Mesmo assim, há quem prefira a coesão hard
rockiana deste disco do que a desvairada insanidade tão
presente em álbuns como o Surfer Rosa. Bob Mould,
ex-Hüsker Dü, que o diga.
O disco abre com a pomposa faixa-título, "Trompe
Le Monde", mais um exemplo de melodia grudenta que
o Pixies fazia como ninguém, daquela mesma espécie
que habita quase toda a obra-prima Dolittle. Logo depois,
vem "Planet of Sound", que parece ter sido composta
para nossos amigos E.T.s, numa espécie de descrição
de Black Francis do planeta em que vive (que, por sinal,
é bastante barulhento). "Alec Eiffeel"
é uma singela música doce e bonitinha que
provoca inevitáveis sorrisos em quem a escuta pela
primeira vez, principalmente quando chega a parte "oh
Alexander I see you beneath / the archway of aerodynamics"...
"The Sad Punk", com elementos hardcore, é
uma esporreira de primeira, regada com os costumeiros berros
ensandecidos inspiradíssimos. Aparece então
uma cover: "Head On" na verdade uma versão
mais teatral (tragicômica) do clássico do Jesus
And Mary Chain, tributo mais do que válido. "U-mass"
denuncia com ironia a mediocridade dos incautos universitários
sendo manipulados por um sistema hipócrita: "it's
educational".
Mal dá tempo de recuperar o fôlego e lá
vem "Palace of the Brine", canção
com uma melodia muito bem bolada, tamanha é a sensação
causada entre uma ou outra frase guitarrística. A
seguir vem "Letter to Memphis", talvez a música
mais hard rock do grupo, com direito a vocais que evocam
Billy Corgan (Smashing Pumpkins). "Bird Dream of the
Olympus Mons", outra com uma maravilhosa melodia, eleva
o ouvinte a uma dimensão paralela criada pela peculiar
mente de Francis. "Space (I believe in)" apresenta
letras e vocais desconexos, além de um refrão
divertido. "Subbacultcha" é todo falado,
mais parecendo um bêbado depravado contando seus "causos".
"Distance Equals Rate Times Time" parece seguir
o mesmo padrão de "Bird Dream...", porém
ainda mais lisérgico. Espécie de releitura
do riff de "Head On", a faixa "Lovely Day"
é a mais dispensável do EP, apesar de alguns
momentos interessantes. "Motorway to Roswell"
conta com uma deliciosa levada pop, daquelas que insistem
em permanecer na sua cabeça até enjoar. O
baixo de Kim dita a última faixa, "The Navajo
Know", explicitando a sua crucial importância
para a história do Pixies.
Apesar de ser o último disco da banda, Trompe Le
Monde ainda consegue manter a qualidade Pixies de sempre,
mesmo que as brigas e intrigas já estivessem em um
estágio avançado, que mais tarde culminaria
no fim da banda. Kim Deal nem dá muito seu ar da
graça no disco, mal aparece nos vocais, o que parece
revelar seu desentendimento com Francis. É uma pena
que as discussões tenham tomado tais proporções,
deixando milhares de fãs de boa musica inconsolados.
O que nos que resta a fazer é escutar seus álbuns
até furar e com certeza Trompe Le Monde vai ficar
com uma bela cratera...