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Ao
início da década, o rock passou a dar
alguns suspiros nos ouvidos do público mainstream,
aos poucos tomando espaço das revistas do gênero
para vir a ser oferecido novamente como produto vendável
em 2001. Foi em 2000 que a crescente evolução
da internet passou a influenciar diretamente no consumo
de música, com a consagração
do Napster e a divulgação de novas bandas
e artistas através dos arquivos MP3. |
Em intervalos de dias, novos artistas passavam
a ser garimpados, sugeridos e indicados por midias eletrônicas,
grupos de discussões ou colegas virtuais, sendo espalhados
de uma forma inédita, veloz e eficiente. A busca
pelo novo, pela última tendência, pelo disco
do instante passou a ocupar o cotidiano do adorador de música
como nunca havia sido antes, de tal forma que hoje é
praticamente impossível ter todas as bandas de destaque
em um único escopo, por mais que se tenha acesso
à informação.
Curiosamente, foi uma dupla-projeto enraizada
no passado que deu a luz a um dos melhores discos de rock
daquele ano, reafirmando as expectativas naquele gênero
e concretizando uma nova geração de músicos
que, independente de sua real importância, solicitariam
as atenções para si. Em meio às mais
variadas vertentes sonoras que estavam a surgir, o então
desconhecido Queens Of The Stone Age seria o grande representante
do tão falado metal stoner, gênero imortalizado
pela banda texana Kyuss, que contou com a principal figura
do QotSA, o guitarrista Josh Homme. O gênero stoner
já era bastante estabelecido no meio underground,
representado desde os anos 90 pelo citado Kyuss e por outras
bandas como Monster Magnet, Nebula e Fu Manchu, não
implicando na obrigatoriedade de algo novo naquela vertente.
O que o QotSA fez naquele momento foi representar de forma
impecável toda a sua influência stoner, grunge
e sabática dentro de um panorama mais geral, ao alcance
de ouvintes acostumados a rock mais mainstream como o do
Foo Fighters. Para um público para o qual as falsas
rebeldias representavam muito (Limp Bizkit), "Rated
R" foi o álbum que novamente colocou o rock
de verdade nos trilhos, chegando a ser aclamado pela midia
como o "novo Nevermind".
Usando suas influências de música
pesada dos anos 70, mesclando-nas com a identidade proposta
em seu álbum de estréia e polindo o material
com características major, Josh e seu fiel colaborador,
o produtor Chris Goss, souberam equilibrar na medida certa
um disco em alguns momentos experimental, em outros roqueiro
e em outros ensandecido. O revival das qualidades dos bons
discos de rock acontece na integridade do álbum:
peso, punch, descolagem, inteligência, mensagens politicamente
incorretas, inconseqüência, uso coerente de influências,
talento e bagaceirada em geral. A rebeldia de balcão,
a preguiça mainstream e a busca pelo sucesso fácil
foram automaticamente soterradas por um disco feito por
pessoas que vivem o rock e o tem presentes em seu organismo.
"Rated R" começa com um
hino rocker que representa exatamente aquilo que escrevi
anteriormente. "Feel Good Hit Of The Summer" tem
uma base marcada de uma só nota, baixo e bateria
de mãos dadas e o intermitente verso, cru e direto,
Nicotine, valium, vicodin, marijuana, ecstasy and alcohol.
A idéia repete-se de forma a criar um clima que explode
nas guitarras ensurdecedoras do refrão mais famoso
da década: c-c-c-c-c-cocaine!!!. Pronto. Os caras
acabaram de dizer a que vieram, tanto no espírito
como no som. "The Lost Art Of Keeping A Secret"
tomou as paradas por assalto, uma faixa com potencial radiofônico
que remete um pouco ao grunge e tem toda a integridade necessária
para preservar a banda. Artigo de luxo para os magazines
populares. "Leg Of Lamb" brinca com melodias tortas
para então apaziguar as harmonias no refrão
(note os backing vocals). "Autopilot" é
a primeira aparição do baixista Nick Oliveri
no disco, a segunda-metade do QotSA. Nick aparece um pouco
descaracterizado em uma música magnífica,
que nos shows adquire status ainda maior com a participação
do soturno vocalista Mark Lanegan (ex-Screaming Trees).
A bateria levada e o riff suingado entram em conflito com
a frase gritada de guitarra, marca registrada de Homme desde
os tempos de Kyuss. Talvez a música que mais admiro
na discografia dos caras. "Better Living Through Chemistry"
te tira do solo e institui a lisergia dos anos 70 na nova
década, com climas espaciais e "sobre efeito",
sem deixar margens para outras interpretações.
"Monsters In The Parasol" já havia aparecido
nas divertidas Desert Sessions, projeto de Josh e seus amigos,
mas aqui ela é regravada de forma mais rápida
e encorpada. Um rock de escutar nos últimos volumes.
"Quick And To The Pointless" (com direito a acompanhamento
feminino bem sacado) e "Tension Head" são
obras de Oliveri, faixas que imprimem com perfeição
o lado punk e animalesco do baixista. Influências
de Dwarves e Turbonegro são aplicadas ali, dando
o caráter tosco que o disco precisa. "In The
Fade" é outro de meus momentos prediletos. O
já citado Lanegan se junta à trupe para sussurrar
seus vocais cavernosos em uma melodia sensacional, dotada
de muitos efeitos e feeling. Depois de uma instrumental
baixa-a-bolinha ("Lightning Song"), os caras enveredam
em uma faixa de experimentação em que aspectos
do primeiro disco são reaplicados. "I Think
I Lost My Headache" flerta com repetição
e instrumentos inusitados, solicitando ao ouvinte um pouquinho
de sua atenção às brincadeiras stoner.
O disco não só atirou
o Queens Of The Stone Age nos ouvidos das pessoas como deixou
espaço para que se apostasse fichas na grandiosidade
que o grupo viria a ter. Os caras acabaram se superando
ao lançar o disco seguinte, deixando "Rated
R" com um caráter menos relevante que na verdade
tem. O disco é a primeira amostra de como Josh e
Nick conseguem trazer suas influências para um terreno
mais acessível, sem que isso vá contra sua
integridade artística ou manche sua reputação
junto a seu público fiel. Além disso, é
uma afirmação de que o talento dos caras se
supera a cada nova etapa e a certeza de que um trabalho
de base estava sendo conduzido. Um discão para se
ter na mesinha de cabeceira.