| Review:
Sumday |
avaliação: |
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Ao
contrário do que muitos pensam, ainda existe
originalidade no rock and roll. E não poderia
ser diferente. O rock é, desde o seu surgimento,
a forma mais poderosa e visível de expressão
adolescente. Toda banda começa fazendo barulho,
e com o tempo descobre o seu caminho, o seu som. |
O Grandaddy foi formado em 1992 na cidade
de Modesto, na ensolarada California, pelo skatista Jason
Lytle, vocalista, guitarrista, eventual tecladista, principal
compositor e também produtor da banda. O grupo é
completado pelo baixista Kevin Garcia, pelo baterista Aaron
Burtch, pelo guitarrista Jim Fairchild e pelo tecladista
Tim Dryden.
O som dos caras é bastante similar à fase
atual do Flaming Lips, também americano, com a diferença
de que o som do Grandaddy consegue unir psicodelismo e pop
de uma maneira única (basta ouvir a versão
dos caras para "Revolution", dos Beatles, presente
na trilha do filme "I Am Sam" - aliás,
conhecer este cover é uma excelente maneira de entrar
no estranho mundo da banda).
"Sumday", lançado em 2003, é o quarto
álbum do grupo (anote aí os anteriores: "A
Pretty Mess By This One Band", de 1996 ; "Under
The Western Freeway", de 1997 ; e o excelente "The
Sophtware Slump", de 2000). E o que chama a atenção
logo de cara é a união de melodias originais
com uma enorme quantidade de refrãos grudentos, guiadas
pelo vocal peculiar de Jason Lytle (o cara canta o disco
inteiro como se acabasse de acordar, mas, ao contrário
do que se poderia pensar, isso não soa chato nem
sem graça - você ouve o CD e não consegue
imaginar as canções de outra maneira).
O álbum abre com a deliciosa "Now It's On",
que conquista imediatamente por ser uma típica canção
pop, alegre, divertida, daquelas que nos fazem pensar em
como este termo foi tão maltratado no decorrer dos
anos por nomes tão equivocados quanto Britney Spears,
N'Sync e todo aquele bando de enlatados americanos. Ao ouvi-la
você entende, ou volta a acreditar, ou finalmente
conhece, o quanto a união entre o rock and roll e
a pop music pode gerar músicas inesquecíveis
(era isso que os Beatles faziam, afinal de contas).
O CD continua a rolar, e você dá de cara com
"I'm On Standby", a canção perfeita
para se ouvir em uma segunda de manhã, a caminho
do trabalho. Com uma leve pitada country, é uma canção
ao mesmo tempo triste e otimista, melancólica e cheia
de esperança. Belíssima.
"The Go In The Go-For-It", "The Group Who
Couldn't Say", a espetacular "El Caminos In The
West" e "Yeah Is What We Had" nos levam de
volta aos tempos de adolescente skatista de Jason Lytle,
como se, com o passar dos anos, o tempo não tivesse
passado só para a banda, mas também para a
turma que se reunia para ver o grupo tocando na garagem.
"El Caminos In The West" é uma das melhores
músicas não só do álbum, mas
de toda a carreira da banda.
Em contraste com esta faceta mais rock and roll, "Lost
In Your Merry Way" tem um arranjo melancólico
baseado em acordes de violão e magníficas
linhas de teclados. Sabe aquelas músicas que você
ouve e imagens se sucedem em sua cabeça, como um
filme? Bem, esta é uma delas.
Mas, como você bem sabe, existem canções
que definem álbuns. Foi assim com "Beggars Banquet"
e "Sympathy For The Devil", "Led Zeppelin
IV" e "Stairway To Heaven", "Zuma"
e "Cortez The Killer", "Number Of The Beast"
e "Hallowed Be Thy Name" e inúmeros outros.
Em "Sumday", esta canção é
"Saddest Vacant Lot In All The World". Construída
sobre uma frase de piano simples, traz um Jason Lytle cantando
com o coração na boca. Belíssima, é
uma daquelas canções que você ouve a
primeira vez e tem certeza de que vai te acompanhar por
toda a vida.
O bom é que, depois de tudo isso, o CD ainda não
acabou!!! "Stray Dog And The Chocolate Shake"
se contrapõe perfeitamente a "Saddest Vacant
Lot In All The World". Enquanto essa última
mostra toda a capacidade lírica da banda, a primeira
parece uma seqüência da clássica "AM
180" (presente no segundo álbum do grupo e também
na trilha do filme "Extermínio", do diretor
Danny Boyle, o mesmo de "Trainspotting"). Com
uma melodia de teclado inocente e até mesmo infantil,
nos lembra que o rock, na boa, é antes de tudo diversão.
Fechando o álbum com chave de ouro, o Grandaddy nos
entrega três ótimas canções.
"OK With My Decay" é Jason Lytle pensando
sobre a vida, lamentando sobre o seu conformismo diante
das coisas. É a canção mais pessoal
do disco, e musicalmente a mais próxima do álbum
anterior, "The Sophtware Slump", com belos arranjos
de piano e teclado. "The Warming Sun" é
uma balada composta novamente sobre o piano, e em alguns
momentos lembra músicas do início da carreira
solo de John Lennon, logo após os Beatles. "The
Final Push To The Sum" fecha o álbum e serve
como resumo de tudo o que se ouviu ao longo das onze canções
anteriores: melancolia e otimismo, tristeza e otimismo andando
de mãos dadas, costurados em uma seqüência
de melodias e refrãos memoráveis, que ficam
na cabeça por um bom tempo.
O Grandaddy ainda não é muito conhecido no
Brasil, o que é uma pena. Eu poderia resumir o som
do grupo como um Radiohead sem a bad trip, mais otimista
e menos deprê. Mas eu não consigo colocar em
palavras o que a banda transformou em música em "Sumday".
É melhor você ouvir e tirar a sua própria
conclusão.
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Ricardo
Seelig
julho/2005 |
>> ver também
o review de Francisco Marés de Souza
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