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Toda
uma série de rótulos espertinhos podem
ser empilhados pra tentar descrever o som desses texanos
malucos do ...Trail Of Dead: "um Sonic Youth endemoniado".
"Um My Bloody Valentine mais machão".
"O Nirvana do emo". "O The Who ressuscitado
nos anos pós-grunge". "O que o Mogwai
seria se tivesse colhões". "Glenn Branca
para leigos". "Slint rebelado contra a sonolência".
E vai embora... |
Mas o duro é que eles,
no fundo, não se encaixam direito em nenhum estilo
preciso dentro do universo vasto demais do chamado "rock
alternativo". E mais: são ambiciosos e "climáticos"
demais (PROG, pois não!) para serem hardcore-punk.
Não tem suficiente sentimentalismo e letras românticas
pra serem EMO de verdade. A barulheira que fazem não
é pesada e metida a malvada o bastante para ser METAU
(apesar do jeitão de death metal da capa do disco novo).
São "difíceis" demais pra cair no
novo-rock mainstream de Strokes e Franz Ferdinand. E a violência
é demasiada para os ouvidos indie sensíveis
demais, acostumados ao Belle & Sebastian e ao Iron &
Wine com seus murmúrios e sussuros... O Trail of Dead
paira então num vácuo conceitual: nenhum rótulo
se prega neles com perfeição, nenhum é
capaz de esgotar o som da banda. O mercado, por sua vez, não
sabe ao certo o que fazer com eles: apesar de estarem lançando
seu segundo álbum por uma grande gravadora (Interscope),
ainda estão relegados ao status de banda cult de baixa
vendagem.
No passado, os caras chegaram
a fazer certa fama pela trilha de guitarras, baixos, baterias,
cabos e microfones que mataram sem piedade, todos deixados
aos frangalhos nos palcos deste nosso mundo que tiveram a
honra de presenciar alguns dos pandemônios deadianos
LIVE. Até mesmo remotos municípios caipiras
desse nosso Brasil tiveram a honra de receberem shows do TOD
(e, segundo relato de um certo são-carlense, foram
fodidamente bons). A imprensa mundial concordou em dizer que
as performances ao vivo dos garotos estavam entre as mais
explosivas já vistas e não faltaram várias
comparações feitas entre o Trail of Dead ao
vivo com os shows da fase mais enérgica do The Who,
aqueles que sempre acabavam com o esmigalhamento dos instrumentos
de Pete Townshend, Keith Moon e John Entwhistle num delírio
destrutivo que depois muita gente se pôs a imitar...
Em estúdio, a banda parece nunca quer conseguido capturar
toda a energia dionisíaca que (dizem...) emanava dos
palcos, mas cravaram pelo menos um clássico álbum
na história da década 00 com o disco anterior,
Source Tags and Codes. Enfim, o Trail of Dead, no pós-Nirvana,
foi uma das poucas bandas raivosas, malditas, explosivas e
catárticas (as outras sendo, talvez, o At The Drive-In
e Queens of the Stone Age), que conseguiu preencher a sede
de violência da juventude com GUITARRISMOS CATACLÍSMICOS
e vocais de rasgar as cordas vocais. E mais: pra delícia
dos indies, ficava claro que uma banda com um nome desse tamanho
não estava lá muito fim de ser extremamente
popular.
Esse Worlds Apart (Interscope
Records, importado, 2005), quarto álbum da banda, chega
com a difícil missão de tentar atingir altura
semelhante a de seu predecessor, o celebrado épico
indie-emo-punk-pinkfloydesco (!) Source Tags and Codes, um
dos grandes lançamentos de 2002. Numa primeira ouvida,
o fracasso parece evidente. Source Tags... era um disco mais
excitante, mais enérgico, mais urgente, mais coeso.
Tão fudido de bom que promete ficar definitivamente
como a obra-prima insuperável da banda. Mas a comparação
com o passado não serve apenas para empalidecer a atual
fase do Trail of Dead: Worlds Apart mostra sim que a banda
está explorando novos horizontes sônicos e indo
muito além dos sonic-youthianismos ortodoxos que preenchiam
os 2 primeiros discos. O certo é que a banda não
estagnou na fórmula VAMOS XEROCAR O SONIC YOUTH E TACAR
MAIS SANGUE E MEMBROS DECEPADOS POR CIMA e ousou trilhar novas
estradas. Os garotos que copiavam os ídolos se tornaram
definitivamente uma banda única que, após ter
comido e reprocessado centenas de bandas de guitar rock barulhento,
vomita um som que não é paga-pau ou plagiador
de nenhuma delas.
A principal novidade é
que em nenhum outro álbum do Trail Of Dead o vocal
de Conrad Keely está tão destacado, tão
límpido, tão audível, tão no primeiro
plano, quanto neste Worlds Apart. Este disco mostra que aquela
banda que costumava soterrar o vocal debaixo de uma avalanche
de barulho e microfonia mudou um pouco. O que, por um lado,
serve para destacar um lado mais humano, frágil e falível
do vocalista principal, por outro demonstra que sua voz, quando
não afundada na barulheira do background, não
tem toda aquela potência que se imaginava. Temos por
aqui, por exemplo, a primeira verdadeira incursão do
Trail of Dead no MODO-BALADA (que, digamos a verdade, já
tinha sido flertado pela banda em "How Near How Far"
ou "Claire de Lune"), na nostálgica, melancólica
e bela "Summer of 91". Keely cantando acompanhado
por uma mera pianola nos minutos iniciais é uma experiência
surpreendentemente agradável. "Will You Smile
Again", por sua vez, traz Keely tentando berrar sobre
um fundo minimalista de bateria e baixo, com resultado não
tão aprazível, principalmente pois o que precedeu
foi um esporro empolgante de guitarronas riffosas e batera
galopante, um dos inícios de música mais poderosos
de toda a carreira do TOD.
Outra surpresa é que
o Trail Of Dead, que nunca foi uma banda exatamente engajada
politicamente, faz sua primeira verdadeira tentativa no ramo
da CANÇÃO DE PROTESTO com a música título,
canção das mais facéis de ser digeridas
da carreira da banda. "Worlds Apart", a música,
é o Trail of Dead em modo MAINSTREAM, fazendo um retrato
cruel da América bushiana. É porrada pra todo
lado: as "vagabundas na MTV com seus carros e anéis
e essas merdas", os "corpos, estupros e amputados"
da BBC ("o que você acha agora do Sonho Americano?"),
as mães e pais que educam os filhos na cultura da publicidade
e que dormem com a "consciência intacta" etc.
O único ponto a objetar é que esse ataque de
adolescência rebelde me pareceu soar um tanto artifical
e forçado saído da boca de caras que já
passaram bem dos 25 de idade. Como adultos se fingindo se
sentir tão raivosos quanto eram aos 16
anos de idade. Mas melhor uma rebeldia forçada do que
um conformismo espontâneo...
Alguns dos momentos mais poderosos
e inspirados da carreira do Trail of Dead se encontram aqui.
"Caterwaul", única música que conta
com os vocais principais do baterista Jason Reece, reúne
tudo o que a banda tem de mais adorável: uma massa
sonora vigorosa e violenta, um refrão berrado e tesudo,
a união harmoniosa de uma wall of sound violenta com
a ternura de um piano melancólico, uma mudança
de andamento muito bem feita. Se bem que nunca atingindo o
grau de FODICE de "Caterwaul", outras músicas
estão entre as melhores coisas que se produz hoje em
termos de GUITAR ROCK SANGRENTO E COM PEGADA: "Rest Will
Follow" e "Classic Art Showcase" são
as melhores dentre elas.
O que preocupa nesse novo
Trail of Dead é a ENCHEÇÃO de LINGUIÇA.
As VINHETAS em Source Tags até que soavam como partes
necessárias para o bem do TODO, como pontes que conduziam
docemente de música a música, mas em Worlds
Apart soam mais como coisa para preencher o tempo do que artifícios
para a criação de um álbum mais COESO.
Duas vinhetas são praticamente música clássica
("Ode To Isis" e "Russia My Homeland"),
e, por melhores que sejam em si, soam um tanto fora de contexto
dentro de um disco tão barulhento quanto este. Momentos
atmosféricos (como os de "Let It Dive") soam
desnecessários e arrastam a música para cinco
minutos de duração quando uns três e meio
estariam bons demais. Além disso, o ábum é
preenchido com vários barulhos estranhos (trompetes
sonolentos, abutres grasnantes, criancinhas brincando e rindo,
mulheres histéricas berrando de pavor, coraizinhos
dos mais diversos....), que não são exatamente
significativos. Certamente que o Trail of Dead se tornou um
banda competentíssima em criar uns CLIMÕES SÔNICOS
com a maestria dum PINK FLOYD, mas os sons que usam não
parecem ser pensados com a intenção de comunicar
algo.
As ambições
poéticas, por sua vez, que sempre foram explícitas
na banda (que chegou mesmo a nomear como "Baudelaire"
uma das suas melhores canções e estampar uma
fotinha de Rimbaud na contra-capa do disco anterior), atingem
em certos momentos uns graus preocupantes de PARNASIANISMO
(versos como "voice-overs rise like minarets then fall
diatonically", em "A Classic Arts Showcase",
soam pretensiosos e vazios...). Em todo canto se vê
a banda tentando soar como um grupo de poetas malditos declamando
sob um fundo musical sombrio e dilacerante. "Você
poderia fingir que o papel é sua alma e que teu sangue
está na caneta / Então talvez você veria
a luz / E leria a verdade que precisou escrever", sugere
a letra de "Will You Smile Again". O que em momentos
soa como uma deliciosa poesia musicada que paga tributo a
Baudelaire, Genet, Allen Ginsberg e outros poetas do Mal,
outras vezes acaba soando pomposo, hermético, forçado.
A poesia trail-of-deadiana também passa por seus altos
e baixos nesse disco oscilante...
E outra coisa a objetar: acho
que não há disco do Trail of Dead que
seja mais HETEROGÊNEO que este. Pode-se até dizer
que a homogeneidade de um Madonna acabava por vezes por parecer
falta de ousadia e excesso de apego ao estilo-Sonic-Youth
de fazer rock. Worlds Apart ao menos ousa explorar novas sonoridades
e novos caminhos, merecendo até o título de
disco mais AVENTUREIRO da banda. Mas acaba, em última
análise, soando um tanto incoerente. O Trail of Dead
parece não se decidir: querem se tornar heróis
cult, uma banda maldita, amaldiçoada pelo mercado,
interpretada pelos semioticistas da crítica musical,
ídolos dos Ouvidos de Elite? Ou querem ser uma banda
de massa, uma organização de rock and roll apocalíptico
e vulcânico que mira nos ouvidos de multidões?
É essa constante oscilação entre, de
um lado, a pretensão mais prog e mais baudelairesca,
e, de outro, a barulheira mais orangotangamente punk que faz
Worlds Apart parecer como um disco de um grupo de jovens um
tanto indecisos quantos aos caminhos que querem seguir. O
dilema se reduz ao seguinte: a ambição ou a
visceralidade? O futuro é incerto. Worlds Apart pode
ter sido tanto o primeiro passo do Trail of Dead em direção
ao abismo e a desintegração, ou um pit-stop
que aponta para um novo Trail of Dead, mais variado, mais
exploratório, a vir num futuro que prossegue promissor. |