor na música e no fim
das contas, você tem que proteger isso. Até onde
todos esses pedidos de socorro vão, é fácil
ouvir e abraçá-ls. Mas é impossível
fazer qualquer coisa. E isso pode ser difícil pra caralho
de entender, "ele diz com uma finalização,
"mas é a porra da triste verdade."
Deixe-me mencionar que Eddie
me contou sobre uma carta particular que lhe chamou a atenção.
Era de um garoto de 13 anos chamado Michael e era sobre a
mãe dele. Era uma mulher cujo marido havia a abandonado,
deixando para criar três crianças sozinhas. Ela
trabalhava limpando banheiros, entregando cartas, qualquer
coisa, para ganhar dinheiro suficiente para passar pela faculdade
comunitária. Ela eventualmente se graduou. Então
sofreu um acidente, sua cintura foi destruída, ela
não podia andar, não podia trabalhar. No Dia
dos Namorados do ano anterior, tinha tentado se matar. Eddie
ficou tocado pela carta, se envolveu, tentou fazer o que ele
descreveu como uma resposta útil. Na manhã seguinte
da entrevista, eu levantei no quarto do hotel e achei um envelope
empurrado por baixo da porta. Era do Eddie, uma nota e a carta
que a mãe de Michael havia enviado agradecendo tudo
o que ele tinha feito por ela. Eu li durante o café,
me deu um arrepio.
Você pensaria, então,
como você lidaria com essas coisas, um dos muitos envolvimentos
nas vidas das pessoas, e as responsabilidade que você
assume quando como Eddie você se mete tão fundo.
E então você fica feliz que provavelmente nunca
vai ter que descobrir. Porque você tinha certeza de
que mais de uma carta como aquela que ele havia te dado iriam
te ferrar a vida, sem dúvida.
De volta ao Paramount, a entrevista
estava acabando quando Steve Gullick aparece. Disseram a ele
que só poderia tirar fotos do primeiro número
no show, sem flash, e de um ponto obscuro no lado distante
do palco.
"Foda-se isso", Eddie
diz. "Tire quantas fotos quiser, de onde quiser, por
quanto tempo quiser e se qualquer um te disser alguma merda,
diga a eles para virem conversar comigo a respeito disso."
Steve pergunta se pode tirar umas fotos no camarim. Eddie
diz que sim e vai afinar a guitarra. "Vamos lá,"
ele diz, entrando no chuveiro e ligando a água. Então
ele empresta meu isqueiro e começa a queimar a rolha
da garrafa de vinho que a gente acabou de esvaziar e começa
a pintar seu rosto, desenhando círculos escuros ao
redor dos olhos e uma cruz na testa. "Isso vai fazer
você parecer tão estranho.", Gullick diz
a ele. "Me deixe ser tão estranho quanto eu quiser,"
Eddie diz. "É a porra da minha vida."
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