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“Wish”
foi lançado pelo Cure em 1992 e veio ao mundo
como o sucessor de “Disintegration”, certamente
um dos discos mais belos e tristes de todos os tempos.
Mas enquanto “Disintegraton” é
um disco difícil e para ouvidos preparados,
seu sucessor pode ser visto como um apanhado bem dosado
de todas as características já apresentadas
pelo grupo inglês ao longo de sua discografia.
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O Cure baladeiro, o Cure gótico,
o Cure rock n' roll, o Cure pop, e até mesmo o Cure
psicodélico do disco "The Top" têm
seu espaço em “Wish”. E como Robert Smith
sempre soube ser bastante competente em qualquer uma dessas
frentes, o resultado de “Wish” não poderia
ter sido outro além de um sucesso estrondoso que levou
a banda definitivamente às massas, até mesmo
no Brasil. E no caso específico do Brasil, este sucesso
foi potencializado com os shows antológicos que o conjunto
fez por aqui na turnê desse disco e com a popularidade
da coletânea “Staring at the Sea”, lançada
no mercado tupiniquim de todos os jeitos possíveis,
e comercializada de maneira idem. Se foi ou não o caminho
certo para a banda obter o reconhecimento que merece, não
é uma discussão para quem se preocupa somente
em ouvir boa música. E nesse quesito, "Wish"
é um prato cheio.
Alguns fãs mais radicais
da banda torcem o nariz para este que é o primeiro
trabalho do Cure na emblemática década de 90
(descontando a coletânea de remixes “Mixed Up”
que saiu em 1990), provavelmente devido a esse caráter
multi-facetado de "Wish". Talvez esperassem por
mais um disco conceitual-corta-pulsos como foram dois dos
mais marcantes trabalhos anteriores do Cure, o genial “Pornography”
e o próprio “Disintegration” (estes fãs
devem ter ficados satisfeitos somente 8 anos depois com o
lançamento de “Bloodflowers”). Fugindo
dessa cruz gótica, a banda preferiu renovar-se uma
vez mais e se inspirar no sucesso de “The Head on the
Door” - onde várias de suas facetas formam um
único (e excelente) álbum - a se embrenhar em
mais um épico dolorido e monocromático. E o
fato é que o Cure foi muito bem sucedido, criando um
disco que possui sim certa coesão, de razoável
fácil assimilação e cheio de ótimas
músicas. O álbum passeia sem dar passos largos
pela asfixia gélida de “Pornography”, pela
orientação pop de “The Head on the Door”,
pela melancolia quente e lisérgica de “The Top”
e ainda pela infusão outonal de melancolia e afeto
de “Disintegration”. Apresenta alguns tropeços,
mas nada que comprometa a obra. De lambuja, promove um espetáculo
de guitarras, melodias, e de vocais/letras de uma das figuras
mais carismáticas na história recente da música,
Robert Smith.
Open abre o disco muito bem,
um cartão de visitas cheio de guitarras altas e calorosas.
É tortuosa e apresenta Bob Smith falando da falta de
limite e sentido. Trilha sonora perfeita para depressão-pós-ressaca-pós-uma-terrível-noite.
A analogia de uma noitada sem propósito e cheia de
“another glass in my hand” pode ser estendida
para uma vida inteira e derrubar qualquer um (já tendo
derrubado Smith diversas vezes – o cara já teve
sérios problemas com álcool e drogas). Tudo
bem, o Cure está aí para isso mesmo. Ou pelo
menos assim esperamos.
High vem a seguir e ameniza
completamente o clima, mudando-o da água para o vinho
(ops, nessa situação o literalmente correto
seria dizer do vinho para a água). É uma adorável
canção pop, alegre e apaixonada. Ganhou um clip
idem.
Apart é a terceira música
e logo de cara nota-se que é uma das canções
mais tristes de todos os tempos, parecendo ter vindo diretamente
das sessões de estúdio de “Disintegration”.
Dê a Robert Smith a idéia de duas pessoas que
já foram muito próximas mas hoje possuem um
universo de distância entre elas e pronto, ele lhe devolverá
coisas como Apart, uma pequena obra-prima, delicadamente mórbida,
lenta e bonita. A atmosfera de solidão imprimida pelo
baixo lento e pelo teclado enevoado é de cortar o coração.
O vocal duplo e às vezes triplo é muito bem
sacado e dá uma aura ainda mais etérea à
canção, um dos pontos mais altos de “Wish”.
From the Edge of the Deep Green
Sea é uma bela e suntuosa viagem, a começar
pelo seu título. Longa, melodicamente fascinante, com
uma parede de guitarras a frente e andamento ligeiramente
desestruturado que bate com o lirismo clemente e redentor
de Smith. A melhor faixa de “Wish” e uma das melhores
da carreira do Cure. A parte em que Bob Smith canta “(..)
surrender, remember, we will be here forever and never say
goodbye” é mágica e arrebatadora.
Wendy Time funciona como High,
ou seja, vem mudar um pouco o clima levantado com sangue e
lágrimas por Apart e Deep Green Sea. Pena que não
passa de uma faixa pop descartável e com alguma boa
vontade, somente bonitinha e alegre.
Já Doing the Unstuck
é uma das mais cativantes do disco. Trata-se de uma
celebração à vida (sim, isso mesmo, celebração
a vida, e foi o próprio Robert Smith que escreveu),
com melodia e arranjos magistrais. Um violão acelerado
faz a base para as guitarras e o vocal de Smith que canta
como se não pudesse parar de tão radiante que
está. A música é toda cheia de auto-referências
(e, por que não, auto-ironias?) e muito contagiante.
“(...) It just goes to show how wrong you can be and
how you really should know that's never too late to get up
and go”, ensina Smith, como que querendo se explicar
e salvar todos aqueles pobres mortais que já ouviram
os seus “Disintegration” e “Pornography”
e levaram tudo aquilo muito a sério.
Friday I'm in Love vem a seguir
e dá continuidade a explosão de alegria. O que
falar dessa música? É, na minha opinião,
a segunda canção pop mais perfeita e redondinha
de todos os tempos (somente superada por Near Wild Heaven
do REM). É dificil de descrever, mas isso não
é problema pois todos devem conhecê-la (imenso
sucesso radiofônico no Brasil, tocava 50 vezes por dias
nas rádios naquela época). Friday I'm in Love
é a singeleza pop em sua forma mais inspiradora e,
o Teenage Fanclub que me desculpe, insuperável.
Trust pode ser considerada
a segunda faixa mais fraca do álbum. Segue a mesma
linha de Apart, mas sem o brilho dessa. O arranjo elegante
e o dueto de piano e guitarra soam um pouco forçados
e a música não convence, ainda mais que a esta
altura o ouvinte já passou por Apart e deve estar até
agora prostrado com a beleza desta. Dessa vez melancolia e
lentidão completa mais chateiam do que comovem.
A Letter to Elise é
outra pérola pop de “Wish”. Leve e agradável
de se ouvir, com direito a um solo matador no fim. É
daquelas canções extremamente simples, compostas
em um momento de alta inspiração. Sem grandes
atrativos, poderia ter sido composta por mim ou por você,
e ainda assim é perfeita.
Cut vem a seguir e é
outro grande momento do disco, novamente uma faixa essencialmente
guitarrística. É um pouquinho mais acelerada,
com bateria quebrada, boa melodia e andamento meio psicodélico
evidenciado por solos e riffs em profusão. Robert Smith
está cantando muito, soltando sem medo o vozeirão
alto e único, de sotaque acentuadamente britânico.
To Wish Impossible Things é
outra bonita faixa, que nos remete novamente ao “Disintegration”
devido sua longa e cadenciada introdução, recheada
de floreios. Bob canta mais uma vez sobre saudade e “how
we use to be”. Não chega a ser uma Apart, mas
funciona bem melhor do que Trust, encaminhando bem o final
do álbum.
Para fechar, End é infalível.
A última música do disco flerta com Open na
sua letra angustiante sobre limites e sonhos destruídas,
carregada nas guitarras viscerais e cruéis. Smith canta
com desilusão e fatalismo desconcertantes, até
o fim da canção chegar bruscamente junto com
o fim do disco.
"Wish" é um
álbum memorável, maduro, mais acessível,
mas não menor do que nenhum outro do Cure. A produção
crua de David Allen (a banda também é creditada
como produtora no encarte) torna o trabalho um pouco diferente
devido ao tratamento dado às doses cavalares de palhetadas
e solos, que soam mais encorpados e pesados do que nos discos
anteriores da banda. Principalmente se comparado ao imediamente
anterior “Disintegration”, cuja produção
cristalina e elaborada reveste a melancolia toda daquele disco
em uma roupagem mais soturna e distante. Assim, “Wish”
acaba soando mais real e moderno, mais anos 90. Para aqueles
que não gostaram do álbum por esperarem outra
coisa do The Cure, “Wish” merece mais uma chance,
nem que seja sob essa ótica revisionística.
Para os que gostam do disco devido sua alta rotação
no Brasil, fica a dica dos trabalhos anteriores do grupo,
como “Faith”, “Kiss Me Kiss Me Kiss Me”
e “17 Seconds”, além dos outros já
citados anteriormente nesse texto, para entender como a banda
forjou seu estilo e o caminho que traçou para culminar
no equilíbrio de “Wish”. Eu faço
parte do grupo que conhece toda a discografia da banda e ouve
“Wish” com muito prazer. |