Andando na contramão
Há cinco anos Kurt Cobain se despedia da vida
e dos fãs com a mesma sinceridade e honestidade que nortearam
a carreira do Nirvana
Foram três dias conturbados.
A angústia manifestava-se sem parar, embora não se soubesse
o porquê. Dor batendo forte no peito e uma vontade enorme
de chorar. Sem parar. Na terceira noite, um barulho no quarto
com a velocidade de um carro de fórmula 1. Parecia que alguém
havia passado mas não podia ficar muito tempo. Nem podia
ficar. Até que a manhã de sexta-feira chegou. O dia amanheceu
tranqüilo, com passarinhos cantando alegres pelas árvores
e ruas sem muito movimento. O desespero impertinente se
dissipara, sem deixar rastros.
Sexta-feira, dia 8 de abril
de 1994. A toda hora a tevê traz a notícia que todo mundo
esperava mas ninguém queria ouvir. Depois de três dias de
muito mistério, finalmente a polícia de Seattle encontrava
Kurt Cobain. O corpo estava estirado, no chão da garagem.
Uma bala solitária na cabeça e um bilhete de despedida junto
ao vaso derrubado. Milhões de pedidos de desculpas. Aos
fãs, à mulher, à filha pequena de dois anos, à mãe. Acabava-se
ali o grande sonho de reconstrução de um rock'n'roll verdadeiro,
sincero, com a mesma honestidade que deveria ter existido
desde o início.
Kurt é quase unanimidade
quando apontado como o principal nome da música deste século
- afirmações contrárias sempre existirão, porém nunca se
desvincularão do teor emocional contra Cobain ou a favor
de qualquer outro artista. Mas o fato é que ninguém mais
conseguiu mexer tão a fundo com as sensações e emoções de
um planeta inteiro.
Celeuma
Um caipirão dos cafundós
do território americano, mais precisamente de Aberdeen (pequeno
município próximo às cidades de Olympia e Seattle, ambas
dois grandes centros de produção de rock independente americano)
que tem obsessão por artes (pintura, música, poesia) e armas
sai de sua granja para varrer de assalto o globo azul e
verde. Na música, provoca uma total e completa inversão
de valores. E para o bem - afinal, Kurt provou por A + B
que o personagem mais fácil para um popstar interpretar
seria o dele mesmo. Sem maquilagem e arrogância. Sem grandes
pompas ou sustentação de enfadonhos pseudocaráteres. Sem
barreiras frente a seu público. E na moda, faz uma indústria
inteira querer vestir o uniforme dos lenhadores e jovens
entediados da região - isto é, bermudões, sapatos pesados,
camisas xadrez e gorros para espantar o frio da cabeça.
Influência maior, porém,
Kurt Cobain provocou no quesito comportamento. Em uma época
na qual nenhuma grande mudança pode acontecer sem ter por
trás o patrocínio da grande indústria, do corporativismo,
o guitarrista fez todos os incrédulos e provectos senhores
escravos da ideologia executivista (como o termo não existe,
fica aqui uma proposta de neologismo) que a fé realmente
pode mover montanhas.
Traduzindo: mesmo com anos
e anos de atraso, a filosofia punk do faça-você-mesmo balançou
todas as estruturas sócio-econômico-culturais. Tanto que
uma reles bandinha independente americana provocou uma grande
celeuma. Como todos nós não aprendemos na escola, tudo que
é corpo estranho ainda devidamente não-identificado é capaz
de provocar e despertar as mais diversas (e controversas)
reações das pessoas devidamente catalogadas para a função
da etiqueta.
Com o grunge, vertente mais
poderosa do grande rock independente americano que vinha
se articulando há duas décadas, aconteceu isso. Mesmo com
todo o descrédito, incomodou - a primeira reação do corporativismo
foi tachar tudo o que vinha dos porões como "alternativo"
(alternativo a quê? Então o que é o "normal"?).
E foi tão mais além, a ponto de provocar a mais rápida atitude
do serial pensamento industrial que governa a nossa vida.
Para ser destruído, o grunge (e, conseqüentemente todo o
rock alternativo) foi rapidamente absorvido pelo sistema.
Melhor do que lutar contra o inimigo é aniquilá-lo colocando-o
habilmente para fazer parte do seu jogo e ter as mesmas
regalias.
O Nirvana não foi o único
grande prejudicado nesta história de absorção. Mas certamente
Kurt Cobain entrou para a história como o grande mártir
da década. Sua simplicidade - doçura e ingenuidade - era
extremamente incompatível com a voracidade da indústria
cultural. Ao mesmo tempo em que só queria tocar e se divertir,
acabou sendo o protagonista de uma disfarçada caça às bruxas.
Da fisionomia frágil (tinha escoliose e fortes e incessantes
dores estomacais), acabou escolhendo o caminho das drogas
para fugir dos poderosos tentáculos que lhe abraçavam e
batiam ao mesmo tempo. As drogas também serviam para combater
as tais dores. Quanto mais dores, quanto mais frustração
com a vida e a carreira, mais drogas.
A situação chegou ao incontrolável,
afetando o casamento e a trajetória do Nirvana. Depois de
tanta confusão e desesperança, tentou enfim cumprir a velha
ameaça de se matar. Em março de 1994, durante uma passagem
da banda por Roma, tomou uma overdose de Roypnol (remédio
fortíssimo para tratar ansiedade e insônia, proibido em
todo o território americano) e ficou em coma por vinte horas.
Se a primeira tentativa foi em vão, na segunda não houve
falha. Enquanto a mulher Courtney Love passava uns dias
fora para lançar o novo disco de seu grupo, o Hole, Kurt
se trancou em casa e mandou uma bala contra a própria cabeça.
Não se pode ter a exatidão de quando aconteceu o tiro. O
corpo, de apenas 27 anos, foi achado no dia 8 de abril e
médicos legistas informaram que o disparo pode ter ocorrido
entre 24 a 48 horas antes.
História
Voltando um pouquinho mais na história, não é difícil identificar
as razões que levaram a improvável cidade de Seattle (situada
no noroeste americano, no estado de Washington) a se transformar
na grande meca musical fin-de-siécle. O que mais se pode
fazer em um lugar onde chove o dia inteiro e quase todos
os dias? Adolescentes e quem mais não acaba sendo tomado
pelo tédio e o jeito é ficar trancado em casa. E a única
saída para exorcizar toda a veia expressiva sublimada pelo
tempo ruim é cair para o lado das artes. Ponto pacífico
número um: todo adolescente sempre acabou fazendo parte
de uma banda de rock em Seattle.
Mas havia algo mais, um elemento
simples, porém bastante eficaz, que fez a diferença nas
produções locais. Longe de tudo geográfica e culturalmente,
os grupos puderam desenvolver identidade própria - da mesma
forma que os japoneses desprezaram o capital estrangeiro
e passaram a construir após a Segunda Guerra uma das maiores
potências econômicas mundiais. Apenas algumas pitadas do
pré-existente (heavy metal, hardcore, punk, new wave) foram
adicionadas para aguçar o tempero. Algo semelhante ao consistente
rock curitibano, que sempre insistiu em caminhar por pernas
próprias, independente de interferências "estrangeiras".
Seattle e o Nirvana acabaram
entrando para a história confirmando o velho ditado que
diz que Deus escreve certo por linhas tortas. Um grupelho
qualquer, munido apenas de despretensão e talento, mudou
todo o rumo da história, desbancando popstars egocêntricos
e tirando do caminho tudo o que era fake demais. Obrigado,
Kurt. Obrigado.
Para
ver e ouvir
Bleach
Sub Pop/Geffen - 1989
O mítico primeiro álbum do
grupo, gravado antes da entrada de Dave Grohl e com o orçamento
chulé de apenas 613 dólares. Sob a batuta de Jack Endino,
produtor e padrinho de todas as boas bandas de Seattle no
final da década passada, Cobain, Novoselic e Chad Channing
(o segundo guitarrista Jason Everman está creditado, embora
não tenha participado das gravações) são flagrado em seu
estado mais cru e bruto. São perceptíveis influências do
peso e dos riffs circulares do Black Sabbath ("Blew",
"School", "Big Cheese") e das distorções
e microfonias punk do Sonic Youth ("Paper Cuts",
"Downer", "Negative Creep"). O Nirvana
também já apontava em "About A Girl" os grandes
caminhos extremamente melódicos que se consolidariam em
parte marcante de seus arranjos. *
Nevermind
Geffen - 1991
Em meio à caça desenfreada
das grandes gravadoras por nomes do circuito alternativo,
a poderosa Geffen não poderia ter feito melhor ao chamar
o produtor Butch Vig para lapidar o diamante em estado bruto.
Vig transformou a pancadaria do grupo em algo perfeitamente
acessível e palatável. O disco, que chegou a vender nos
Estados Unidos 35 mil unidades diárias em seu primeiro ano
de existência, tira o fôlego de qualquer um. Traz um petardo
após o outro, sem dó nem piedade para ouvidos mais sensíveis.
Considerado o principal álbum da década (obra-prima perfeita
para uns, um dos dez melhores discos do rock'n'roll de todos
os tempos para outros), Nevermind fez a festa em hits ("Smells
Like Teen Spirit", "Come As You Are", "In
Bloom", "Lithium", "Breed", "Polly",
"Drain You", "On A Plain", "Territorial
Pissings") e catapultou o trio ao superestrelato. O
Nirvana vocifera contra a apatia generalizada de sua geração
e deixa para a posteridade riffs, refrões e faixas inesquecíveis.
*
Sonic Youth In 1991 - The
Year That Punk Broke
Geffen - 1991
Neste homevídeo protagonizado
pelo Sonic Youth, banda que o levou para a Geffen, o Nirvana
faz uma participação mais que especial tocando algumas músicas,
entre elas o hit dos hits "Smells Like Teen Spirit".
*
Incesticide
Geffen - 1992
Lançado no período de entressafra
pós-estrelato. Enquanto o trio curtia uma de popstar, o
disco saciava a sede dos fãs com gravações raras, versões
ao vivo, covers e músicas anteriormente lançadas apenas
em compactos. A destruição continua em faixas curtíssimas
como "Dive", "Stain", "(New Wave)
Polly", "Sliver", "Been A Son",
"Turnaround" (cover do quinteto new wave Devo)
e em duas regravações do grupo alternativo escocês Vaselines,
"Molly's Lips" e "Son Of A Gun". *
In Utero
Geffen - 1993
Divisor de águas da carreira, este disco antecipou a grande
trajetória descendente do trio. Gravado às turras entre
os músicos e o produtor Steve Albini, o disco teve um parto
complicado, à fórceps. Com arranjos mais elaborados, não
refletia a crueza punk que marcou a ascensão do Nirvana
- embora contasse com grandes composições como "Serve
The Servants" e "Heart-Shaped Box". O álbum
também enfrentou boicote (por causa de "Rape Me",
canção claramente anti-estupro escrita com muito sarcasmo)
e a barra começou a pesar para Kurt, que, antecipadamente,
se desculpa pela fama nos versos de "All Apologies"
(a faixa "I Hate Myself And I Want To Die" acabou
excluída da edição final para não incitar os fãs à morte).
Shows ficaram menos freqüentes por causa de confusões com
a mulher Courtney Love e o envolvimento pesado com drogas.
Poucos meses depois, no período de vinte dias, haveria uma
tentativa de suicído, o anúncio do fim do grupo e a bala
fatal na cabeça. *
Unplugged In New York
Geffen - 1994
É notório que o grupo sempre
sofreu com as grandes pressões da indústria cultural e do
Showbizz. Mas se não conseguiu escapar da febre de especiais
acústicos provocada pela MTV nesta década, pelo menos aprontou
das suas no repertório. O trio deixou de lado muitos hits
óbvios e optou por tocar muitas faixas secundárias de seus
álbuns (como "Dumb", "Pennyroyal Tea",
"Something In The Way") e covers de ídolos/amigos
como Meat Puppets (que ainda dão uma palhinha no show),
Vaselines e David Bowie. Pat Smear, que formaria depois
o Foo Fighters com Grohl, iniciou aqui sua série de participações
como convidado especial. *
Nirvana Live! Tonight! Sold
Out!
Geffen - 1994
Lançado pouco tempo depois
do suicído de Cobain, o primeiro e até agora único homevídeo
do Nirvana documenta toda a trajetória de sucesso pós-Nevermind.
Compila shows, entrevistas e cenas de bastidores gravadas
entre 1991 e 1993. *
From The Muddy Banks Of
The Wishkah
Geffen - 1996
Kurt Cobain se esganiçando
desesperadamente, altas distorções e uma bateria desenfreada.
O minuto de abertura deste disco capta fielmente o ritual
de destruição que eram os shows do Nirvana. Kurt Cobain
parecia sempre estar tomado por uma entidade e dominava
o palco com berros, urros, murmurros, guitarras desafinadas
(e muitas vezes aceleradas, puxando baixo e bateria rumo
à velocidade total). Ao final de tudo, um grande quebra-quebra
de instrumentos. Kits de bateria e muitas guitarras eram
sacrificadas em meio à grande celebração do barulho e da
microfonia. Quem teve o privilégio de assistir in loco a
uma apresentação sabe que era impossível não ficar arrepiado
e paralisado. Até quase duas horas qualquer reação era impossível.
Até hoje ninguém consegue explicar direito o que o Nirvana
significava em cima dos palcos. *
Hype!
Sub Pop - 1996
O filme que conta a ascensão
e queda do rock de Seattle não poderia deixar de ter uma
participação do maior grupo da cidade. O Nirvana aparece
tocando (na fita e na trilha) "Negative Creep"
e todo o frenesi causado pelo grupo é retratado da forma
mais direta possível. A cena mais chocante é uma câmera
subjetiva passeando pela escada rolante de um grande magazine
enquanto "Smells Like Teen Spirit" rola de fundo
em uma versão instrumental que parece feita sob encomenda
para elevadores e salas de espera de consultórios.
* Discos e vídeos lançados
no Brasil e ainda mantidos em catálogo pela gravadora Universal.
** O Nirvana fez participações
em coletâneas e participações em tributos (Velvet Underground,
Kiss). Algumas destas faixas próprias nunca foram incluídas
em seus álbuns, como "Spank Thru" (Sub Pop 200,
Sub Pop, 1988) e "Pay To Play" (DGC Rarities,
Geffen, 1994). No Brasil foram lançadas "Verse Chorus
Verse" (No Alternative, Arista/BMG, 1993) e "I
Hate Myself And I Want To Die" (The Beavis And Butt-Head
Experience, Geffen/Universal, 1994).
[Gazeta do Povo, 2 de abril de 1999]
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