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Este
segundo álbum do Nirvana, lançado em 1991,
tem para o rock ‘n’ roll a mesma relevância
conjectural que tem a queda de Constantinopla para a
história geral, por exemplo. O objetivo dessa
frase de efeito (fuleira, mas irrefutável) é
dar o baque, lembrar o leitor de tudo aquilo que envolve
o disco da capinha do moleque pelado na piscina, com
os olhos brilhando e a nota de 1 dólar, "Nevermind". |
Além de ser um disco
intrinsecamente foda, tem toda uma importância que tentei
ressaltar naquela primeira frase, por ser o símbolo-maior
de uma época que pode ser revista hoje como a responsável
pelo ressuscitamento de alguns valores, que sobreviviam somente
em pequenos círculos aqui e acolá, e pela introdução
em larga escala no mercado daquilo que hoje todos enchem a
boca para designar como “rock alternativo”. Tal
foi o impacto disso, que atualmente falar em rock alternativo
talvez nem faça muito sentido: alternativo ao quê,
se as bandas normalmente associadas a esse rótulo (que
teoricamente supõe uma natureza circunstancial) já
possuem seu espaço demarcado, já possuem um
público e mesmo um mercado bem estabelecidos? No cenário
atual, “alternativo” certamente já não
é a mesma coisa que foi outrora – talvez o Lightning
Bolt seja rock alternativo hoje, mas, definitivamente, o Nirvana
não é mais. A questão é que em
1991 não era bem assim.
Mas pode um disco causar tamanha
mudança de paradigmas? Certamente “Nevermind”
não foi o responsável solitário por isso.
Pode ser visto como a faísca em cima da pólvora
que vinha se amontoando há algum tempo, o que não
é pouco mérito, obviamente. Alguém tinha
que fazer o serviço sujo, sob o risco da pólvora
ficar amontoada por muito tempo, umedecendo, desperdiçada.
Após a detonação, "Nevermind"
pode ser visto hoje como um marco que limita eras na história
do rock 'n' roll, assim como aqueles eventos que tínhamos
que decorar para as provas de história (guardadas as
devidas proporções) e que isolados talvez não
tivessem grande importância, mas devido às circunstâncias
e estudos posteriores, acabaram sendo eleitos como pontos
de transição.
A história da banda
e do cenário de Seattle - onde um certo "espírito
primal" do rock sobrevivia heróico - são
hoje de domínio público, mas, ainda assim, esse
choque dado pelo Nirvana no então estado das coisas,
suas causas e consequências, poderiam render uma tese
universatária de algum curso de sociologia. O desgaste
do hard rock farofa e do pop rock que dominavam as paradas
na época possivelmente não era suficiente para
fazer com que o rock 'n' roll pedisse reformulação
(o Guns 'n' Roses e seu circo ainda era uma máquina
a pleno vapor), mercadologicamente falando, ou pelo menos
era bem pouco crível que a perfeita antítese
desse formato fosse a responsável pela mudança
que viria a seguir. Falo aqui sob a ótica de alguém
que fazia parte do grande público, numa era onde a
palavra internet provavelmente soaria como alguma coisa tirada
de um filme de ficção científica. Bons
discos de grupos “alternativos” eram lançados
regularmente (alguns passavam desapercebidos,
outros tinham melhor
sorte), boas bandas surgiam e sobreviviam na base do DIY,
mas nada que ameaçasse a ordem das coisas. O rock alternativo
era de fato uma “alternativa” para quem recusava
aquilo que a indústria da música costumeiramente
oferecia e Seattle despontava como uma capital despretenciosa
disso tudo, brincando de emular o som pesado das bandas clássicas
misturado a sujeira do punk rock. Então “Nevermind"
chegou tumultuando essa situação, com seus pouco
mais de 40 minutos de música avassaladora, fresca,
angustiante, básica e perfeita. Elevou à enésima
potência a visibilidade que a cidade de Jimi Hendrix
clamava ao mundo, e teve ainda a ajuda de uma catapulta de
grande alcance: a ascenção da MTV, que logo
viu na banda de Kurt Cobain e em suas conterrâneas um
grande negócio.
As consequências dessa
conjunção astral de fatores foram de ordem planetária:
milhões de cópias vendidas e um "novo"
conceito de rock; fãs de todas as nacionalidades, cores
e credos; bandas ao redor do mundo que tinham características
semelhantes ganhando sobrevida e nova chance; as influências
das mesmas ganhando póstuma importância e todo
um processo de redenção do rock 'n' roll, que
deixou de ser motivo de piada. Até os anos 80 foram
salvos: a década que poderia ficar conhecida como a
responsável pelo Poison, Iron Maiden, Bon Jovi e Van
Halen, hoje pode ser vista alternativamente como a década
do Pixies, Hüsker Dü, REM, Replacements, Sonic Youth,
Cure, entre muitas outras. Essa mudança de foco resultou
em uma sintonia muito mais fina entre a juventude e o rock
'n' roll, que passou a ser algo mais dinâmico, acessível,
real, do que o dinossauro que reinava então,
sempre visto meio de lado. O abalo sísmico nas estruturas
do mercado e no conceito de rock independente gerou até
comportamentos novos, como aquele pessoal que passa a abominar
determinada banda devido seu repentino sucesso e exposição,
mesmo antes tendo admirado o trabalho de
tal grupo, quando ele ainda estava em seu
gueto inicial. Kurt Cobain, com sua suposta rebeldia/atitude
e seu indubitável talento, se transformou no ícone
disso tudo. É bem verdade que, caso o Nirvana não
tivesse cumprido esta missão, alguém mais cedo
ou mais tarde o faria, mas deixa pra lá: o que você
está lendo é uma resenha de "Nevermind",
e não uma análise sobre os anos 90.
Este preâmbulo todo,
aliás, é pura enrolação diante
do poder que o disco tem ainda hoje, passados 12 anos de seu
lançamento. Daqui, sei lá, 30 ou 40 anos, tudo
isso será história, viva somente na memória
dos idosos ao redor do mundo, um momento antigo e irrelevante
de um novo cenário qualquer que não faço
idéia de qual será, mas aposto que o disco continuará
sendo capaz de deixar qualquer um perturbado, pois obras-primas
encerram em si essa característica de atemporalidade,
eternidade. Eternidade é uma palavra muito séria,
mas a rispidez, o riff e o solo de Smells Like Teen Spirit
são eternos, pode apostar. O singular título
da faixa de abertura de "Nevermind" pode até
lhe suscitar um sentimento de "mofo" quando meramente
pronunciada, de tanto que você já a escutou,
certamente. Mas no momento em que a mesma é executada,
o poder de sua frase básica na guitarra (por sinal,
nunca considerei sério aquele negócio de plágio
de uma música do Boston) e do vocal humano e atormentado
de Kurt no refrão detonam qualquer outra coisa que
esteja ocupando seu cérebro. É rancor e fúria
puros, expressos de uma maneira cristalinamente legítima,
e é só o começo de "Nevermind",
uma incrível sucessão de canções
impecáveis, executadas com uma paixão poucas
vezes registrada em um disco.
In Bloom, que explode nos tímpanos
enquanto Smells ainda ecoa na região, é a selvageria
do Nirvana primordial em uma embalagem mais acessível,
o primeiro passo para emplacar o grupo nos mercados exteriores
aos undergrounds americano e europeu (por onde a banda já
havia passado antes de lançar “Nevermind”).
Em outras palavras, In Bloom personifica bem a transição
do Nirvana punk inicial, aquele que gravara dois anos antes
a brilhante tosqueira intitulada “Bleach”, para
o Nirvana pronto para ser consumido pelo mundo todo. A categoria
usada para isso é absoluta, ativamente auxiliada pela
melodia você-ouve-e-nunca-mais-esquece-na-vida composta
por Cobain, e pelo dedo do produtor Butch Vig, que percebendo
o potencial e o alcance das composições de Kurt,
tratou de amaciar o barulho que o trio fazia, prevendo o que
viria a seguir. (Diz-se que a produção caprichada
de Vig inicialmente irritara Kurt, mas depois que as vendagens
começaram a ocorrer em um ritmo ligeiramente
maior do que o previsto, ele teria silenciado o discurso.
Bastante provável.)
As letras até aqui expõem
a tortuosa visão de mundo e de juventude de Cobain,
a simplicidade com que a banda conduz sua música é
categórica, e a inspiração altíssima
e direta. Come As You Are é a terceira faixa, certamente
a canção que introduziu o Nirvana no mundo
de muita gente. Particularmente, é uma das
preferidas, e também a primeira coisa de “Nevermind”
que eu ouvi. A clássica introdução traz
imediatamente muitas boas lembranças da adolescência,
que bloqueiam qualquer tentativa de escrever algo impessoal.
É outra música foda e ponto final, e me perdoem
o sentimentalismo (tenho certeza absoluta que coisa similar
ocorre com muita gente).
Breed, com seu riff chumbado,
solo sujo e ritmo alucinado, é das músicas mais
empolgantes de “Nevermind”. A banda sagazmente
posiciona ao longo do álbum duas outras músicas
de levada Blackflaguiana: enquanto Territorial Pissings é
um visceral e inesquecível momento de fúria
em forma de música (Kurt destruindo sem piedade sua
garganta só pode ser descrito por alguém que
domine termos medicinais), Stay Away pode ser vista, em equiparação
com as outras 12 canções do disco, como o mais
próximo possível de um engodo – sendo
que um engodo de “Nevermind”, comparado com grande
parte do nosso pálido rock atual, ainda assim soa uma
maravilha.
Possivelmente o maior triunfo
radiofônico do Nirvana, Lithium é a principal
representante da dinâmica verso-tranquilo-refrão-porrada
que ficou tão associado à banda. Sempre achei
isso meio equivocado e superficial, não creio que tal
fórmula apareça tão recorrentemente na
discografia do grupo. Mas era sem dúvida
uma carta na manga de Kurt. Assim sendo, Lithium é
uma carta grande, aquela que aparece e faz o cara ganhar o
jogo: uma música singela e poderosa, quase mágica.
Como explicar a exuberância de uma canção
onde predomina a repetição contínua de
uma interjeição, senão recorrendo à
arte de Houdini? “I'm so lonely, but that's okay, I
shaved my head / And I'm not sad / And just maybe I'm to blame
for all I've heard / But I'm not sure / I'm so excited, I
can't wait to meet you there / But I don't care / I'm so horny,
but that's okay / My will is good” é o lamento
apático e inerte que se arrasta ao longo da música,
quando Kurt não está simplesmente esgoelando
"yeaaaah yeahhhhhh". Na minha opinião, o
que atraiu multidões ao Nirvana foi de tudo um pouco,
mas, em último lugar, as letras de Kurt Cobain. Pode
crer que 99% das pessoas que dizem que curtem seus escritos,
se identificam com suas poesias e etc, estão forçando
a barra: estes são reflexos diretos de suas perturbações
e traumas, sem facilidades, tudo no mesmo grau de confusão
com que habitavam sua cabeça, antes dele resolver espalhá-la
nas paredes de um anexo de sua mansão em Seattle. Mas
não se tratam de letras imbecis quaisquer, um mínimo
de vocação de letrista Cobain tinha.
Polly, aqui em sua versão
violão e voz (bateria e baixo em rápidos momentos
estratégicos), funciona como a pausa para respirar,
o meio-tempo de “Nevermind”. Uma enigmática
e levemente depressiva canção que Kurt teria
composto baseado nas notícias de um estupro ocorrido
em Seattle. Seu vocal desinteressado e retraído vai
por cima da melodia palhetada calmamente no violão
velho, e é praticamente só isso. Depois de Polly,
a banda só desplugaria as guitarras novamente na última
faixa do disco, Something In The Way, bonita canção
de atmosfera sombria, enriquecida por um violoncelo. Expremido
entre estes dois momentos acústicos, está o
filé de “Nevermind”.
Drain You, Lounge Act e On
A Plain são as que com mais inspiração
consubstanciam os elementos já citados ao longo dos
parágrafos anteriores: a estética punk rock
de acordes descomplicados dando vida a melodias incisivas,
inesquecíveis; o foco desviado da perícia técnica,
do virtuosismo, para a alma das composições,
que brilham ao serem executadas da forma mais honesta e imaculada
possível; e a produção limpa e equilibrada
deixando esse conjunto palatável para os habitantes
de praticamente toda a superfície terrestre (ou pelo
menos, todos aqueles que gostem de música com guitarras).
O resultado é algo que lembra aquele conceito de equilíbrio
budista (Nirvana, saca?), o caminho do meio: algo que se posiciona
perfeitamente entre a candideza inofensiva do pop e o esporro
irado que afasta quem acha que, para se fazer arte, é
necessário certa sutileza. De qualquer forma, esses
dois extremos coexistem amigavelmente em "Nevermind".
Mas na segunda metade do disco, reina a perfeição.
Começa com Drain You,
que tem andamento feroz comandado pela bateria de Dave Ghrol,
e letra recheada de neuroses típicas de Cobain. Um
começo animalesco, com certeza, mas depois de uma ponte
verso-refrão precisa, vira covardia: Kurt freia o ritmo
exaltado do trecho inicial para dividir o microfone com Dave
(creio eu) em um fabuloso refrão, um refrão
sobrenatural com vozes pausadas e frouxas em contraste com
a guitarra no talo que, de mãos dadas, levam a melodia
para um nível algo celestial. Parece que o mundo pára
enquanto você ouve aquela dúzia de palavras do
refrão, uma espécie de transe maldito arrebatador
de dez segundos. Como um todo, a música é arrepiante,
sumariamente arrasadora. No disco, ela apresenta ainda alguns
efeitos em um curto interlúdio ali pro seu finzinho,
que acaba sendo a coisa mais sofisticada e alienígena
no álbum inteiro.
Lounge Act foi dedicada secretamente
por Kurt Cobain à Tobi Vail, do Bikini Kill, com quem
ele teve um breve envolvimento, e é uma das faixas
injustamente menos festejadas do Nirvana. Aqui novamente tudo
é perfeito: a linha marota do baixo de Krist Novoselic
fazendo as honras, a astúcia da melodia, a última
frase do verso se transformando no refrão em um único
fôlego de Kurt, a gritaria rasgada na segunda parte
da música (nos estúdios deve ter rolado um diálogo
do tipo: [Butch Vig] “Kurt, essa gritaria é suicídio,
vai assustar o ouvinte”, no que Kurt respondeu: “perae,
nós já cedemos no que diz respeito a microfonia,
mas na minha gritaria ninguém mexe”). Sabe aquela
famosa pergunta, “quem será o novo Nirvana”,
que passou a ser bastante comum após o fim da banda?
Lounge Act responde: simplesmente não haverá.
Bandas que vendem tanto quanto o Nirvana vendeu, certamente
aparecerão, mas que faça música como
o Nirvana fazia, não.
Já On A Plain concilia
um clima melódico mais solene e hermético com
uma das linhas de guitarra mais infladas e angulares do disco,
servindo de base para Kurt mandar mais um discurso de conteúdo
enviesado, pessoal, tudo isso em um fluxo contínuo
que exala uma sobriedade de certa maneira inédita no
álbum. A faixa é hipnótica e detém
a atenção do ouvinte, que apura os ouvidos para
captar seus últimos acordes que vão sumindo
em fade-out. O cara definitivamente tinha a manha de fazer
música; meu último elogio ao cérebro
por trás desse disco é simples assim.

essa foto nem precisava de
legenda
É estranho escrever
uma resenha de um disco tão conhecido, tão falado,
tantas vezes já resenhado. Mas a inspiração
que ele suscita é irresistível. O cara vai escrevendo,
tentando transmitir suas idéias, e percebe que está
falando de algo que é mais do que um conjunto de boas
músicas. Percebe que, conquanto existam sempre os detratores
e os filhotes do supracitado processo de “cuspir no
prato em que comeu”, que muitos acabam aderindo ao se
acharem adultos ou inteligentes ou true demais para
ouvir Nirvana, “Nevermind” mantém uma impressionante
taxa de influência, de rotação, de pulsação
em nossa memória musical. Uma guitarra, um baixo, uma
bateria e um cara cantando sobre o que se passa em sua cabeça
- mas o rock 'n' roll não é simplesmente isso,
desde sempre? A diferença é que em "Nevermind",
esses elementos transmitem uma gana extraordinária
e um talento incomum, sintetizados em um formato puro, sem
firulas, impassível de comparações, acusações
de revisionismo, plágio e falta de personalidade, perpetrado
por sujeitos normais, com roupas normais e crenças
ingênuas sobre música. Algo meio saudoso, nos
dias de hoje. A conclusão única que se pode
chegar diz que “Nevermind” é duas coisas:
um marco e o disco.
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