É um disco que prometia desde o
momento em que seu embrião passou a ser maturado,
quando o ex-Screaming Trees Mark Lanegan juntou-se às
Rainhas da Idade da Pedra na turnê európéia
em 2001. O que vinha acontecendo em reuniões casuais
passou a ser oficial - Lanegan passara a ser membro efetivo
do cast (ôba!). Na verdade, os discos anteriores
"Queens Of The Stone Age" e "Rated R"
já tinham sido uma redenção para
quem está sempre procurando aquele disco de rock
que justifica o investimento, que agrada mesmo, que é
como o freguês gosta. Na verdade, o Kyuss, banda
anterior de Josh e do companheiro Nick Oliveri já
havia cravado sua importância na história
do rock pesado dos anos 90. Então o caso aqui é
de artistas abençoados, bebedores da famosa água
benta texana que nos dá outros artistas como o
Polyphonic Spree, o Lift To Experience e o Trail Of Dead.
Só que, observe, são mais de 10 anos de
atividade em que Homme só acertou o alvo.
Eis que o que já estava bom tomaria
proporções históricas quando o boca-grande
Dave Grohl começou a espalhar que estava dando
umas voltinhas no estúdio onde o novo álbum
estava sendo feito e que tinha tocado bateria em umas
duas músicas. "Uau! O ex-baterista do Nirvana
volta às baquetas!". Alguns meses depois a
informação não só confirmaria
a mão de Dave como complementaria que sua participação
tomaria o álbum todo. Holofotes ligados com força
máxima, "Songs For The Deaf" sai do forno
e todas aquelas bandas trabalhadas pela mídia naquele
período são automaticamente reduzidas a
pó. Os caras conseguiram nos surpreender de novo.
Mais uma vez.
"Songs For The Deaf" tinha tudo
para ser um disco em que a música assume papel
secundário. A escalação de dream
team poderia muito bem ofuscar o trabalho e justificar
as atenções ao álbum. A nova exposição
que a Interscope Records passaria a dedicar à banda
caracterizava o oportunismo, o consumismo em função
dos fatos secundários ao invés da música.
Mas, como diria o peão de obras aqui da empresa,
"não tem perigo". Quando falamos de QotSA,
lidamos com uns caras que gostam muito de cheirar, fumar,
beber, curtir umas minas peladas e tocar muito alto. Justamente
o chavão clássico do rock. Entretanto, esse
espírito rock n' roll lisérgico e pesadão
reflete perfeitamente em sua música, as suas influências
são perfeitamente sintetizadas nos resultados e
os caras conseguem produzir sonoridades que mesmo nem
tanto inovadoras, adquirem uma originalidade e eficiência
ímpares. E "Songs For The Deaf" é
toda essa síntese do que esses caras foram desde
os tempos do Kyuss, reelaborada à perfeição
para o agrado de todo o ser humano que gosta de rock.
É a síntese de um disco de rock perfeito.
Conceitualmente, o álbum emula a
trilha sonora de uma viagem de carro, onde as músicas
são intercaladas por vinhetas que emulam locutores
de rádio, trocas de estação e discursos
evangélicos. O ritmo é desenfreado, dos
primeiros segundos de "Millionaire" até
o final de "A Song For The Deaf", o ouvinte
é submetido a uma montanha russa infernal, um buffet
de variadas influências que o proíbem de
pressionar stop antes que o disco tenha terminado. Como
evitar uma chacoalhada, uma bateçãozinha
de cabeça na seqüência "Millionaire"/"No
One Knows"/"First It Giveth"?
"A Song For The Dead" confirma que a participação
de Dave Grohl transcede os motivos mercadológicos
para reafirmar sua qualidade impecável como baterista,
dando ao disco toda a competência que um baterista
precisaria dar. A lisergia dá as caras, seja nos
vocais "sob efeito" de Josh ("The Sky Is
Falling"), seja nas influências do peso mórbido
do velho Sabbath ("A Song For The Deaf"). Nick
Oliveri consagra seus punkzões inconfundíveis
ao dar vida nova a "Millionaire", um original
do projeto Desert Sessions e ao antecipar o flerte com
sonoridades pop que depois se concretizariam em seu projeto
Mondo Generator ("Another Love Song"). E é
claro, mete o coturno na porta em "Six Shooter".
O disco ainda tem espaço para louváveis
hits com tendências radiofônicas como o quase-ska
"No One Knows" e o primor "Go With The
Flow", sem que isso signifique perda de qualidade
ou venda da alma para o capeta. A presença de Mark
Lanegan oferece mais brilho ao disco, concedendo-no ainda
mais recursos de exploração. Sua característica
voz preenche de forma obscura a regravação
de "Hangin' Tree" e possibilita o amálgama
entre vocal inacessível e sonoridades digeríveis
em "God Is On The Radio" (isso porque não
vou tocar no assunto dos shows, em que Lanegan retorce
músicas como "Autopilot" e "Walking
On The Sidewalks" de forma inesquecível).
A tal faixa escondida "Mosquito Song" corre
em paralelo, como que um momento de relax na fogueira
depois de uma inesquecível viagem pelo deserto.
Ao final da canção, não nos resta
outra alternativa a não ser pressionar play mais
uma vez, assim como fazem as crianças ao repetir
a dose no trem-fantasma.
"Songs For The Deaf" sintetiza
toda a carreira do QotSA, impulsionando novidades como
Grohl e Lanegan, dando a tão sonhada nova vida
ao rock. É o disco mais rock dos últimos
anos e por mais que se procure não se encontrará
outro tão eficiente. Está na lista dos melhores
de todos os tempos de muita gente. Conquistou alternativos,
metaleiros, posers, a minha namorada, o meu avô
e até o presidente da república. E sem que
isso abale o prestígio que a banda recebeu. É
o álbum para se levar à ilha deserta, repito.
E isso é passível de ser concluído
logo que o CD começa.
PS.: Eu cheguei a conclusão
que esses caras são uma exceção na
minha maneira de ver música. Sempre apoiei a mudança
como prioridade na carreira de uma banda, o experimentalismo
como princípio básico da evolução
de um artista. Nesse caso, eu abro mão dessa convicção
e declaro que Josh & cia. podem se reunir à
vontade e gravar quantos "Songs For The Deaf"
eles quiserem. Mesmo que venha mais-do-mesmo pela frente,
é o tipo de prato que eu sempre vou querer repetir.