Kurt
Cobain : A Entrevista à Rolling Stone
ver original
Nosso homem no Nirvana diz
sobre estrelato, paternidade, sua rixa com o Pearl Jam, a
morte do grunge e porque ele nunca esteve mais feliz em sua
vida.
David Fricke
Traduzioo por Gabriel Tonelo, revisado por Alexandre Lopes
Sem camisa, o desgrenhado Kurt
Cobain pára na escadaria dos bastidores que levam ao
camarim do Nirvana no Aragorn Ballrom, em Chicago e diz, cabisbaixo,
“Estou realmente contente que você pôde
assistir ao pior show da turnê”. Ele está
certo. O concerto de hoje – O segundo dos 2 shows no
Aragorn, na primeira semana da turnê da banda nos EUA
em 2 anos – foi horrível. O som cavernoso do
lugar torna até torpedos corrosivos como “Breed”
e “Territorial Pissings” em jogação
de riffs, e Cobain é assombrado a noite toda por problemas
da guitarra e de seu monitor de voz. Existem momentos de brilho:
o grito de Cobain através do eco de penhasco do Aragorn;
o refrão explosivo de “Heart-Shaped box”,
a curta mas atordoante “Sliver”, com poder tórrido
do guitarrista convidado para a turnê, Pat Smear (ex-Germs).
Mas não há “Smells like Teen Spirit”,
e quando as luzes da casa são ligadas, ouve-se um grande
coro de vaias.
De acordo com o mito da imprensa
de Cobain – “nervoso, reclamador, neurótico
esquizofrênico”, como ele mesmo pôs –
o vocalista e guitarrista de 26 anos deveria ter despedido
o técnico de som, cancelado a entrevista e voltado
para seu quarto de hotel para relaxar. Ao invés disso,
ele gasta seu tempo de descanso nos bastidores mimando sua
filha, Frances Bean Cobain, de um ano, uma pequena beleza
loira que perambula pela sala com um sorriso para todos em
seu caminho. Mais tarde, no hotel, armado com nada mais pesado
que um maço de cigarros e duas garrafas de água
Evian do frigobar, Cobain está em um humor pensativo,
discursivo, tomando grandes dores para explicar que o sucesso
não é tão horrível assim –
não o quanto era, pelo menos – e que sua vida
está muito boa. E ficando melhor.
“Foi tão rápido e explosivo”, ele
diz numa voz grave, de sono, de sua primeira crise de confidência
seguindo o sucesso balístico de Nevermind. “Eu
não sabia como lidar com o sucesso. Se houvesse um
curso de Rock Star, eu iria gostar de fazê-lo. Poderia
ter me ajudado.”
“Eu ainda vejo coisas,
descrições de Rock Stars em alguma revista –
‘Sting, o racional’ e ‘Kurt Cobain, o chorão,
reclamão, neurótico que odeia tudo, odeia estrelato,
odeia sua vida’. E eu nunca estive mais feliz em minha
vida. Especialmente durante a última semana, porque
os shows correram muito bem – exceto hoje. Sou um cara
muito mais feliz do que muita gente acha que eu sou.”
Cobain tomou alguns desvios
longos e difíceis para atravessar o ano passado. A
construção de In Utero, o esperado álbum
de estúdio que deu seqüência a Nevermind,
passou, ao último minuto, por mudança de título
e de faixas, assim como uma briga pública entre a banda,
sua gravadora, DGC e o produtor Steve Albini sobre o potencial
comercial do álbum – ou falta do mesmo. O casamento
de Cobain com a cantora punk-noir Courtney Love, da banda
Hole – sonho de consumo para fofocas de rock desde que
o casal trocou votos em fevereiro de 1992 – foi colocado
em questão , Junho passado, quando Cobain foi preso
pela polícia de Seattle por causa de uma briga doméstica
com Love. A polícia achou 3 armas na casa, mas nenhuma
carregada. E o caso foi fechado.
Ano passado, Cobain também
se limpou de seu muito falado vício de heroína,
clamando que usava a droga – ao menos, em parte –
para burlar severa, crônica dor de estomago. Ou como
ele põe nessa entrevista, “para me medicar”.
Agora ele está livre das drogas, e agradece à
nova medicação e uma dieta melhor. Seu sistema
digestivo, ele diz, está na estrada para a recuperação.
Mas as raízes de sua
raiva, pública e pessoal, são muito mais em
baixo. Nascido perto da cidade de Aberdeen, Washington, Cobain
é – como o baixista do Nirvana, Krist Novoselic,
o baterista Dave Grohl e uma grande porcentagem dos jovens
fãs da banda – o produto de um lar quebrado.
O filho de um mecânico e uma secretária que se
divorciaram quando ele tinha 8 anos. Cobain teve, cedo, aspirações
como um artista comercial e ganhou um número de concursos
de arte, no colegial; agora ele produz muito do trabalho de
arte do Nirvana. (Ele fez a colagem de fetos de plástico,
na parte de trás de In Utero, que fez com que o disco
fosse banido no Kmart e no Wal-Mart.)
Mas depois de se formar, Cobain
deixou de lado uma bolsa de estudos em uma escola de arte
e viveu a vida de “Adolescente vagabundo”, trabalhando
como roadie na banda punk local The Melvins. (isso quando
ele estava trabalhando) e se aplicando à composição.
“Eu nunca quis cantar”,
Cobain insiste agora. “Eu só queria tocar guitarra
base – me esconder no fundo e simplesmente tocar. Mas
durante aqueles anos de colegial , enquanto eu estava tocando
guitarra no meu quarto, eu ao menos tinha a intuição
que,deveria escrever minhas próprias músicas.”
Por um bom tempo, depois do
Nirvana pular de banda pequena do selo Sub Pop para super
Deuses grunge – eles ganharam os troféus de Melhor
Banda e Melhor Álbum na enquete de 1994 da Rolling
Stone – Cobain não pôde decidir se seu
talento era uma bênção ou uma maldição.
Ele finalmente conscientizou-se de que é um pouco dos
dois. Está incomodado com o fato das pessoas pensarem
nele mais como um ícone do que um compositor e ainda
teme que In Utero pode acabar com o som do Nirvana, cristalizado
em “Smells Like Teen Spirit”. Cobain continua
profundamente desacreditado com o “négocio musical”
, mas diz que ele sofreu uma reviravolta completa em sua atitude
a frente da massa Punk-wannabe.
“Eu não tenho
tantos julgamentos sobre eles quanto eu costumava ter.”
Cobain, diz, quase como uma desculpa. “Eu citei termos
sobre por que eles estão lá e por que nós
estamos aqui. Não me incomoda mais ver este Neandertal
com bigode, fora de si, bêbado, cantando junto em “Sliver”.
Isso me enlouquece agora.
“Eu fiquei aliviado de
tanta pressão no último um ano e meio”,
Cobain diz com alívio discernível em sua voz.
“Eu ainda estou pasmo com isso”. Ele cita os motivos
de seu contentamento : “Lançar esse disco. Minha
família. Minha Filha. Conhecer William Burroughs e
fazer um disco com ele.”
“Simplesmente pequenas coisas que ninguém poderia
reconhecer ou se importar com.” Ele continua. “E
tem muito a ver com esta banda. Se não fosse por esta
banda, essas coisas nunca teriam acontecido. Eu estou muito
agradecido, e todo mês eu chego a conclusões
mais otimistas.”
“Eu espero” Cobain
acrescenta, sorrindo levemente, “que não vire
tão gracioso que fique tedioso. Acho que sempre serei
neurótico o suficiente para fazer algo maluco”
Junto com tudo que deu
errado no palco, esta noite, vocês saíram sem
tocar “Smells like teen spirit”. Por que?
Isso teria sido a gota d’água.
Teria feito tudo duas vezes pior.
Eu nem me lembro do solo de
“Teen Spirit”. Teria que sentar por 5 minutos
e “reaprender” o solo. Mas não estou interessado
nesse tipo de coisa. Não sei se isso é muita
preguiça e eu não me importo mais ou o que.
Ainda gosto de tocar Teen Spirit, mas é quase uma vergonha
tocá-la.
De que modo? A enormidade
de seu sucesso (Teen Spirit) ainda te incomoda?
Sim. Todos focaram os olhos
demais nessa música. A razão pela qual ela ganha
grandes reações é que todos a viram na
MTV um milhão de vezes. Foi enfiada nos cérebros
das pessoas. Mas eu acho que há muitas outras músicas
que eu escrevi que são tão boas quanto, se não,
melhores. Como Drain You. Essa é definitivamente tão
boa quanto Teen Spirit. Amo a letra dela e não me canso
de tocá-la. Talvez se fosse tão comprida quanto
Teen Spirit, eu não gostaria tanto. Mas posso, especialmente
numa noite ruim, deixar Teen Spirit de lado. Eu literalmente
quero jogar minha guitarra no chão e ir embora. Não
posso fingir estar me divertindo tocando-a.
Mas você deve ter
gostado de escrevê-la.
Nós estávamos
ensaiando por 3 meses. Estávamos esperando assinar
com a DGC, e Dave (Grohl) e eu estávamos morando em
Olympia (Washington), e Krist (Novoselic) estava morando em
Tacoma (Washington). Nós íamos a Tacoma todas
as noites para ensaiar, tentando escrever músicas novas.
Eu estava tentando escrever a melhor música pop. Basicamente,
estava tentando desbancar os Pixies. (sorrisos)
Quando escutei os Pixies pela
primeira vez, eu me “conectei” com aquela banda
tão bruscamente que deveria ter tocado naquela banda
– ou ao menos, em um cover dos Pixies. Nós usávamos
o senso de dinâmica deles, sendo suaves e quietos, e
depois, altos e pesados.
Teen Spirit foi um riff clichê.
Chegava perto de um riff do Boston, ou “Louie, Louie”.
Quando eu mostrei a parte da guitarra, Krist olhou para mim
e disse : “Isso é tão ridículo”.
Fiz a banda tocá-la por uma hora e meia.
De onde a frase “Here
we are now, entertain us” veio?
Isso veio de algo que eu costumava
dizer toda vez que eu entrava em uma festa, para quebrar o
gelo. Várias vezes, enquanto você está
junto com outras pessoas em uma sala, é realmente tedioso
e desconfortável. Então foi algo do tipo “Bem,
aqui estamos nós, divirta-nos. Você convidou-nos
aqui.”
Como você se sentiu
assistindo algo que você escreveu de brincadeira, em
homenagem a uma de suas bandas favoritas, virar o hino nacional
do grunge, sem mencionar um momento definitivo no marketing
juvenil?
Na verdade, nos tivemos nosso
prestígio por um tempo. Por alguns anos em Seattle,
foi “um mar de rosas”, e foi maravilhoso. Ser
possível pular no público com minha guitarra
e ser levantado , empurrado para o fundo do lugar e depois
puxado para o palco sem nenhum dano a mim – foi uma
celebração de algo que ninguém poderia
acreditar.
Mas uma vez que eu cheguei
ao “mainstream”, tudo isso acabou. Eu estou cansado
de ficar envergonhado por isso. Estou acima disso.
Esta é a primeira
turnê americana que você fez desde o outono de
91, logo antes de Nevermind explodir. Por que vocês
ficaram longe da estrada por tanto tempo?
Eu precisava de tempo para
colocar meus pensamentos em ordem. O sucesso me pegou bruscamente,
e eu tinha a impressão de que eu não precisaria
sair em turnê, pois estava ganhando um bocado de dinheiro.
Milhões de dólares. 8 milhões para 10
milhões de discos vendidos – isso soou como muito
dinheiro para mim. Então pensei em relaxar e aproveitar.
Não quero usar isso
como desculpa, e isso veio a tona várias vezes, mas
minha doença estomacal estava sendo uma das maiores
barreiras que impedia-nos de sair em turnê. Eu estava
lidando com ela por muito tempo. Mas depois que uma pessoa
experiência dor crônica por 5 anos, no momento
que esse quinto ano acaba, você está literalmente
insano. Eu não conseguia lidar com nada. Estava tão
esquizofrênico quanto um gato molhado que levou uma
surra.
Quanto dessa dor física
você acha que se canalizou em sua composição?
Essa é uma pergunta
assustadora, pois, obviamente, se uma pessoa está tendo
algum tipo de distúrbio em sua vida, isso é
usualmente refletido na música, e às vezes é
bastante benéfico. Acho que provavelmente me ajudou.
Mas abriria mão de tudo para ter uma boa saúde.
Eu quis fazer essa entrevista depois que estivemos em turnê
por um tempo, e até agora, essa foi a melhor turnê
que já fiz. Honestamente.
Não tem nada a ver com
lugares maiores, ou pessoas puxando nosso saco mais. É
simplesmente o fato que me estômago não está
me incomodando mais. Eu estou comendo. Comi uma pizza enorme
ontem. Foi muito bom poder fazer isso. Simplesmente aumenta
meus espíritos. Mas, então, eu sempre tive medo
de que se eu perdesse meu problema no estômago, eu não
seria tão criativo. Quem sabe? (Pausa) Não tenho
músicas novas no momento.
Em todo álbum que fizemos
até agora, nós sempre tínhamos de uma
a três músicas que sobraram das sessões.
E normalmente sobraram músicas muito boas que nós
realmente gostamos, então sempre tínhamos algo
para confiar – um hit, ou algo que estava acima da média.
Então, este próximo disco será realmente
interessante, pois eu não tenho absolutamente nada
sobrando. Estou começando do zero pela primeira vez.
Não sei o que vamos fazer.
Uma das músicas
que vocês cortaram do In Utero no último minuto
foi “I Hate Myself and I Want to Die”. O quão
literalmente você quer dizer isso?
Tão literal como uma
piada pode ser. Nada mais que uma piada. E Isso teve um pouco
a ver com o porque que decidimos tirá-la. Nós
sabíamos que as pessoas não entenderiam, eles
levariam-na muito a sério. Ela foi totalmente satírica,
tirando sarro de nós mesmos. Eu penso naquele nervoso,
reclamador, neurótico esquizofrênico que quer
se matar o tempo todo. “Ele não está satisfeito
com nada”. E eu achei que tinha um título engraçado.
Eu queria que tivesse sido o título do álbum
por um bom tempo. Mas sabia que a maioria das pessoas não
entenderia.
Você já foi
consumido com aflição, dor ou raiva que você
realmente teve vontade de se matar?
Por cinco anos, durante o tempo
que tive meu problema de estômago, sim. Queria me matar
todos os dias. Cheguei muito perto disso várias vezes.
Lamento-me por embrandecer isso. Chegou ao ponto que eu estava
em turnê, deitado no chão, vomitando ar pois
não conseguia segurar água no estômago.
E depois eu tinha que fazer um show em 20 minutos. Eu iria
cantar e tossir sangue.
Isso não é maneira
de se viver uma vida. Amo tocar, mas algo não estava
certo. Então eu decidi me medicar.
Mesmo que satírica,
uma música dessa pode atingir os nervos. Há
um bocado de garotos por aí que, por diferentes razões,
realmente sentem-se suicidas.
Isso define bem nossa banda.
É as duas dessas contradições. É
satírico, e é sério ao mesmo tempo.
Que tipo de carta você
recebe de seu fãs, hoje em dia?
(Longa pausa) Eu costumava
ler minhas cartas bastante, e realmente me envolvia com isso.
Mas fiquei tão ocupado com este disco, com o vídeo,
com a turnê, que nem me preocupei em ler uma única
carta, e me senti muito mal com isso. Nem tive energia suficiente
para publicar nosso fanzine, que era uma das coisas que íamos
fazer para combater toda a mídia ruim, só para
poder mostrar um lado mais realístico da banda.
Mas isso é realmente
difícil. Tenho que admitir que me achei fazendo as
mesmas coisas que muitos outros “rock stars” fazem,
ou são forçados a fazer. O que é não
poder responder cartas, continuar fazendo o mesmo tipo de
música. E eu estou um bocado “trancado”.
O mundo exterior é realmente desconhecido para mim.
Sinto-me muito, muito sortudo
de poder sair para um “club”. Como uma outra noite,
nós tivemos uma noite livre em Kansas City. Mo., e
Pat (Smear) e eu, não tínhamos nem idéia
de onde estávamos ou para onde ir. Então ligamos
para a estação de rádio universitária
local e perguntamos o que estava rolando. E eles não
sabiam! Então ligamos para um certo bar, e o “Treepeople”,
de Seattle, estava tocando.
E foi que eu conheci três
pessoas muito, muito legais , lá. Garotos muito legais
que tocavam em bandas. Realmente tive uma noite muito boa
com eles. Convidei-os até o hotel, e eles ficaram lá.
Pedi serviço de quarto para eles. Provavelmente me
excedi, tentando ser um bom anfitrião. Mas foi muito
bom saber que eu ainda posso fazer isso, que ainda posso achar
amigos.
E eu achei que não seria
possível. Alguns anos atrás, nós estávamos
em Detroit, tocando em certo “club”, e umas 10
pessoas apareceram. Na porta ao lado, havia um bar, e Axl
Rose chegou com 10 ou 15 guarda-costas. Foi toda aquela extravagância;
todas aquelas pessoas estavam cortejando-o. Se ele simplesmente
tivesse entrado lá sozinho, não teria sido nada
demais. Mas ele queria isso. Você cria atenção
para atrair atenção.
O que você acha do
Pearl Jam agora? Houveram rumores que você e Eddie Vedder
deveria estar na capa daquela revista Time juntos.
Eu não quero entrar
nesse assunto. Uma das coisas que eu aprendi é que
“escrachar” as pessoas simplesmente não
me faz nenhum bem. E é muito triste, pois todo o problema
com a rixa entre Nirvana e Pearl Jam rolou por muito tempo
e está chegando muito perto se ser arrumada.
Nunca foi inteiramente
claro do que essa rixa com Vedder se tratou.
Nunca houve uma. Eu falei mal
deles porque eu não gostava da banda deles. Não
tinha conhecido Eddie naquele tempo. Foi minha culpa; eu deveria
ter falado mal da gravadora ao invés deles. Eles foram
objetos de marketing – provavelmente não contra
a vontade deles – mas sem eles se conscientizarem que
estavam sendo empurrados no “grunge bandwagon”.
Você não tem
empatia com eles? Eles estiveram sob a mesma pressão
de “álbum seguinte” que vocês estiveram.
Sim, eu sinto. Exceto que eu
tenho certeza que eles não foram longe do caminho deles
para desafiar o público deles como nós fizemos
nesse disco. Eles são uma banda de rock segura. Eles
são uma agradável banda de rock que todos gostam.
(Risos) Deus, eu tive citações sobre isso muito
melhores, em minha cabeça, que essas.
Meio que me irrita saber que
nós trabalhamos duro para fazer um álbum inteiro
cheio de músicas que são tão boas quanto
possíveis. Vou inflar meu ego se dizer que nós
somos melhores que muitas bandas por aí. O que eu percebi
é que você precisa somente de algumas músicas
pegajosas em um álbum, e o resto pode ser lixo. Se
eu fosse esperto, eu teria salvo a maioria das músicas
do Nevermind e espalhado-as em um período de 15 anos.
Mas não posso fazer isso. Todos os álbuns que
gostei foram álbuns que traziam uma música excelente
após a outra : Rocks, do Aerosmith, Never Mind the
Bullocks, do Sex Pistols, Led Zeppelin II, Back In Black,
do AC/DC.
Você também
já disse que é um grande fã de Beatles.
Ah, sim. John Lennon foi definitivamente
meu Beatle favorito. Não sei quem gravou que partes
das músicas dos Beatles, mas Paul McCartney me envergonha.
Lennon era obviamente perturbado (risos). Então eu
poderia me relacionar a isso.
E , dos livros que li –
e eu sou muito cético em qualquer coisa que leio, especialmente
em livros de rock – realmente me lamentei por ele. Ser
trancado naquele apartamento. Apesar dele ser completamente
apaixonado por Yoko e por sua criança, sua vida era
uma prisão. Ele estava preso. Não é justo.
Esse é o X do problema que eu tive me tornando uma
celebridade – O modo que as pessoas tratam as celebridades.
Precisa ser mudado. Realmente precisa.
Não importa o quanto
você tente, sempre parece como que se você não
se importasse com isso. Eu entendo como uma pessoa pode se
sentir desse modo e quase ficar obcecado por isso. Mas é
muito difícil convencer as pessoas do contrário.
Só leve na boa, tenha um pouco de respeito.
In Utero pode ser o mais
antecipado, comentado e discutido álbum de 1993. Você
não sentiu, a qualquer momento, durante todas as trocas
de título e a instigação da imprensa
feita por Steve Albini, que tudo estava ficando idiota? Afinal
de contas, é só um álbum.
Sim. Mas estou acostumado (risos).
Enquanto fazendo o disco, quando não estava dando certo.
Foi feito realmente rápido. Todas as guias foram feitas
durante uma semana. E gravei 80 por cento dos vocais em um
dia, em torno de sete horas. Eu estava em uma “boa maré”.
Tinha sido um bom dia pra mim, e eu continuei.
Então qual foi o
problema?
Não eram as músicas.
Era a produção. Levou um bom tempo para nos
conscientizarmos de qual era o problema. Não conseguíamos
descobrir. Não tínhamos nem idéia do
porque que não sentíamos a mesma energia que
sentimos em Nevermind. Finalmente chegamos à conclusão
que os vocais não estavam altos o suficiente, e o baixo
estava completamente inaudível. Não conseguíamos
escutar as notas de Krist de jeito nenhum.
Eu acho que tem algumas músicas
em In Utero que poderiam ter sido um pouco mais “limpadas”.
Definitivamente Pennyroyal Tea. Essa não foi gravada
direito. Tem algo de errado com ela. Ela deveria ter sido
gravada como o Nevermind, porque eu sei que é uma música
forte, um hit. Estamos cogitando a idéia de regrava-la
ou remixa-la.
Você acerta e erra. É
uma coisa realmente doida sobre esse disco. Nunca estive tão
confuso em minha vida, mas ao mesmo tempo nunca fiquei tão
satisfeito com o que fizemos.
Vamos falar sobre sua composição.
Suas melhores músicas – “Teen Spirit”
, “Come as you Are” , “Rape Me”, “Pennyroyal
Tea” – todas começam com o verso em um
estilo baixo, taciturno. Então o refrão entra
em volume máximo e te atinge. O que vem antes, o verso
ou o refrão matador?
(longa pausa, aí ele
sorri) Não sei. Eu realmente não sei. Acho que
começo com o verso e vou até o refrão.
Mas estou ficando muito cansado dessa fórmula. E é
fórmula. E não há muita coisa que você
pode fazer com ela. Nós dominamo-la – para nossa
banda. Estamos ficando bem cansados dela.
É um estilo dinâmico.
Mas estou usando apenas dois tipos de dinâmicas. Existem
muitas outras que eu poderia estar usando. Krist, Dave e eu
estamos trabalhando nesta fórmula – essa coisa
de ir de baixo até alto – por tanto tempo, que
está realmente virando tedioso para nós. É
como : “OK, eu tenho esse riff. Eu tocarei-o baixo,
sem distorção, enquanto eu canto o verso. Agora
vamos ligar o pedal de distorção e bater na
bateria mais forte”
Quero aprender a ir entre essas
coisas, ir para frente e para trás, quase me tornar
psicodélico, de um modo, mas com muito mais estrutura.
É realmente uma coisa difícil a se fazer, e
eu não sei se somos capazes disso. – como músicos.
Músicas como “Dumb”
e “All Apologies” sugerem que você está
procurando um jeito de chegar até as pessoas sem usar
a fórmula, o efeito “big band”.
Com certeza. Eu gostaria que
nós tivéssemos gravado algumas músicas
como estas em todos nossos álbuns. Até colocar
“About a Girl” no Bleach foi um risco. Estava
curtindo muito pop. Estava gostando muito de R.E.M., e estava
curtindo todo tipo de músicas dos anos 60. Mas tinha
muita pressão com aquela cena social, o underground
– como o tipo de coisa que você tem no colegial.
E colocar uma música pop melosa, do tipo R.E.M., em
um disco grunge, naquela cena, era arriscado.
Nós falhamos em mostrar
o lado mais limpo e brilhante de nossa banda. O som gordo
da guitarra é o que a garotada quer escutar. Nós
gostamos de tocar essas coisas, mas eu não sei mais
por quanto tempo eu vou poder gritar até meus pulmões
estourarem , toda noite , por um ano inteiro, em turnê.
Às vezes acho que eu devia ter tomado o caminho de
Bob Dylan e cantado músicas onde minha voz não
ia me matar toda noite, aí eu poderia ter uma carreira,
se quisesse.
Então o que isso
significa para o futuro do Nirvana?
É impossível
eu olhar para o futuro e dizer que vou estar apto a tocar
músicas do Nirvana daqui a 10 anos. Não há
como. Não quero recorrer ao modo Eric Clapton. Não
degradando-o , de qualquer maneira. Eu tenho imenso respeito
por ele. Mas não quero mudar minhas músicas
para adequá-las à minha idade. (risos)
A música no In Utero
que gerou a maior controvérsia é “Rape
Me”. Tem um trocadilho brilhante, mas apareceram objeções
quanto ao título e a letra – não somente
por parte de DJs medíocres, mas por parte de algumas
mulheres que se sentem ultrajadas por um homem usando uma
palavra tão potente e inflamatória, tão
livremente.
Eu entendo esse ponto de vista,
e eu escutei-o muito. Falei várias vezes a mesma coisa
me arrependendo e tentando me defender. Basicamente, estava
tentando escrever uma música que apoiasse as mulheres
e lidasse com a questão do estupro. Nos últimos
anos, as pessoas tiveram dificuldades para entender qual é
nossa mensagem, o que nós estamos querendo transportar,
que eu decidi ser o mais impertinente possível. Quão
duramente eu deveria expor isso? Quão grande eu deveria
escrever as letras?
Não é uma imagem
bonita. Mas uma mulher que está sendo estuprada, que
está enfurecida com a situação... é
como “Vá em frente, estupre-me, pois você
vai ter de volta”. Sou crente em karma, e esse filho
da p*** vai ter o que ele merece, eventualmente. Esse homem
vai ser pego, ele vai pra prisão e vai ser estuprado.
“Então estupre-me, acabe logo com isso. Pois
você vai ter pior.”
O que sua esposa, Courtney,
achou da música quando ela escutou-a?
Acho que ela entendeu. Provavelmente
expliquei melhor para ela do que expliquei para você.
Também quero expor uma opinião, que eu realmente,
honestamente não queria ser controverso a. Essa é
a última coisa que eu queria fazer. Não queríamos
explicá-la, então isso iria irritar os pais
e algumas feministas, coisas como essas. Tenho muito desprezo
por alguém que faria algo do tipo (para uma mulher)
. Esse é o meu modo de dizer : “Faça isso
uma vez, e você pode se safar. Faça até
100 vezes. Mas você vai ser pego no fim.”
Quando você foi preso
pela acusação de violência doméstica
este verão, Courtney admitiu à polícia
que você guarda armas em sua casa. Por que você
sente que necessita estar armado?
Eu gosto de armas. Gosto de
atirar.
Aonde? Em que?
(risos) Quando vamos ao campo,
em um pátio de tiro. Não é um pátio
oficial, mas é permitido ter um nesse local. Há
um grande penhasco, então não há chance
de atirar por cima do penhasco e machucar alguém. E
não há ninguém em volta, por milhas.
Sem ficar muito politicamente
correto sobre isso, você acha que é perigoso
ter essas armas em sua casa, especialmente com sua filha,
Frances, por perto?
Não. É proteção.
Eu não tenho guarda-costas. Existem pessoas bem menos
famosas que eu e Courtney que foram abordadas e assassinadas.
Poderia ser uma pessoa, aleatoriamente, escolhendo uma casa
para invadir. Nós temos um sistema de segurança.
Na verdade, eu tenho uma arma que fica carregada, mas eu a
deixo segura, em uma gaveta em cima de um armário,
onde Frances nunca poderia alcançar.
E tenho uma M-16, que é
divertida de atirar. É o único esporte que gostei.
Não é algo pelo qual sou obcecado, ou condicionado.
Não acho nada de mais.
Como Courtney se sente
a respeito de deixar armas em casa?
Ela estava lá quando
eu as trouxe. Veja, eu não sou uma pessoa muito física.
Eu não seria capaz de parar um intruso que tivesse
uma arma ou uma faca. Mas não vou ficar parado e ver
minha família ser esfaqueada até a morte ou
estuprada na minha frente. Não pensaria duas vezes
em estourar os miolos de alguém se ele fizesse isso.
É por proteção. E às vezes é
divertido sair e atirar. (Pausa) Em alvos. Eu quero deixar
isso bem claro (risos).
Normalmente as pessoas
deduzem que alguém que vendeu alguns milhões
de discos esta realmente rico. Quão rico você
é? Quão rico você se sente? De acordo
com uma estória, você queria comprar uma casa
nova e colocar um estúdio nela, mas seu contador disse
que você não poderia pagar.
É, não posso.
Recebi um cheque, a um tempo atrás, por alguns royalties
de Nevermind, que é bem gordo. É estranho, na
verdade, muito estranho. Quando estávamos vendendo
muitos discos, durante Nevermind, eu pensei “Deus, eu
terei 10 ou 15 milhões de dólares”. Não
é o caso. Nós não somos ricos. Eu ainda
como macarrão com queijo Kraft – porque eu gosto,
estou acostumado com isso. Não somos pessoas extravagantes.
Não culpo qualquer garoto
por pensar que uma pessoa que vende 10 milhões de discos
é um milionário e será pelo resto de
sua vida. Não é o caso. Gastei um milhão
de dólares ano passado, e não tenho nem idéia
de como. Realmente. Eu comprei uma casa de $400,000. Impostos
foram em torno de $300,000. O que mais? Emprestei para minha
mãe algum dinheiro. Comprei um carro. Foi isso.
Você não tem
muito a mostra por esse milhão.
É surpreendente. Um
dos maiores motivos que não saímos em turnê
quando Nevermind estava estourado nos EUA foi porque eu pensei
: “Foda-se, por que eu devo sair em turnê? Tenho
essa dor crônica no estômago, eu poderia morrer
nessa turnê, estou vendendo muitos discos, posso viver
o resto da minha vida com um milhão de dólares.”
Mas não há razão em tentar explicar isso
para um garoto de 15 anos. Eu nunca teria acreditado.
Você se preocupa
com o impacto que seu trabalho, estilo de vida e decorrente
guerra com supercelebridades está tendo em Frances?
Ela pareceu perfeitamente contente em perambular pelo camarim
essa noite, mas é um mundo estranho para ela.
Estou bastante preocupado com
isso. Ela parece se atrair a quase todo mundo. Ela ama todo
mundo. E me entristece saber que ela se movimenta muito. Nós
temos duas babás, uma em tempo integral e outra mulher
mais velha que toma conta de Frances aos fins de semana. Mas
quando a levamos na turnê, ela fica junto das pessoas
muito tempo, e não pode ir ao parque freqüentemente.
Nós tentamos o máximo que podemos, mas levá-la
nas coisas de pré-escola. Mas é um mundo completamente
diferente.
Em “Serve the Servants”,
você canta “I tried hard to have a father/But
instead I had a dad” Você está preocupado
em cometer os mesmo erros como pai que deveram ter sido cometidos
quando você estava crescendo?
Não. Não estou
preocupado com isso de modo algum. Meu pai e eu somos pessoas
completamente diferentes. Eu sei que sou capaz de mostrar
muito mais afeição do que meu pai foi. Mesmo
se Courtney e eu divorciássemo-nos , eu nunca permitiria-nos
estar em uma situação onde existiriam vibrações
negativas entre nós, na frente de Frances. Esse tipo
de coisa pode acabar com uma criança, mas o motivo
que essas coisas acontecem é que os pais não
são muito inteligentes.
Não acho que Courtney
e eu estamos tão fodidos assim. Nós juramos
amor por todas as nossas vidas, e nós precisamos muito
disso pois, se há um objetivo em nossas vidas, é
dar para Frances a maior porção de amor que
conseguimos, o máximo de apoio que conseguimos. Essa
é uma coisa que eu sei que não vai dar errado.
Como foram as relações
entre o Nirvana, durante o ano passado?
Quando eu estava me drogando
eram realmente ruins. Não havia comunicação.
Krist e Dave, eles não entendiam meu problema com as
drogas. Eles nunca chegaram perto das drogas. Eles pensaram
em heroína do mesmo modo que eu pensei em heroína
antes de começar a usar. Foi muito triste. Não
nos falávamos com freqüência. Eles estavam
pensando o pior, como a maior parte das pessoas deveriam estar,
e eu não os culpo por isso. Mas nada é tão
ruim quanto parece. Desde que fiquei “limpo”,
tudo voltou ao normal.
Exceto Dave. Ainda estou meio
que preocupado com ele, porque ele ainda sente que pode ser
substituído a qualquer momento. Ele ainda se sente
como se ele...
Não passou no teste?
É. Eu não entendo
isso. Tento dar a ele o máximo de elogios possíveis.
Não sou uma pessoa que elogia com muita freqüência,
principalmente nos ensaios. “Vamos tocar essa, vamos
tocar aquela, vamos tocar de novo”. É só
isso. Acho que Dave é uma pessoa que precisa de reafirmação
de vez em quando. Eu percebo isso, então tento fazê-lo
mais freqüentemente
Então você
põe as coisas na mesa?
Sim. Peço a opinião
deles sobre as coisas. Mas ultimamente, são minhas
decisões. Eu sempre me sinto estranho dizendo isso,
soa egoísta. Mas nós nunca discutimos. Dave,
Krist e Eu nunca gritamos uns com os outros. Nunca.
Não é como se
eles estão com medo de dizer alguma coisa. Sempre peço
a opinião deles, e nós conversamos sobre o assunto.
E eventualmente, nós todos chegamos às mesmas
conclusões.
Não existiram questões
onde aconteceram, pelo menos, uma discussão mais quente?
Sim, os royalties das composições.
Eu ganho por todas as letras. Pela música, eu ganho
75 por cento e eles ganham o resto. Acho isso justo. Mas na
época que isso veio à tona, eu estava usando
drogas. E eles acharam que eu deveria começar a pedir
mais coisas. Eles estavam com medo que eu perdesse a cabeça
e colocasse-os sob salário, coisa do tipo. Mas até
aí, nós não gritamos entre nós.
E dividimos todo o resto igualmente.
Com todas suas “reservações”
sobre tocar “Smells like Teen Spirit” e escrever
o mesmo tipo de música repetidamente, você vê
um tempo em que não há Nirvana? Que você
vai tentar por sua conta?
Eu não acho que eu poderia
desenvolver uma coisa solo, o “The Kurt Cobain Project”
Não soa muito bem,
também.
Não (Risos). Mas sim,
gostaria de trabalhar com pessoas que são totalmente,
completamente o oposto do que estou fazendo agora. Algo bem
mais distinto, cara.
Isso não se identifica
bem para o futuro do Nirvana e o tipo de música que
vocês fazem juntos.
Isso foi o que eu vim meio
que indicando toda essa entrevista. Que nós estamos
quase esgotados. Nós chegamos ao ponto que as coisas
estão ficando repetitivas. Não há algo
que você possa ir além, não há
algo para planejar.
A melhor época que tivemos
foi quando Nevermind estava saindo, e nós saímos
naquela turnê americana onde estávamos tocando
em “clubs”. Os ingressos estavam sempre esgotados,
o disco estava fazendo o maior sucesso possível, e
existia aquele sentimento massivo no ar, essas vibrações
de energia. Algo muito especial estava acontecendo.
Eu odeio , na verdade, dizer
isso, mas não consigo ver essa banda durando mais que
uns dois álbuns, a não ser que nós realmente
trabalhássemos em experimentar. Convenhamos.
Quando as mesmas pessoas estão juntas fazendo o mesmo
trabalho, elas estão limitadas. Estou muito interessado
em estudar coisas diferentes, e eu sei que Dave e Krist estão
também. Mas não sei se somos capazes de fazê-lo
juntos. Não quero lançar um disco que soe parecido
com os últimos 3 discos.
Sei que vamos lançar
mais um álbum, no mínimo, e tenho uma boa idéia
de como vai soar : bem etéreo, acústico, como
o último álbum do R.E.M. Se eu pudesse somente
escrever algumas músicas tão boas quanto as
que eles escreveram.... não sei como essa banda faz
o que eles fazem. Deus, eles são os melhores. Lidaram
com o sucesso deles como santos e continuam fornecendo música
ótima.
Isso é o que eu realmente gostaria de ver essa banda
fazer. Pois estamos presos em um trilho. Fomos rotulados.
O que é R.E.M.? Rock Colegial? Isso não é
grudento. Grunge é um termo tão potente quanto
New Wave. Você não pode sair dele. Você
tem que tentar a sorte e esperar que um público completamente
diferente te aceite ou que o mesmo público cresça
com você.
E se os garotos simplesmente
disserem : “Não gostamos, caia fora”?
Ah... (risos) F***m-se.
[Rolling Stone, 27 de janeiro
de 1994]
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